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Vazamentos da Lava Jato


Estão tentando criar clima para me prender, afirma Glenn Greenwald

Glenn Greenwald participa de audiência no Senado - Marcos Oliveira/Agência Senado - 11.jul.2019
Glenn Greenwald participa de audiência no Senado Imagem: Marcos Oliveira/Agência Senado - 11.jul.2019

Diego Toledo

Colaboração para o UOL, em São Paulo

27/07/2019 04h01

O advogado e jornalista americano Glenn Greenwald mergulhou no centro de um furacão político desde que o veículo que fundou, o site "The Intercept Brasil", passou a publicar conversas privadas de integrantes da Operação Lava Jato.

Diante dos ataques, ele afirma que a sua maior preocupação hoje é o que vê como uma campanha de intimidação movida pelo governo do presidente Jair Bolsonaro. O jornalista reclama ainda de uma ofensiva governista para descreditá-lo e até mesmo prendê-lo (veja mais abaixo).

"Para mim, a ameaça mais grave é a emitida pelo [ministro da Justiça] Sergio Moro, pela Polícia Federal e pelo governo Bolsonaro", diz Greenwald, em entrevista ao UOL, concedida na segunda (22) -- antes, portanto, da prisão de suspeitos de hackear o celular do ministro.

O que está me perturbando mais é que eu sei que o Sergio Moro está tentando me investigar, que a Polícia Federal quer me prender. Eles estão usando a linguagem de criminalizar o jornalismo, falando que nós somos 'aliados do hacker', quase me acusando de envolvimento no que acham que foi um hackeamento.
Glenn Greenwald, jornalista

No início do mês, em audiência na Câmara, Moro disse que respeita a liberdade de imprensa e que "não há qualquer perseguição a jornalista". Já o presidente Jair Bolsonaro, em mensagem publicada no Twitter no último dia 20, também afirmou defender o papel da imprensa, mas acusou parte dela de "distorcer palavras e agir de má-fé".

No último dia 2, o site O Antagonista informou ter apurado que a PF (Polícia Federal) pediu ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) um relatório das atividades financeiras de Greenwald. O objetivo seria identificar movimentações atípicas que pudessem ter relação com a invasão de celulares de integrantes da Lava Jato.

Na terça (23), no entanto, a PF declarou que "não há inquérito policial instaurado com o objetivo de apurar a conduta do jornalista Gleen Greenwald".

Troca de farpas pelo Twitter

Quatro suspeitos de hackear celulares de autoridades foram presos na última terça durante operação da PF nas cidades de São Paulo, Araraquara (SP) e Ribeirão Preto (SP). Após as prisões, Moro foi ao Twitter para parabenizar a ação da PF e apontou os presos como sendo a fonte das reportagens do Intercept.

O Intercept manteve a postura que adotou desde o início da publicação das mensagens e disse que não se pronuncia sobre a fonte do material. Mas Greenwald reagiu, também via Twitter, e acusou o ministro de tentar explorar as prisões para lançar dúvidas sobre a autenticidade das reportagens publicadas.

Em Paraty (RJ), polarização na pele

Ao longo do último mês, por conta da publicação das conversas privadas da Lava Jato, Greenwald passou a receber ofensas, ameaças de morte e mensagens de ódio enviadas nas redes sociais por admiradores de Moro.

A pressão sobre o fundador do Intercept chegou a impulsionar a hashtag #DeportaGreenwald no Twitter, com pessoas pedindo que o americano, que vive no Brasil desde 2005, fosse expulso do país.

No último dia 12, durante um evento paralelo à Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), o jornalista viveu na pele a polarização entre críticos e fãs da Lava Jato. Ao participar de um debate, Greenwald foi saudado como herói pela plateia, mas, do outro lado do rio onde o evento era realizado, cerca de 60 pessoas protestavam contra a presença do americano, ao som do hino nacional e de fogos de artifício.

Foi muito simbólico, porque eu cheguei no barco planejado pelos organizadores do evento e, de um lado, tinha 3 mil pessoas aplaudindo, apoiando e, no outro lado, tinha 50 ou 60 bolsonaristas protestando. Nunca passei por algo assim. Eu me sinto quase como se fosse uma figura política.
Glenn Greenwald, jornalista

Estão querendo criar clima para me prender, diz jornalista

O jornalista Glenn Greenwald - Brendan Smialowski/ AFP
O jornalista Glenn Greenwald
Imagem: Brendan Smialowski/ AFP
O americano, que vive com o marido, o deputado federal David Miranda (PSOL-RJ), e os dois filhos adotados pelo casal no Rio de Janeiro, diz que passou a tomar precauções para evitar o risco de violência política antes mesmo da publicação das reportagens sobre a Lava Jato.

O assunto passou a preocupar o casal desde o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), que era amiga de Greenwald e Miranda. O deputado, que era suplente e assumiu o mandato após a renúncia de Jean Wyllys (PSOL-RJ), também se tornou alvo de ameaças ao herdar a bandeira de representante da comunidade gay no Congresso.

Com a divulgação das conversas privadas da Lava Jato no Intercept, as medidas de segurança adotadas para proteger o casal foram intensificadas. "Nossa casa é quase um lugar com segurança de prisão", diz o americano. "Eu e David precisamos de seguranças para todo lugar que vamos."

Mas Greenwald insiste que o maior risco que tem enfrentado é o que ele enxerga como uma campanha de difamação orquestrada pelos grupos que apoiam o governo federal.

"Como na campanha que levou à vitória do Bolsonaro, estão usando documentos forjados, informação falsa sobre mim, fake news, e espalhando isso nas sombras, via WhatsApp", afirma o fundador do Intercept.

"Eles estão tentando criar um clima em que podem me processar criminalmente ou me acusar, tentando me prender, com a opinião pública pensando que sou um criminoso. Essa é a ameaça mais grave de todas."

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