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Por que mensagens enviadas por Dallagnol a Moro têm o mesmo horário?

 Pedro Ladeira - 19.fev.2019/Folhapress
O ministro da Justiça, Sergio Moro Imagem: Pedro Ladeira - 19.fev.2019/Folhapress

Gabriel Sabóia

Do UOL, no Rio

2019-06-13T11:35:49

13/06/2019 11h35

Conversas divulgadas ontem pelo site The Intercept Brasil expõem novos diálogos entre o procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol e o então juiz federal Sergio Moro. Chama atenção o fato de três mensagens diferentes atribuídas ao procurador terem sido enviadas no mesmo instante, no dia 22 de abril de 2016, através de um aplicativo de conversas.

Às 13h04min13, Dallagnol usa três textos para afirmar ao atual ministro da Justiça que conversou com o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luiz Fux sobre a "queda de braço" entre Moro e Teori Zavascki, à época também ministro do STF. Zavascki morreu em um acidente de avião em 2017.

Apesar de não informar como o The Intercept Brasil obteve as mensagens, que teriam sido enviadas e recebidas pelo aplicativo Telegram, o jornalista norte-americano Glenn Greenwald --autor das reportagens e um dos fundadores do site-- disse ao UOL que a coincidência do horário de envio se deve ao fato de as mensagens terem sido encaminhadas de outro grupo.

"Dallagnol havia mandado estas mensagens para um outro grupo, apenas com procuradores, e depois encaminhou a Moro. Por isto, as mensagens chegaram ao mesmo tempo", justificou.

As mensagens

13:04:13 Deltan Dallagnol - Caros, conversei com o FUX mais uma vez, hoje.

13:04:13 Deltan Dallagnol - Reservado, é claro: O Min Fux disse que quase espontaneamente que Teori fez queda de braço com Moro e viu que se queimou, e que o tom da resposta do Moro depois foi ótimo. Disse para contarmos com ele para o que precisarmos, mais uma vez. Só faltou, como bom carioca, chamar-me para ir à casa dele rs. Mas os sinais foram ótimos. Falei da importância de nos protegermos como instituições.

13:04:13 Deltan Dallagnol - Em especial no novo governo.

13:06:55 Moro - Excelente. In Fux we trust. [em português, significa: Em Fux, nós confiamos]

13:13:48 Deltan - kkk

Possível uso de hackers?

A coincidência do mesmo horário das mensagens levantou suspeitas sobre um possível uso de hackers para forjar as conversas que vêm sendo reveladas pelo site.

O site The Intercept não afirmou, em nenhum momento, ter recebido as mensagens de hackers. O Telegram também negou ter encontrado evidências de que o aplicativo tenha sido alvo de ataque.

A hipótese sobre um possível uso de hackers ganhou força, já que a divulgação deste trecho do diálogo veio à tona após a revelação pelo jornal "Estado de S. Paulo" de que um hacker teria invadido o celular de um conselheiro do CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) e disparado mensagens na noite de terça-feira (11), fazendo com que a força-tarefa da Lava Jato afirmasse que os diálogos já divulgados podem ter sido "manipulados".

Uma das mensagens enviadas a partir do celular do conselheiro do CNMP Marcelo Weitzel Rabello de Souza dizia que o caso revelado pelo The Intercept Brasil era apenas "uma amostra do que vocês vão ver na semana que vem".

Os colegas de Rabello estranharam as mensagens e questionaram o conselheiro no grupo. Na sequência, receberam outro torpedo dizendo: "Aqui é o hacker". Segundo a assessoria do CNMP, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu para que a Polícia Federal instaure um inquérito policial para investigar a invasão do celular de Weitzel.

A procuradora-geral também solicitou à PF a unificação da investigação em relação aos ataques cibernéticos contra membros do Ministério Público Federal, de forma a esclarecer os "motivos e eventuais contratantes" dessas invasões.

Para o MPF, as supostas invasões em celulares de autoridades têm como objetivo "atacar a Operação Lava Jato". "Os relatos dos fatos foram incluídos nas investigações em curso, e a força-tarefa, em virtude da continuidade dos ataques, redobrou as cautelas de segurança", diz o texto divulgado.

"É necessário não apenas identificar e responsabilizar o hacker, mas também os mandantes e aqueles que objetivam se beneficiar desses crimes a partir de uma ação orquestrada contra a operação Lava Jato", afirma o MPF.

Em nota divulgada na segunda-feira (10), a Lava Jato informou que a invasão a dispositivos de seus integrantes começou em abril.

Contexto em que Zavascki é citado

Após a divulgação da conversa entre Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva em março de 2016, autorizada por Moro, Zavascki afirmou que o ato "comprometeu o direito fundamental à garantia de sigilo, que tem assento constitucional". Zavascki ainda apontou a falta de "contraditório" na medida de Moro.

Moro havia argumentado que a divulgação dos áudios obedecia à Constituição, evocando o princípio da publicidade e o interesse público da matéria. Zavascki também discordou. "(...) é descabida a invocação do interesse público da divulgação ou a condição de pessoas públicas dos interlocutores atingidos, como se essas autoridades, ou seus interlocutores, estivessem plenamente desprotegidas em sua intimidade e privacidade."

A divulgação dos áudios foi preponderante para dois fatores que caminhavam juntos: o processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff e a indicação de Lula para o posto de ministro da Casa Civil.

Em 17 de abril, cinco dias antes das conversas entre Deltan e Moro em que Fux é citado, a Câmara votou pela abertura do processo de impeachment contra a ex-presidente. O "novo governo" citado por Deltan seria o do ex-presidente Michel Temer (MDB), primeiro na linha de sucessão. As mensagens publicadas pelo The Intercept Brasil no último domingo (9) já apontavam para uma discussão entre Moro e Deltan sobre o grampo na então presidente Dilma.

"A decisão de abrir está mantida, mesmo com a nomeação, confirma?", questionou Dallagnol. Moro rebateu, perguntando qual era a posição do Ministério Público Federal, ao que o coordenador da Lava Jato em Curitiba respondeu que era "abrir" e levar a público. Seis dias depois, com fortes críticas ao vazamento dos áudios, os dois ainda discutiam o assunto. Dallagnol defendeu a liberação dos grampos telefônicos e chamou a ação de "ato de defesa".

"Não me arrependo do levantamento do sigilo. Era a melhor decisão. Mas a reação está ruim", escreveu Moro. Uma semana depois desta conversa, o atual ministro veio a público pedir desculpas pela decisão.

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