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Internacional

"O Hamas é o câncer da Palestina", diz embaixador de Israel no Brasil

Fernanda Calgaro

Do UOL, em Brasília

16/07/2014 06h00Atualizada em 16/07/2014 10h50

Um acordo de paz permanente entre Israel e Palestina depende da desmilitarização do grupo radical islamita Hamas, avalia o embaixador de Israel no Brasil, Rafael Eldad.

Diante de mais um episódio de violência, com o sequestro de três jovens israelenses e a subsequente morte de um jovem palestino, Eldad diz “ver uma luz no fim do túnel”, mas que este é, “lamentavelmente, longo”. 

Mapa Israel, Cisjordânia e Gaza - Arte/UOL - Arte/UOL
Mapa mostra localização de Israel, Cisjordânia e Gaza
Imagem: Arte/UOL

O sequestro ocorreu dias após o anúncio de uma aliança entre o Fatah, partido do presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, e o Hamas.

A aproximação entre as facções foi recebida como um importante passo rumo à unidade entre as partes palestinas: o Hamas controla a faixa de Gaza, e o Fatah, a Cisjordânia.

Israel, porém, embora antes reclamasse que Abbas não representava todos os palestinos, após a aliança, se nega a negociar com o Hamas, por considerá-lo terrorista.

Para o embaixador israelense, a Palestina tem “de romper com o Hamas não por Israel, mas por eles mesmos. Porque esse terrorismo é como um câncer, como um veneno que entra na sociedade palestina”.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista concedida ao UOL:

UOL: Qual o impacto desse novo conflito entre Israel e Palestina na busca por um processo de paz permanente?

ELDAD: Primeiro, não é Israel contra palestinos. Até há pouco tínhamos um processo de paz e queremos paz, queremos um acordo. O problema é com o Hamas. O Hamas é um grupo terrorista. Não [sou eu que] digo isso, é o mundo inteiro que reconhece o Hamas como um grupo terrorista. É um grupo também fundamentalista e extremista. (...)

Eu acho que o pior inimigo dos palestinos não é Israel. O pior inimigo dos palestinos são os grupos terroristas como o Hamas. (...) E o Hamas está atacando civis israelenses, está utilizando seus cidadãos como escudos humanos. Israel está usando armas para proteger a vida. Eles estão usando vidas para proteger as armas ou o arsenal terrorista.

Assim que o problema político é, mais do que tudo, ético e um problema que temos de lutar contra o terrorismo.

O sequestro ocorreu após o anúncio do acordo entre o Hamas e o Fatah [partido do presidente palestino, Mahmoud Abbas]. Como Israel analisa a situação?

Se você me diz com quem anda, sabemos quem... Se o presidente palestino vai e faz uma aliança com o Hamas, isso é um pouco difícil porque é um grupo terrorista (...).  Eles têm, na sua instituição, [o objetivo] de matar todos os israelenses, os judeus. Então, como podemos sentar com esse grupo? Como podemos esperar a paz ou um acordo com grupos assim?

A Palestina nega que o Hamas use civis como escudos humanos.

O porta-voz do Hamas, e temos isso gravado na televisão, falou isso [que usa civis como escudos humanos]. (...) Essa é uma prática não de hoje, mas de muitos anos desses grupos. (...)

Esses grupos terroristas não têm moral, não têm ética, não têm consideração pela vida humana. (...) E, por isso, temos que unir forças: os palestinos moderados com Israel, os árabes moderados com Israel, os islâmicos moderados com Israel para lutar contra estes. E repito dez vezes: o pior inimigo dos palestinos é o Hamas, não é Israel, porque eles são o freio que não deixa avançar.

O governo palestino, por sua vez, argumenta que Israel não tem o direito de escolher a equipe do time adversário.

Isso não é escolher adversário. Se, por exemplo, você não reconhece o direito [de Israel] de existir, se o Hamas, o único que está buscando é a destruição de Israel, então, o que temos de falar? (...) Se o Hamas quer ver uma possibilidade de um acordo, ele tem de reconhecer a existência de Israel e deixar totalmente o caminho do terrorismo e da violência e desmantelar todo o seu armamento.

Há quase dez anos, Israel deixou toda a Faixa de Gaza. Os palestinos tiveram uma oportunidade de ouro de criar uma pequena Cingapura. E o que fizeram? O único que fizeram foi acumular e acumular um arsenal de mísseis.

Há chance de Israel ocupar Gaza?

Espero que não. Israel não quer...

Mas Israel tem um efetivo mobilizado...

Tem uma mobilização porque todo dia temos centenas de foguetes e de explosivos. Então, Israel tem de ver de que maneira não deixar fazer isso, porque quase a metade da população de Israel não pode levar uma vida normal. (...) Mas Israel, de nenhuma maneira, quer ocupar Gaza. O único objetivo de Israel é paz e tranquilidade, nada mais.

E a ameaça do Hamas de bombardear o aeroporto de Tel Aviv?

É muito preocupante, porque sabemos que os terroristas não têm nenhuma ética e podem atacar aviões civis, com pessoas. Isso mostra o caráter do Hamas.

Para o processo de paz avançar, a Palestina teria que romper com o Hamas?

Eles têm que romper com o Hamas não por Israel, mas por eles mesmos. Porque esse terrorismo é como um câncer, como um veneno que entra na sociedade palestina. Estes terroristas que levam explosivos e entram em um ônibus, explodem e matam 20 crianças ou mulheres grávidas não são condenados, são considerados heróis e os líderes religiosos dizem que são mártires.

O sr. vê alguma luz no fim do túnel?

Sim, eu vejo luz, mas o túnel é longo, lamentavelmente. É longo não por razões políticas, mas por essas razões éticas e morais. Quando uma sociedade, como a sociedade palestina, como quando um grupo como o Hamas atua dessa maneira, quando os heróis dos palestinos são os terroristas, são os assassinos, esse é um processo educativo que leva muito tempo.

Para chegar a um acordo de paz, não é sentar e assinar um papel bonito, não. Isso é papel.

Quais as condições de Israel?

O que buscamos não é somente o cessar-fogo, mas que o Hamas não tenha mais fogo. Porque fogo nas mãos de um pirômano sempre é perigoso. Então, a ideia é desmantelar, desarmar o Hamas, para que ele não possa ter armas, não possa ter foguetes, não possa ter mísseis.

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