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Vazamentos da Lava Jato

Em 1ª aparição em meio à crise, Moro viaja com "pioneiros" da Lava Jato

Sergio Moro em evento em Manaus - Leandro Prazeres/UOL
Sergio Moro em evento em Manaus Imagem: Leandro Prazeres/UOL

Leandro Prazeres

Do UOL, em Manaus

10/06/2019 17h33Atualizada em 10/09/2019 17h47

Em meio ao turbilhão político causado pelo vazamento de conversas com o procurador da República Deltan Dallagnol, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, tentou demonstrar tranquilidade em sua primeira aparição pública desde a publicação das reportagens do site "The Intercept". Em viagem a Manaus, Moro se cercou do núcleo duro da Polícia Federal durante os primeiros anos da Operação Lava Jato.

A crise que atingiu Moro começou no domingo, quando o site "The Intercept" publicou uma série de reportagens reproduzindo diálogos entre Moro e Deltan Dallagnol, um dos coordenadores da Operação Lava Jato no Paraná.

Nas conversas, Moro dá sugestões a Deltan sobre a ordem na qual as operações deveriam acontecer, dá dicas sobre possíveis informantes e dá indicações sobre possíveis decisões suas em resposta a petições feitas pelos procuradores.

Juristas classificaram a conduta como irregular, uma vez que a legislação prevê que o juiz não pode colaborar ou interferir na condução de investigações conduzidas pelo Ministério Público.

Sua chegada a Manaus na manhã de hoje foi cercada da expectativa. As únicas manifestações do ministro sobre o assunto haviam sido feitas por meio de seu perfil no Twitter e de uma pequena nota divulgada pelo MJSP (Ministério da Justiça e Segurança Pública).

O ministro e sua equipe viajaram a Manaus para participar da reunião do Consej (Conselho Nacional de Secretários de Justiça), se encontrar com políticos locais e visitar o Compaj (Complexo Penitenciário Anísio Jobim), onde 55 detentos foram mortos em maio. A ida a Manaus estava prevista na agenda do ministro desde sexta-feira (7).

Moro chegou a Manaus acompanhado de dois dos principais personagens dos primeiros anos da Operação Lava Jato: Igor Romário de Paula e Rosalvo Franco. O primeiro foi coordenador da Operação Lava Jato e hoje é diretor de combate ao crime organizado da Polícia Federal. O segundo é o atual secretário de Operações Integradas, órgão criado por Moro na nova composição do ministério.

Nenhum dos dois quis falar com a imprensa. Oficialmente, a assessoria de imprensa do MJSP afirma que a ida da dupla a Manaus já estava acertada e não teve relação com as reportagens publicadas pelo "The Intercept".

O UOL apurou que, internamente, a equipe de Moro acredita que o vazamento das mensagens obtidas pelo site ocorreu, de fato, por meio do telefone celular do procurador Deltan Dallagnol.

Ainda não se sabe se o conteúdo que o site disse ter sido obtido por um hacker contém conversas entre Dallagnol e outros envolvidos na Operação Lava Jato.

10.jun.2019 - O ministro da Justiça e ex-juiz federal, Sergio Moro, concede entrevista em Manaus - Divulgação/Secom/Governo do Amazonas - Divulgação/Secom/Governo do Amazonas
O ministro da Justiça e ex-juiz federal, Sergio Moro, concede entrevista em Manaus
Imagem: Divulgação/Secom/Governo do Amazonas

Esforço para aparentar tranquilidade

Em Manaus, a estratégia adotada por Moro foi a de demonstrar tranquilidade e naturalidade mesmo diante da maior crise enfrentada por Moro desde que assumiu o cargo.

Em Manaus, Moro concedeu uma breve entrevista coletiva, após ignorar o vazamento das mensagens em seu discurso para uma plateia repleta de secretários estaduais de Justiça.

Moro respondeu às perguntas dos jornalistas durante cerca de 5 minutos. Ao falar, manteve tom de voz calmo e interrompeu a entrevista após algumas perguntas sobre o assunto -procedimento semelhante ao que ele tem adotado em Brasília sempre que as questões começam a incomodá-lo.

Durante as agendas do dia, deu tempo para almoçar no restaurante o hotel ao lado de integrantes de sua equipe como normalmente faz no restaurante do Ministério da Justiça. Desta vez, no entanto, a entrada do refeitório foi bloqueada enquanto ele estava lá. Também sobrou tempo para ele posar para uma selfie com um fã que o aguardava em cadeira de rodas no saguão do hotel.

A única falha aparente em sua estratégia de minimizar o escândalo foi a confusão na hora em que ele se referiu à autenticidade das mensagens. Na breve entrevista, ele oscilou entre colocar em dúvida a veracidade das conversas e tratá-las como verdadeiras.

"Eu nem posso dizer que são autênticas. São coisas que aconteceram anos atrás. Não tenho mais essas mensagens. Não tenho registro disso", disse, deixando implícito que as mensagens poderiam não ser verdadeiras.

"Ali, basta ler o que se tem lá [para ver que não há orientação]. o fato grave é a invasão criminosa dos celulares dos procuradores", fazendo referência às mensagens como se fossem verdadeiras.

Pessoas próximas ao ministro afirmam que a tranquilidade com a qual ele enfrentou o público no dia seguinte à revelação das conversas com Deltan não é apenas aparente. Elas apontam que o ministro não utiliza o Telegram há pelo menos dois anos. Ao ser informado de que o material obtido pelo "Intercept" também teria mensagens de voz, Moro disse, segundo fontes, que estava tranquilo porque não tinha o hábito de enviar mensagens de voz.

Durante a visita à Superintendência da Polícia Federal no Amazonas, Moro também chegou acompanhado de Igor Romário e Rosalvo Franco. Foi recebido com animação pelos poucos agentes que estavam no local no momento. Na recepção, um grupo de quatro jornalistas o aguardava, mas ele não respondeu às perguntas que lhe foram feitas. Na hora de ir embora, deixou o prédio pela saída dos fundos.

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