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Novo vazamento: mensagens indicam que Lava Jato acatou sugestão de Moro

Fátima Meira/Futura Press/Estadão Conteúdo
O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro durante audiência no Senado Imagem: Fátima Meira/Futura Press/Estadão Conteúdo

Do UOL, em Brasília

2019-06-20T19:45:39

2019-06-21T12:11:03

20/06/2019 19h45Atualizada em 21/06/2019 12h11

Mensagens privadas que teriam sido trocadas entre integrantes da Lava Jato indicam que procuradores acataram sugestão do ex-juiz Sergio Moro para o primeiro interrogatório do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo informações divulgadas hoje (20) pelo jornalista e blogueiro do UOL Reinaldo Azevedo, em parceria com o portal "The Intercept Brasil", no programa "O É da Coisa", da Rádio BandNews FM.

Após o novo vazamento, o Ministério Público Federal afirmou que a informação é "falsa" (veja mais abaixo). o Ministério da Justiça disse desconhecer a autenticidade das mensagens atribuídas a Moro divulgadas na primeira leva de reportagens do site às quais as mensagens agora reveladas fazem referência.

Com base na possível troca de mensagens de Moro, Deltan Dallagnol (responsável pela Lava Jato) e do procurador Carlos Fernando dos Santos Lima no aplicativo Telegram, Reinaldo afirmou que, após conselho do ex-juiz a Dallagnol, a Lava Jato tirou a procuradora Laura Tessler do primeiro interrogatório de Lula, em 10 de maio de 2017, quando era réu no processo do tríplex.

A primeira reportagem divulgada pelo "The Intercept Brasil" apontou que Moro falou para Dallagnol que a procuradora era "excelente profissional, mas para inquirição em audiência, ela não vai muito bem".

Segundo Reinaldo, Deltan repassou a mensagem de Moro a Carlos Fernando e pediu para fazerem uma "uma reunião sobre estratégia de inquirição sem mencionar ela [a procuradora]".

As mensagens reveladas indicam que os procuradores teriam optado por tirar Laura e levar ao interrogatório os procuradores Roberson Pozzobon e Júlio Noronha.

Segundo os diálogos publicados pelo site The Intercept Brasil na semana passada, o então juiz Sergio Moro teria trocado mensagens com Dallagnol no dia 13 de março de 2017. Na ocasião, Moro teria reclamado do desempenho da procuradora Laura Tessler:

Moro - 12:32:39. - Prezado, a colega Laura Tessler de vcs é excelente profissional, mas para inquirição em audiência, ela não vai muito bem. Desculpe dizer isso, mas com discrição, tente dar uns conselhos a ela, para o próprio bem dela. Um treinamento faria bem. Favor manter reservada essa mensagem.
Dallagnol - 12:42:34. - Ok, manterei sim, obrigado!

De acordo com as novas mensagens, que vieram à tona hoje, Dallagnol teria, em seguida, contatado o então procurador Carlos Fernando dos Santos Lima:

Deltan - 12:42:34 - Recebeu a msg do moro sobre a audiência tb?
Carlos Fernando - 13:09:44 - Não. O que ele disse?
Deltan - 13:11:42 - Não comenta com ninguém e me assegura que teu telegram não tá aberto aí no computador e que outras pessoas não estão vendo por aí, que falo
Deltan - 13:12:28 - (Vc vai entender por que estou pedindo isso)
Carlos Fernando - 13:13:31 - Ele está só para mim.
Carlos Fernando - 13:14:06 - Depois, apagamos o conteúdo.
Deltan - 13:16:35 - Prezado, a colega Laura Tessler de vcs é excelente profissional, mas para inquirição em audiência, ela não vai muito bem. Desculpe dizer isso, mas com discrição, tente dar uns conselhos a ela, para o próprio bem dela. Um treinamento faria bem. Favor manter reservada essa mensagem.
Carlos Fernando - 13:17:03 - Vou apagar, ok?
Deltan - 13:17:07 - apaga sim
Carlos Fernando - 13:17:26 - Apagado.
Deltan - 13:17:26 - Vamos ver como está a escala e talvez sugerir que vão 2, e fazer uma reunião sobre estratégia de inquirição, sem mencionar ela
Carlos Fernando - 13:18:11 - Por isso tinha sugerido que Júlio ou Robinho fossem também. No do Lula não podemos deixar acontecer.
Carlos Fernando - 13:18:32 - Apaguei.

Durante depoimento ontem na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado, o senador Nelsinho Trad (PSD-MS) perguntou a Moro se ele "participou da orientação de trocas de agentes protagonistas nessa operação", em referência a Laura Tessler.

Moro respondeu que não se recordava dessa mensagem a Dallagnol e que não determinou a substituição da procuradora.

"Eu não me recordo especificamente dessa mensagem, mas o que consta no caso divulgado pelo site é uma referência de que determinado procurador da República não tinha o desempenho muito bom em audiência e para dar uns conselhos para melhorar. Em nenhum momento no texto, há alguma solicitação de substituição daquela pessoa", declarou Moro.

Ministério da Justiça diz desconhecer autenticidade

A assessoria de imprensa do Ministério da Justiça informou que não reconhece a autenticidade da "suposta mensagem atribuída" ao ministro, "pois pode ter sido editada ou adulterada pelo grupo criminoso, que mesmo se autêntica nada tem de ilícita ou antiética".

A pasta informou também que não há contradição entre a mensagem e o depoimento de Moro no Senado, ontem.

"Cabe esclarecer que o texto atribuído ao Ministro fala por si, não havendo qualquer solicitação de substituição da procuradora, que continuou participando de audiências nos processos e atuando na Operação Lava Jato", comunica a nota.

A nota do Ministério da Justiça segue a mesma linha adotada por Moro na CCJ. Aos senadores, ele não confirmou nem negou que as mensagens sejam verdadeiras. Mas destacou que, caso sejam, não contêm irregularidades.

Moro: "Se houver alguma irregularidade da minha parte, eu saio. Mas não houve"

UOL Notícias

Informação é "falsa", diz Ministério Público

Na quinta-feira (20), a assessoria de imprensa do Ministério Público Federal (MPF) no Paraná afirmou que não iria se manifestar. No entanto, na manhã de sexta-feira (21), depois de a notícia ter sido publicada, a força-tarefa da Lava Jato divulgou uma nota em que diz que a informação é "falsa".

"A procuradora da República Laura Tessler participou, na manhã de 13/03/2017, de audiência em ação penal em que acusado o ex-ministro Antônio Palocci", lembrou a assessoria da Procuradoria. "Além de seguir realizando a audiência na tarde do mesmo dia, a procuradora participou de todas as subsequentes do caso, nos dias 14/03/2017, 15/03/2017, 21/03/2017, e 22/03/2017."

O MPF negou a substituição da procuradora Laura. As audiências do caso Lula foram feitas por outros dois membros do Ministério Público, de acordo com os assessores da Lava Jato.

"Os procuradores da República Júlio Noronha e Roberson Pozzobon, que participaram em 11/05/2017 do interrogatório de Lula na ação penal sobre o tríplex no Guarujá, foram os mesmos que estiveram presentes nas principais medidas investigatórias do caso em 04/03/2016 (como na oitiva do ex-presidente no aeroporto de Congonhas e na busca no Instituto Lula), na exposição pública do conteúdo da denúncia em 14/09/2016, e em 16 das 18 audiências judiciais do caso realizadas no ano de 2017."

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