Desempenho político de Elba Esther evidenciam motivos de sua queda

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda

  • Reuters

    A líder do Sindicato dos Professores do México, Elba Esther Gordillo Morales, acusada de desviar mais de US$ 200 milhões em recursos públicos

    A líder do Sindicato dos Professores do México, Elba Esther Gordillo Morales, acusada de desviar mais de US$ 200 milhões em recursos públicos

No plano pessoal, lamento o ocaso da deusa do sindicalismo mexicano [Elba Esther Gordillo foi presa na quarta-feira (27) por desvio de verba]. Apesar da distância política - e pessoal - que se abriu entre nós há alguns anos, e que tentei explicar aqui em um longo ensaio, não se pode desejar a ninguém um final dessa natureza para sua história. Dois anos de recriminações mútuas e incontáveis agravos anteriores não apagam uma amizade de 20, pelo menos em meu manual de boas maneiras.

Digo final porque estou convencido de dois lugares comuns: um, o governo de Peña Nieto tem provas de que os excessos de insensibilidade, mau gosto e desperdício da professora eram crimes, e não simples erros de julgamento; e mostrará que o SNTE nunca autorizou, e, pelo contrário, proibiu que ela dilapidasse suas cotas em tais esbanjamentos. Por outro lado, se garantirá o devido processo e se respeitará a presunção de inocência de Elba Esther. Seria totalmente incongruente exigir o cumprimento desses dois preceitos jurídicos em filmes documentários ou para cidadãos franceses, e não para ela.

Dito isso, a queda tem uma única responsável, e se chama Elba. Três traços de seu desempenho político o comprovam amplamente e se resumem no cansado mas útil termo "hubris" (mal traduzido do grego antigo como arrogância). Primeiro: EEG foi uma grande dirigente sindical - consumou a metamorfose do magistério mexicano em um amplo estamento de classe média baixa -, mas cada vez que se aventurava fora de sua zona natural tropeçava ou simplesmente fracassava. Isso ocorreu em sua ambição de ser líder do PRI e chefe de sua bancada legislativa, de aumentar e ampliar o IVA, de intervir na política educacional, de formar seu próprio partido e de realizar alianças eleitorais duradouras e produtivas. Pensava que seus talentos sindicais poderiam se transferir automaticamente para outros âmbitos. Não foi possível.

Entre outras razões, pela segunda característica: uma relutância costumeira a ler, estudar, discutir a sério (não debater e reafirmar suas posições preexistentes), a cercar-se de algo mais que acólitos e a organizar minimamente sua agenda e seu tempo. Dependia de seus acólitos para saber o que diziam os jornais, os livros políticos, os opúsculos especializados ou mesmo as descrições técnicas de temas básicos (outra vez, o IVA ) e para pôr ordem em seu caos cotidiano.

Seu desprezo por esses assuntos só era igualado por seu desdém pelas pessoas escolhidas para conduzi-los. Na mente de EEG, sua intuição, sua experiência e seus confidentes bastavam para lhe informar e organizar tudo. Não lhe informaram sobre o essencial.

Em terceiro lugar, nunca entendeu que quando as pesquisas, os interlocutores independentes, os ensaios e as análises lhe repetiam incessantemente, há pelo menos dez anos, que estava construindo para si uma imagem pública assustadora no seio de toda a sociedade mexicana, era verdade. Seu comportamento pessoal, ao socializar-se e não poder ser simplesmente sublimado por se tratar de mais uma sindicalista excêntrica e excessiva, foi rejeitado por uma imensa maioria dos mexicanos que se inteiravam, e cada vez se inteiravam mais.

Alguns de seus dialogantes talvez buscassem molestá-la, deprimi-la ou fazê-la perder a paciência; outros certamente buscavam ajudá-la. Mas a realidade logo superou as intenções de seus expositores: os abusos de Elba - a falta de transparência e prestação de contas no uso das cotas sindicais e a obrigatoriedade das mesmas - acabaram por gerar uma sensação de despotismo não muito ilustrado e dotado de um grande cinismo aparente. Sempre alegava que seus professores lhe queriam bem (com efeito, até certo ponto); que o "povo" a admirava (menos certo) e que mantinha uma magnífica relação com as elites mexicanas (falso, a suas costas), exceto a intelectual.

Pagaremos caro pela "hubris" todos os que sofremos. Mas quanto mais poder, riqueza e ambição se tem, piores são seus estragos. A prova... aí está.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Jorge Castañeda

Jorge Castañeda foi chanceler do México e é autor de uma das mais extensivas biografias já publicadas sobre Che Guevara.

UOL Cursos Online

Todos os cursos