PUBLICIDADE
Topo

Coronavírus

Duas semanas após trocar ministro, Bolsonaro mantém postura sobre covid-19

Bolsonaro abraça padre em visita à igreja em Porto Alegre - Reprodução/Facebook
Bolsonaro abraça padre em visita à igreja em Porto Alegre Imagem: Reprodução/Facebook

Clarice Cardoso

Do UOL, em São Paulo

01/05/2020 03h00

Resumo da notícia

  • Presidente voltou a criar aglomerações e a confrontar medidas de proteção contra contaminação por novo coronavírus
  • Ainda questionou os dados oficiais e voltou a atacar isolamento social
  • Ministro Teich admitiu que país pode passar a ter 1.000 novas mortes por dia
  • Bolsonaro resistiu a entregar à Justiça laudos de exames que fez para detectar covid-19

Duas semanas após a troca de comando no Ministério da Saúde, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tomou ontem as mesmas atitudes em relação à pandemia de covid-19 que levaram ao rompimento com o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, substituído em 16 de abril pelo oncologista Nelson Teich.

Em viagem a Porto Alegre, o presidente provocou aglomeração e abraçou um padre ao visitar uma igreja durante sua passagem pela capital do Rio Grande do Sul. O contato, realizado sem máscaras, vai de encontro às orientações de distanciamento social da OMS (Organização Mundial da Saúde) e do próprio Ministério da Saúde.

Contrariando um aviso da cerimônia de transmissão de cargo do Comandante Militar do Sul, que alertava que não seriam recebidos convidados por conta da pandemia, Bolsonaro decidiu comparecer ao evento. Ao tentar cumprimentar generais com um aperto de mão, recebeu em troca um toque de cotovelos.

Não foi a primeira vez que isso aconteceu. Dias antes da demissão de Mandetta, o presidente foi, acompanhado pelo ex-ministro da Saúde, a Águas Lindas de Goiás (GO) para visitar a obra de construção do primeiro hospital de campanha da cidade. Causou aglomerações e retirou a máscara ao se aproximar das pessoas.

Na ocasião, Mandetta disse que podia "no máximo recomendar": "Não posso apontar o dedo". Depois de deixar o cargo, contudo, falou mais abertamente sobre a situação.

"Tivemos uma ida para Águas Lindas, no entorno de Brasília, em que havia sido feito um combinado e o presidente foi abraçar gente, fez tudo que não era para fazer na frente da gente. Aí a situação ficou muito difícil", afirmou o médico e ex-ministro, em uma live no último domingo.

Atual ocupante do cargo, Teich tem evitado comentar publicamente as atitudes do superior. "Não vou discutir aqui o comportamento [do Bolsonaro], mas eu posso dizer que ele está preocupado com as pessoas e com a sociedade. O alinhamento é nesse sentido", disse na quarta (29).

Na manhã de ontem, o presidente demonstrou descrença sobre os números de mortes provocadas pela covid-19 e voltou a acusar o governo de São Paulo, comandado por seu adversário político João Doria (PSDB), de fraude.

"A curva está aí. Partindo do princípio que o número de óbitos é verdadeiro... Cada vez mais chegam informações que o próprio Diário Oficial lá de São Paulo, está escrito lá que, na dúvida, coloca coronavírus. Para inflar o número e fazer uso político disso", declarou ao deixar o Palácio da Alvorada.

Em 27 de março, ele havia feito a mesma acusação: "Em São Paulo, não estou acreditando nesses números". A secretaria de Estado de Saúde de São Paulo rebateu a acusação mais recente.

Sem referir-se à fala de Bolsonaro, Teich alertou ontem em entrevista coletiva que é possível que o Brasil chegue a confirmar 1.000 mortes por dia — atualmente, o país soma 5.901 óbitos.

Isolamento social

No início da noite de ontem, durante sua live semanal, Bolsonaro mais uma vez atacou as medidas de isolamento social adotadas por governos estaduais e municipais.

As críticas quase diárias do presidente às medidas de restrição, e a resistência de Mandetta em endossá-las, foram fator determinante no desgaste entre os dois antes.

Diante desse cenário, Teich tem sido evasivo ao falar sobre o tema desde que tomou posse. Nesta semana, foi criticado por senadores por conta disso durante videoconferência em que expôs seus planos para a Saúde.

Ontem, contudo, o ministro da Saúde adotou discurso que parece mais alinhado com o de seu antecessor ao dizer que "ninguém está pensando em relaxar o isolamento social". Porém, criticou a "polarização política" nas reações às medidas de enfrentamento à pandemia.

A postura é reforçada pela fala do coordenador do Centro de Contingência ao Coronavírus em São Paulo, David Uip, que mais cedo disse que "Teich defendeu o isolamento social" em videoconferência com o governador Doria.

Indiferente à declaração de seu ministro, Bolsonaro voltou a criticar as medidas poucas horas depois. Sem apresentar dados que embasassem sua conclusão, disse que a quarentena é "inútil".

"Eu já disse, 70% da população vai ser infectada [pelo novo coronavírus]. Pelo que parece, todo empenho para achatar a curva [de crescimento dos casos] foi inútil", afirmou. Seu argumento é de que a redução na atividade econômica é a responsável pelo aumento no desemprego.

O distanciamento social é defendido pela OMS não por evitar contaminações, mas por desacelerar o contágio e reduzir a pressão sobre os serviços de saúde, dando aos governos "tempo extra" para enfrentar a pandemia.

Teste de covid-19

Envolvido em uma tensa crise política, o presidente perdeu dois de seus ministros mais populares, Mandetta e Sergio Moro, nos últimos dias, e, agora, ameaça confrontar o STF (Supremo Tribunal Federal).

As acusações contra a corte e, em especial, ao ministro Alexandre de Moraes, são motivadas pela suspensão da nomeação de Alexandre Ramagem para o cargo de direção da Polícia Federal.

Assim, Bolsonaro tem conseguido desviar o foco da crise gerada pelo novo coronavírus para as tensões em seu governo ao menos nas redes sociais, como mostra pesquisa da Fundação Getúlio Vargas.

Enquanto isso, resiste a divulgar os resultados do exame que fez para detectar se foi contaminado pelo novo coronavírus. Ontem, a Advocacia-Geral da União (AGU) deixou de enviar à Justiça Federal de São Paulo os laudos de dois testes feitos por ele.

No lugar, mandou um relatório médico de 18 de março negando a contaminação, que foi rejeitado pela juíza. A magistrada determinou prazo de 48 horas para que os resultados sejam entregues.

Bolsonaro, que pela manhã disse que se sentiria "violentado" se tivesse que entregar os laudos, mudou o tom veemente com que vinha negando ter sido contaminado em entrevista à Rádio Guaíba: "Eu talvez já tenha pegado esse vírus no passado, talvez, talvez, nem senti".

Coronavírus