Debate presidencial nos EUA foi 'tedioso' para o telespectador

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda

1) O debate da última quarta-feira (3) entre Barack Obama e Mitt Romney foi, antes de tudo, uma discussão substancial, quase até o aborrecimento. Falaram muito de impostos, de gastos, déficit público, seguro-saúde e, em menor medida, de suas respectivas filosofias de governo, mas tudo isso com um domínio do detalhe e do conhecimento das posições do outro que impressiona e dá inveja. Ao mesmo tempo, certamente entediaram boa parte dos telespectadores.

2) Sobre a pura substância, provavelmente as pesquisas dos próximos dias darão empate: um número equivalente de pessoas que pensaram que sobre a base dos temas discutidos Romney e Obama sustentaram argumentos, teses e réplicas pertinentes, com precisão e perícia semelhantes. Mas convém lembrar que a substância é só uma parte, e às vezes uma pequena parte, do que deixa um debate presidencial.

Eleições 2012 nos EUA
Eleições 2012 nos EUA

3) Com reserva do que as pesquisas indiquem, e estas notas são redigidas 15 minutos após o fim do debate, quer dizer, antes que se mobilize a comentocracia americana e muito antes que haja dados sólidos sobre a reação do público, Romney ganhou o debate, talvez inclusive de rua. Não porque teve razão sobre o fundo; não porque foi mais inteligente ou mais substantivo; não porque foi mais simpático ou menos "chorão". Mas por dois motivos fundamentais. Em primeiro lugar porque foi mais agressivo, mais crítico, mais ofensivo no sentido de uma equipe esportiva, e sobretudo porque Obama parecia cansado, letárgico, passivo, quase com "preguiça" de estar discutindo coisas tão importantes com um sujeito tão pequeno.

4) Romney ganhou a partida das expectativas, sem a menor dúvida. Nas pesquisas anteriores ao debate, quase por uma margem de 2 a 1, o eleitorado americano pensava que Obama ganharia o debate. Por bons motivos: é indubitavelmente mais culto, mais inteligente, mais intelectual e inclusive mais carismático que Romney. E é melhor orador não só que Romney, mas que a grande maioria dos presidentes e aspirantes americanos do último meio século. Mas tudo isso não serve necessariamente para ganhar um debate.

5) Por que Obama fracassou? Conversando com amigos com os quais assisti ao debate, que por sua vez são amigos de Obama, me ocorrem duas ou três explicações. Em primeiro lugar porque pensou, como sempre, que é infinitamente mais inteligente, culto e sofisticado que seu adversário e isso o levou a confiar em si mesmo. Em segundo, porque provavelmente pensou, talvez com um pouco mais de razão, que se não perdesse por uma margem excessiva no debate cujos temas eram os menos favoráveis para ele, ganharia. Excedeu-se em seu cálculo, mas pode ter tido um pouco de razão. E terceiro porque adotou, ao que parece, uma estratégia justamente adequada para três debates, cinco semanas antes de uma eleição, onde já leva uma vantagem importante.

6) Qual era a estratégia? A não ser que Obama me conte algum dia (coisa de que duvido, porque nem o conheço), trata-se de Mohamed Ali em sua disputa memorável com George Foreman: "rope-a-dope". Como lembrarão os velhos aficionados do boxe, nessa luta o antigo Cassius Clay se encostou nas cordas e deixou que seu adversário lhe aplicasse golpes no ventre e nos braços, segundo alguns porque desde o início lhe quebraram a mandíbula, mas sem se desproteger e pensando que nos 15 rounds ganharia por seu prestígio e sua resistência. Foi assim. Obama não desferiu golpes, não aproveitou as cinco ou seis oportunidades que Romney lhe deu de lhe acertar um gancho de esquerda demolidor no fígado; não respondeu com o vigor, a inteligência ou o sarcasmo que o caracterizam, a nenhuma das impertinências ou mentiras de Romney.

O próximo mês dirá se essa estratégia e o desempenho de Obama foram os mais acertados para uma disputa onde estava ganhando, mas por uma margem insuficiente e talvez para uma posição dessa natureza. Por enquanto, o debate foi ganho por Romney; Obama perdeu, mas continua ganhando a eleição, e Romney continua perdendo.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda foi chanceler do México e é autor de uma das mais extensivas biografias já publicadas sobre Che Guevara.

UOL Cursos Online

Todos os cursos