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À espera de solução para crise, Rio vê pouca ação militar em uma semana de intervenção

Policial observa a favela da Rocinha, palco recente de disputas do crime organizado - LEONARDO COELHO/ESTADÃO CONTEÚDO
Policial observa a favela da Rocinha, palco recente de disputas do crime organizado Imagem: LEONARDO COELHO/ESTADÃO CONTEÚDO

Marina Lang e Luis Kawaguti

Do UOL, no Rio

22/02/2018 20h06

Uma semana após o início da intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro --decretada na última sexta-feira (16)--, moradores da capital fluminense afirmaram ao UOL estarem estranhando não ver soldados nas ruas ou grande quantidade de operações militares.

O Comando Militar do Leste disse que os esforços, por enquanto, estão sendo concentrados em melhorar a estrutura dos órgãos de segurança pública e que mudanças devem ser detalhadas na próxima semana. Na noite desta quinta-feira, fontes do Exército afirmaram que o interventor federal, o general Walter Braga Netto, nomeará um general como novo secretário de Segurança Pública do Estado. 

Já analistas de segurança dizem que a pequena quantidade de ações visíveis pode ser resultado de falta de planejamento. O governo federal nega improviso na intervenção, que, segundo o Planalto, teria sido planejada. Quase sete dias após a assinatura do decreto pelo presidente Michel Temer (MDB), o plano ainda não foi revelado.

“Estou esperançoso, mas não vi nada acontecer ainda. Eu esperava uma verdadeira intervenção, queria ver os militares combatendo o tráfico de drogas”, disse o motorista de ônibus Vinícius de Souza Antão, 50.

Vinícius de Souza Antão disse ter estranhado a ausência de tropas federais nas ruas - UOL - UOL
Vinícius de Souza Antão disse ter estranhado a ausência de tropas federais nas ruas
Imagem: UOL

“Não resolveram nada ainda, vi que estão atuando só em pontos específicos, mas ainda é cedo e precisamos dar tempo para eles”, afirmou o comerciante Marcos de Oliveira Arruda.

O porta-voz do Exército no Rio, coronel Carlos Frederico Gomes Cinelli disse que, no momento, o foco não é fazer grande quantidade de operações.

Não haverá tanques nas ruas para uma intervenção que é federal. Há um estereótipo estabelecido por livre associação com uma intervenção militar. A intervenção não é militar e sim federal.

Coronel Carlos Frederico Gomes Cinelli, porta-voz do Exército no Rio

Após a assinatura do decreto, o Congresso ratificou a intervenção no começo da semana. Desde então, os militares participaram de duas ações --não no âmbito da intervenção, mas da operação de GLO (Garantia de Lei e de Ordem), que vigora desde o ano passado.

Entre a noite de segunda-feira (19) e a tarde de terça-feira (20), tropas federais e forças policiais do Rio realizaram blitze em ruas e rodovias de acesso ao Rio. Cerca de 3.000 militares e policiais bloquearam rodovias na divisa do Estado, na periferia da capital e ao redor de favelas onde o crime organizado atua --entre elas, a Kelson's, situada ao lado de uma base da Marinha, na Penha (zona norte).

Um dos objetivos era evitar a movimentação de armas e a fuga de criminosos procurados do Estado. Ao fim da ação, que durou 24 horas, 11 pessoas foram presas e seis armas e seis granadas, apreendidas.

Na quarta-feira (21), militares e agentes penitenciários realizaram varredura na penitenciária Milton Dias Moreira, em Japeri, na Baixada Fluminense. O local havia sido palco de uma rebelião no fim de semana.

O ajudante Natálio de Jesus Almeida, 43, mora em uma favela controlada pela facção Amigos dos Amigos ao lado do presídio. “Os militares estiveram lá perto, no presídio, mas depois que eles foram embora não mudou nada na comunidade. Os criminosos não foram intimidados”, afirmou.

Segundo o coronel Cinelli, as ações dessa semana já estavam previstas no cronograma da operação de GLO. “O que ocorre agora são operações por meio da GLO. Não vai haver afluxo de tropas federais, o que estamos priorizando é a estrutura das polícias”, disse.

Nesta quinta-feira (22), forças policiais do Estado também realizaram operações sem apoio das Forças Armadas na favela da Maré, para cumprir mandados de prisão, e no morro do Juramento, para combater roubo de cargas e tráfico de drogas.

O comerciante Luis Alberto Renales disse que não havia outro caminho fora a intervenção - UOL - UOL
O comerciante Luis Alberto Renales disse que não havia outro caminho fora a intervenção
Imagem: UOL

Moradores de áreas mais ricas do Rio dizem, por sua vez, que apesar de as Forças Armadas não estarem fazendo patrulhamentos ostensivos seria possível sentir sensação de segurança.

“Eu não esperava que mandassem mais tropas, mas já dá para se sentir um pouco mais seguro na zona sul. Não tinha outro caminho fora a intervenção”, disse o comerciante Luis Alberto Renales, 60, de Copacabana.

Moradores do Rio opinam sobre a intervenção federal

UOL Notícias

No começo da semana, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, causou polêmica ao defender a adoção de mandados de busca e apreensão coletivos durante a atuação das Forças Armadas no Rio. Segundo ele, mandados desse tipo são "fundamentais" para a intervenção. 

A medida provocou críticas de juristas que veem risco de violações de direitos de moradores de comunidades do Rio. Após as críticas, o ministro da Justiça, Torquato Jardim, disse que a intervenção respeitaria todos as garantiras constitucionais e o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, desembargador Milton Fernandes, afirmou que mandados desse tipo não seriam aceitos no Estado.

Análise: "Tudo está acontecendo na base do improviso"

Na visão de Maurício Santoro, cientista político e pesquisador da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), a intervenção federal ainda é uma “incógnita”.

“Ninguém sabe o que vai acontecer nas próximas semanas. Tudo está acontecendo na base do improviso, enquanto há também um sentimento forte na sociedade de que algo deveria ser feito”, afirmou, em entrevista ao UOL por telefone.

“Basicamente, o governo fez uma grande aposta da segurança pública para a agenda das eleições de outubro”, disse. O porta-voz de Michel Temer, Alexandre Parola, afirmou ontem que a decisão da intervenção na área de segurança do Rio não teve viés eleitoral. "A agenda eleitoral não é, nem nunca o será, causa das ações do presidente. Assim o comprovam as reformas propostas na Ponte para o Futuro e que têm sido implementadas desde o primeiro dia da administração", disse Parola.

Já a pesquisadora Jacqueline Muniz, do Departamento de Segurança Pública da UFF (Universidade Federal Fluminense), disse ver banalização no emprego das Forças Armadas em operações de GLO.

“Apesar do uso frequente das forças, essas operações não geraram resultados substantivos, até por seu caráter de improvisação. O uso das Forças Armadas tem sido banalizado. Isso, além de explicitar que nós não temos uma política nacional de segurança pública, fragiliza as corporações", disse.

O governo federal afirmou, por meio da Secretaria de Comunicação do Palácio do Planalto, que a ação de intervenção foi planejada “como foram as Olimpíadas, cujos resultados foram excelentes”.

“Não há motivo político e eleitoral. O governo federal está criando um ministério na área de segurança pública para resolver essa questão de forma definitiva”, reforçou.

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