Topo

Militar é enterrado com honras e presença de Bolsonaro; 'morreu para fazer Brasil melhor', diz pai

21.ago.2018 - O cabo Fabiano de Oliveira Santos foi enterrado em Japeri, na Baixada Fluminense - UOL
21.ago.2018 - O cabo Fabiano de Oliveira Santos foi enterrado em Japeri, na Baixada Fluminense Imagem: UOL

Luis Kawaguti

Do UOL, em Japeri

21/08/2018 16h26Atualizada em 21/08/2018 20h27

O cabo do Exército Fabiano de Oliveira Santos, 36, o primeiro militar morto em ação durante a intervenção federal no Rio de Janeiro, foi enterrado com honras militares na tarde desta terça-feira (21). O deputado Jair Bolsonaro, candidato à presidência pelo PSL, foi à cerimônia e disse que as ações de segurança pública das Forças Armadas devem ter mais respaldo jurídico.

“Meu filho, levanta e volta para o seio da família”, gritou a mãe de Santos logo após acordar de um desmaio ao lado do caixão do filho. Ela foi amparada por jovens militares também emocionados e em lágrimas.

“Meu filho morreu para fazer um Brasil melhor. Espero que a morte dele não seja em vão”, disse Jorge Santos, pai do militar, a um grupo de pessoas em que estava presente o candidato. Em tom de revolta, outro familiar questionou: “por que tinham que colocar o Exército na rua? Os criminosos são presos e a Justiça solta!”.

A cerimônia aconteceu em um pequeno cemitério no município de Japeri, na Baixada Fluminense, onde mais de 200 amigos, familiares e colegas do Exército se reuniram.

21.ago.2018 - Bolsonaro em enterro do cabo Fabiano Santos - UOL
21.ago.2018 - Bolsonaro em enterro do cabo Fabiano Santos
Imagem: UOL

Ao lado de cerca de 4.200 militares das Forças Armadas, Santos participava de operação na manhã de segunda-feira (20) nos complexos de favelas do Alemão, Penha e Maré, na zona norte do Rio, quando foi baleado no ombro. Ele morreu a caminho do hospital. A operação resultou em sete mortos (dois militares e cinco suspeitos) e em 60 prisões.

Por volta das 14h, o caixão foi coberto com a bandeira do Brasil e carregado por um grupo de militares. À frente estavam os responsáveis pela operação: o general Antônio Barros, comandante da 1ª Divisão do Exército e do Comando Conjunto da intervenção, e o general Miranda Filho, da 9ª Brigada de Infantaria Motorizada, a unidade onde Santos servia.

O cortejo foi acompanhado por salvas de tiros e o enterro terminou com uma marcha fúnebre e honras militares. Nos bastidores, militares ligados à intervenção ouvidos pela reportagem disseram que as duas mortes ocorridas na segunda-feira não enfraquecerão as ações das Forças Armadas no Rio. Mas, os militares se mostraram descontentes com uma suposta falta de reconhecimento dos políticos e autoridades federais e estaduais pelo esforço das Forças Armadas para melhorar a segurança pública no Rio --que agora começam a resultar em mortes.

Em nota, o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Carlos Marun, afirmou: “Está sendo travada uma guerra. Ao decidirmos pelo real combate ao crime organizado, sabíamos que haveria vítimas. Todavia, isto não diminui a nossa tristeza diante do sacrifício da vida destes dois jovens soldados”.

Bolsonaro nega que presença seja 'eleitoreira'

O deputado Jair Bolsonaro causou surpresa ao aparecer na cerimônia. Ele parecia emocionado após o toque da marcha fúnebre e foi procurado pela família de Santos.

Questionado se sua presença no enterro tinha caráter eleitoral, Bolsonaro disse: “o momento é de consternação, eu não sou Presidente da República, e, se for, a tropa só agirá se tivermos retaguarda jurídica”. Ele não respondeu mais perguntas, afirmando que o momento era inapropriado.

Sem dar detalhes, o presidenciável afirmou que operações das Forças Armadas na segurança pública devem contar com um melhor respaldo jurídico. Em julho, o candidato defendeu suporte jurídico para que militares não sejam processados em caso de envolvimento em mortes de suspeitos durante operações.

No início da intervenção, a cúpula do Exército se mostrou preocupada com a possibilidade de que militares envolvidos em ações de segurança pública fossem submetidos a morosos processos judiciais que pudessem prejudicar suas carreiras e vidas pessoais em eventuais casos de mortes de suspeitos.

Em 2017, a Justiça determinou que casos envolvendo mortes de suspeitos por membros das Forças Armadas sejam julgados na Justiça Militar.

Santos integrava o Regimento Avaí (2º Batalhão de Infantaria Motorizada) e atuou também na Força de Pacificação do Rio de Janeiro. O cabo do Exército deixa uma filha pequena que costumava chamar de “minha princesa” nas redes sociais. Apreciador de treinos em academia, o militar se declarava a favor da militarização das escolas públicas e mencionava abertamente ser eleitor da família Bolsonaro.

Familiar do soldado João Viktor da Silva é amparada por militares em seu funeral - Fernando Frazão / Agência Brasil
Familiar do soldado João Viktor da Silva é amparada por militares em seu funeral
Imagem: Fernando Frazão / Agência Brasil

Funeral de paraquedista

Mais de 500 pessoas participaram na tarde desta terça do funeral do soldado João Viktor da Silva, segundo militar morto na operação de ontem. O sepultamento ocorreu no mesmo cemitério, em Japeri.

Segundo seus colegas, o maior sonho de Silva era se tornar membro da Brigada Paraquedista, uma das quatro unidades de elite do Exército. Sob forte emoção, seu caixão também foi coberto por uma bandeira brasileira e carregado pelo general Barros e pelo general Pedro Montenegro, comandante da Brigada Paraquedista, sob salvas de tiros e marcha fúnebre.

Antes de Silva ser sepultado, seus colegas do 25º Batalhão de Infantaria Paraquedista gritaram em voz alta as ordens que são dadas quando o paraquedista está prestes a saltar do avião, cantaram uma canção militar e aos prantos arrancaram seus brevês (espécie de etiqueta no formato de asas que todos os paraquedistas têm nas fardas) e depositaram sobre o caixão.

“Ele teve um propósito, realizou o sonho de ser paraquedista e cumpriu sua missão até o último minuto”, afirmou um capelão antes da salva de palmas e do toque militar fúnebre que encerraram a cerimônia.

Para o general Barros, o Exército sofre porque os militares “são como seus filhos”. Entretanto, o oficial disse acreditar que as ações da intervenção federal sairão fortalecidas mesmo após as mortes.

Mais Cotidiano