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Vitória de Maduro pode levar a um projeto menos personalista, diz biógrafo de Chávez

Modesto Emilio Guerrero, biógrafo de Hugo Chávez - Alfonso Ocando/Divulgação
Modesto Emilio Guerrero, biógrafo de Hugo Chávez Imagem: Alfonso Ocando/Divulgação

Maria Martha Bruno

Do UOL, em Buenos Aires

31/03/2013 06h00

As eleições presidenciais na Venezuela, cuja campanha oficial começa nesta terça-feira (2), é uma possibilidade para o chavismo se tornar "um projeto mais coletivo e menos personalista". Esta é a opinião do venezuelano Modesto Emilio Guerrero, biógrafo do presidente morto Hugo Chávez.

Morador de Buenos Aires desde 1993, Guerrero lançou, pouco antes da morte de Chávez, uma edição ampliada da biografia do então presidente, primeiramente publicada em 2007 com o título “Quien Inventó a Chávez?” (quem inventou Chávez, ainda sem tradução no Brasil). A nova versão leva o título de “Chávez - El Hombre que Desafió a la Historia” (Chávez - O homem que desafiou a história, também sem tradução no Brasil).

As últimas pesquisas eleitorais apontam para uma vitória do presidente interino da Venezuela, Nicolás Maduro, que era vice de Chávez. Seu principal adversário é o líder da oposição, Henrique Capriles, derrotado por Chávez na eleição do ano passado.

UOL: Como o senhor analisa a campanha e as eleições presidenciais de 14 de abril em um contexto tão complexo e inédito na Venezuela?
Modesto Emilio Guerrero:
É um processo eleitoral anormal, porque decorre de uma transição, e toda transição é resultado de uma alteração das normas. A morte de Hugo Chávez acelerou tudo. A oposição tentou gerar dificuldades institucionais para produzir um vazio de poder. No exterior, por exemplo, também já houve uma manifestação política importante, pois os Estados Unidos disseram que não têm candidato, embora tenham declarado que “veem Henrique Capriles com bons olhos”. Por outro lado, Nicolás Maduro tem três fatores importantes a seu favor: a aura deixada por Chávez, o efeito sentimental que se mescla e se redireciona ao voto popular e a maneira como conduziu o governo depois de ter sido designado por Chávez em dezembro do ano passado.

Sobre o futuro político da Venezuela, muitos analistas especulam entre a decadência e fim do modelo chavista ou sua continuidade e fortalecimento com Nicolás Maduro. Qual o seu prognóstico?

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Com o chavismo acontece uma coisa inédita em relação a outros movimentos políticos na América Latina: o líder desaparece justamente quando o movimento está em seu auge. Em meio a todas as conquistas sociais da Venezuela, desaparece o líder. Nos outros países, a política estabelecida acabou porque o modelo se esgotou ou porque houve uma derrota social, política ou militar. Alguns exemplos foram o sandinismo [Nicarágua], o peronismo clássico [Argentina] e o varguismo [Brasil].

O que fez de Nicolás Maduro uma figura de tanta importância, a ponto de Hugo Chávez lhe dar um voto de confiança tão consistente diante do povo, quando já sabia da gravidade de seu estado de saúde?
Ele demonstrou extrema fidelidade e lealdade ao projeto socialista do governo. Quando foi chanceler, também se saiu bem. Era o principal elemento político que poderia garantir uma transição unificada. Ele manteve a unidade do chavismo partidário e dos movimentos sociais, inclusive porque vem destes grupos e tem uma relação natural com eles. Além disso, também possui uma boa mediação com as Forças Armadas, fundamentalmente ligadas ao chavismo.

Quais seriam as diferenças deste chavismo que pode continuar com uma possível vitória de Maduro nas eleições em relação ao projeto antes liderado por Chávez?
Em 5 de março, morreu um sistema político organizado ao redor da figura de Chávez. Agora é a construção algo novo. Um projeto mais coletivo e menos personalista. Isso levou um ano e meio em longo prazo [desde que Chávez anunciou a doença, em junho de 2011] e os últimos três meses, entre a ida de Chávez para Cuba [dezembro de 2012] e seu retorno à Venezuela [fevereiro de 2013].

Mas este projeto menos personalista e mais coletivo coincide com os preceitos do chavismo?
Maduro é outro tipo de líder, primeiro porque não tem como haver outro Chávez. Ele vem do sindicalismo socialista. Mas ao mesmo tempo é a melhor reprodução política de Chávez. Há tons em sua oratória que se parecem com a de Chávez. Acho que durante um tempo Chávez vai estar na sombra e Maduro constará como figura emergente. E claro que ele construirá sua identidade própria a partir do que foi Chávez. Isso leva tempo e é algo que ele terá de testar diante dos próximos acontecimentos. 

Como o senhor avalia a atuação de Maduro após a morte de Chávez?
Em primeiro lugar, critico a hipótese sobre qualquer tipo de inoculação da doença. Essa impossibilidade está cientificamente provada. E em relação à ideia inicial de embalsamamento, em 2006, Chávez já havia se pronunciado contra qualquer ação como esta.

Mas, além de uma medida de apelo místico, não seria também uma maneira de capitalizar politicamente com a morte de Chávez?
Sim, teria como resultado um uso político. Mas vamos supor por um momento que Maduro não fizesse uso da imagem do Chávez com esta intenção política. Mesmo que não tivesse proposto que ele fosse embalsamado, de qualquer forma as pessoas vão recordar Maduro como prolongamento de Chávez. Não tem como acreditar que essa realidade funciona separadamente. Ainda que ele não se usasse os símbolos do chavismo, não haveria como separá-lo de Chávez. Como ele deveria atuar para agradar aos meios de comunicação antichavistas e provar que não estava fazendo uso político da figura de Chávez? Teria de anular a palavra de Chávez e toda a sua memória. Teria de se transformar em Capriles, por exemplo [risos].

As relações com o Brasil sempre foram um destaque nesta proposta chavista de aproximação entre os países latino-americanos. O que houve de diferente na química entre ambos os países?
O Brasil sempre foi a ponte da Venezuela com o Mercosul. Rafael Caldera [presidente que antecedeu Chávez] assinou 11 convênios com o Brasil, mas praticamente nada foi cumprido, inclusive o projeto de constituição da Petroamérica, que seria uma empreitada conjunta gigantesca entre a Petrobras e a PDVSA. Chávez nunca disse isso, mas eu afirmo na biografia: ele se apoiou no que foi anteriormente feito por Caldera e por Fernando Henrique Cardoso para aprofundar os laços com o Brasil. E, desde que assumiu [em 1999] até 2011, foram firmados 87 tratados, entre convênios e pactos com o Brasil. E estes sim foram colocados em prática. Chávez potencializou essa aproximação de forma prática. E isso ocorreu porque houve uma relação de Estado para Estado que só pôde ser estabelecida com o governo de Lula.
Agora teremos um panorama diferente, de relações entre dois países comandados por seguidores políticos de Lula e de Chávez caso Maduro seja eleito.

O que se pode esperar desta nova etapa?
Há uma perspectiva de aprofundar a relação entre ambos os países, porque cada vez mais são firmados pactos de tipo estrutural, e não apenas acordos conjunturais, que sempre são passageiros. Isso ocorre porque há uma aposta grande nos macroinvestimentos. O que é explorado no Brasil e na Venezuela por empresas estatais e privadas movimenta muitíssimo capital e isso é já algo muito difícil de ser desestruturado. Ou seja, já está bastante consolidado e acho que não mudaria nem mesmo com uma vitória de Capriles.

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