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Vazamentos da Lava Jato


Temendo eleição de Haddad, Lava Jato discutiu barrar entrevista de Lula

Do UOL, em São Paulo

09/06/2019 22h47

Uma série de reportagens publicadas hoje pelo site "The Intercept Brasil" revela mensagens trocadas por procuradores da Lava Jato no aplicativo Telegram. Nas conversas, eles discutiram maneiras de evitar que fosse realizada uma entrevista do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao jornal "Folha de S. Paulo", autorizada pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Ricardo Lewandowski, no ano passado.

A preocupação, segundo os diálogos revelados pelo site, era de que a entrevista pudesse ajudar a eleger o então candidato à Presidência Fernando Haddad (PT) ou "permitir a volta do PT". A entrevista com a colunista Mônica Bergamo aconteceria a menos de duas semanas do primeiro turno das eleições. Haddad foi para o segundo turno e acabou derrotado por Jair Bolsonaro (PSL).

A movimentação no grupo dos procuradores começou assim que os integrantes souberam da decisão de Lewandowski. "Que piada!!! Revoltante!!! Lá vai o cara fazer palanque na cadeia. Um verdadeiro circo. E, depois de Mônica Bergamo, pela isonomia, devem vir tantos outros jornalistas? E a gente aqui fica só fazendo papel de palhaço com um Supremo desse? ", escreveu a procuradora Laura Tessler.

"Sei lá, mas uma coletiva antes do segundo turno pode eleger o Haddad", completou Laura.

Para tentar amenizar eventuais benefícios da entrevista ao PT, o procurador Januário Paludo sugeriu que ela fosse transformada em uma coletiva, com vários jornalistas. "Plano a: tentar recurso no próprio STF, possibilidade zero. Plano b: abrir para todos fazerem a entrevista no mesmo dia. Vai ser uma zona, mas diminui a chance da entrevista ser direcionada", escreveu.

Outros sugeriram que a Polícia Federal interviesse para que a entrevista acontecesse depois das eleições. A entrevista acabou sendo realizada apenas em abril deste ano.

Em sua contra no Twitter, Haddad disse que "podemos estar diante do maior escândalo institucional da história da República". "Muitos seriam presos, processos teriam que ser anulados e uma grande farsa seria revelada ao mundo. Vamos acompanhar com toda cautela, mas não podemos nos deter. Que se apure toda a verdade!", escreveu o petista.

Entrevista suspensa

Em setembro do ano passado, antes das eleições presidenciais, o ministro Luiz Fux suspendeu a liminar concedida por Lewandowski que autorizava a "Folha" a entrevistar Lula na prisão, em Curitiba.

Em sua decisão, Fux disse que, se a entrevista já tivesse sido realizada não poderia ser publicada, o que estabeleceu uma censura prévia ao veículo de imprensa.

A decisão foi comemorada no grupo de procuradores. Nas conversas divulgadas pelo "The Intercept Brasil", o coordenador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, e os procuradores Januário Paludo e Athayde Costa dão risada, brincam que o "clima do STF deve estar ótimo" e dizem que "vai ser uma guerra de liminares"

Em 18 de abril deste ano, o presidente do STF, Dias Toffoli, liberou o ex-presidente para dar entrevistas à "Folha" e a outros veículos que pediram autorização para falar com o ex-presidente na prisão. Lula foi entrevistado pela "Folha" e pelo jornal "El País" em 26 de abril.

Outro lado

Em nota, a força-tarefa da Lava Jato falou em "ataque criminoso" aos membros do MPF-PR e lembrou o ataque de hackers ao celular do ministro Sergio Moro, na semana passada.

Segundo o documento, os procuradores "mantiveram, ao longo dos últimos cinco anos, discussões em grupos de mensagens, sobre diversos temas, alguns complexos, em paralelo a reuniões pessoais que lhes dão contexto".

Esses procuradores seriam amigos próximos e, "nesse ambiente, são comuns desabafos e brincadeiras". "Muitas conversas, sem o devido contexto, podem dar margem para interpretações equivocadas.

Por fim, "a força-tarefa lamenta profundamente pelo desconforto daqueles que eventualmente tenham se sentido atingidos", mas reitera que nenhum pedido de esclarecimento ocorreu antes das publicações, "o que surpreende e contraria as melhores práticas jornalísticas".

"De todo modo, eventuais críticas feitas pela opinião pública sobre as mensagens trocadas por seus integrantes serão recebidas como uma oportunidade para a reflexão e o aperfeiçoamento dos trabalhos da força-tarefa", completou a nota.

Segundo o "The Intercept Brasil", o site não entrou em contato com procuradores e outros envolvidos nas reportagens "para evitar que eles atuassem para impedir sua publicação e porque os documentos falam por si". "Entramos em contato com as partes mencionadas imediatamente após publicarmos as matérias", disse o veículo.

O site também afirma que recebeu o material de uma fonte anônima há algumas semanas, bem antes da notícia sobre a invasão do celular de Moro.

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