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Vazamentos da Lava Jato


Após ataques de Bolsonaro, Glenn diz que risco de ser preso "é grande"

30.jul.2019 - Ato de apoio ao jornalista Glenn Greenwald na ABI (Associação Brasileira de Imprensa), no centro do Rio - LUCAS REZENDE/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
30.jul.2019 - Ato de apoio ao jornalista Glenn Greenwald na ABI (Associação Brasileira de Imprensa), no centro do Rio Imagem: LUCAS REZENDE/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Igor Mello e Carolina Farias

Do UOL, no Rio

30/07/2019 19h42Atualizada em 10/09/2019 14h36

Após ser alvo de ataques públicos por parte do presidente Jair Bolsonaro (PSL), o jornalista Glenn Greenwald, editor do site The Intercept Brasil, afirmou saber que há um grande risco de ser alvo de um mandado de prisão. Ele comanda o time de jornalistas que faz uma série de reportagens com base em conversas de procuradores da força-tarefa da Lava Jato e do ex-juiz Sergio Moro --hoje ministro da Justiça e Segurança Pública.

"Quando o presidente está te ameaçando por três dias consecutivos, usando seu nome como Jair Bolsonaro está fazendo contra mim, obviamente o risco é grande de eu ser preso. Nós sabemos isso todo o tempo", afirmou ele, em entrevista à imprensa na noite de hoje.

O jornalista é homenageado em um ato na sede da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), no centro do Rio de Janeiro. O ato reuniu dezenas de deputados federais, estaduais e políticos, além de artistas como Chico Buarque, Wagner Moura, Camila Pitanga, Paulo Betti e Julia Lemmertz.

A organização do evento estimou que 3.000 pessoas compareceram ao ato —cerca de mil conseguiram acesso ao auditório e outras 2.000 permaneceram na entrada e outros espaços do edifício da entidade.

30.jul.2019 - Glenn Greenwald em entrevista durante ato na ABI (Associação Brasileira de Imprensa) - Igor Mello/UOL
30.jul.2019 - Glenn Greenwald em entrevista durante ato na ABI (Associação Brasileira de Imprensa)
Imagem: Igor Mello/UOL

Greenwald destacou que os ataques sofridos por ele ameaçam a democracia e abrem um precedente perigoso contra todos os repórteres no país. "Se [Sergio] Moro pudesse me ameaçar ou prender por causa de uma reportagem que estou fazendo, podem fazer isso com todos vocês. Todos os jornalistas, mesmo os que não amam o jornalismo que eu faço", lembrou.

Em fala durante o ato, o compositor Chico Buarque prestou solidariedade ao jornalista e defendeu as reportagens publicadas pelo site.

"Agora está explícito pra quem quiser ver e aprender o quanto se armou, o quanto se tramou, para eleger esse governo, o que se armou por baixo dos panos pelos grandes órgãos de comunicação, exaltando seus heróis juízes e procuradores. O juiz Sergio Moro foi eleito o homem do ano, o homem que faz a diferença e hoje sabemos qual a diferença. É 'Lula tá preso, babaca', 'Dilma caiu, babaca'. Eu dentro da minha babaquice quero prestar minha homenagem, minha solidariedade aos jornalistas do Intercept, e especialmente a Glenn Greenwald pelas ameaças que vem sofrendo do Bolsonaro 'de pegar uma cana' e do ministro Moro de ser deportado", disse Chico.

Exibido no ato, um vídeo gravado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), em apoio ao jornalista americano recebeu vaias. Nele, Maia defendeu a liberdade de imprensa e o sigilo da fonte.

Chico Buarque discursa em ato pró-Glenn Greenwald no Rio

UOL Notícias

Apoiado por Bolsonaro, Moro deu diferentes declarações sobre o vazamento de mensagens —ele minimizou o teor das falas e chegou a dizer que não reconhecia a autenticidade do conteúdo. A suspeita é de que um suposto hacker tenha obtido as mensagens por meio de invasão criminosa ao aplicativo Telegram instalado em celulares de autoridades. O suspeito disse ter repassado o material a Glenn Greenwald sem contrapartida financeira.

A Constituição garante a jornalistas o sigilo da fonte. Segundo Greenwald, a publicação da série de reportagens com base no vazamento obedece a interesse público e não constitui crime.

No último sábado (27), Bolsonaro afirmou, em entrevista após evento no Rio, que o jornalista americano "talvez pegue uma cana aqui no Brasil". O presidente disse ainda que Greenwald e o marido, deputado federal David Miranda (PSOL-RJ), são "malandros" por terem se casado e adotado dois filhos no país.

Bolsonaro fazia referência a uma portaria publicada por Moro, no dia anterior, que estabelece um rito sumário de deportação de estrangeiros considerados "perigosos" ou que tenham praticado ato "contrário aos princípios e objetivos dispostos na Constituição Federal".

"Ele [Greenwald] não se encaixa na portaria. Até porque ele é casado com outro homem e tem meninos adotados no Brasil. Malandro, malandro, para evitar um problema desse, casa com outro malandro e adota criança no Brasil. Esse é o problema que nós temos. Ele não vai embora, pode ficar tranquilo. Talvez pegue uma cana aqui no Brasil, não vai pegar lá fora não", afirmou o presidente.

O jornalista rebateu a declaração de Bolsonaro, afirmando que é casado com Miranda há quase 15 anos. "É quase insana essa teoria", disse ele.

Os filhos de Glenn e Miranda —Jonathan, 8, e João, 12— também foram levados ao ato. Questionado se tinha orgulho do pai, em referência a Glenn, o mais velho respondeu: "[Tenho orgulho] Dos dois".

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