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Glenn critica "amnésia" de Moro e se diz alvo de "ódio" fomentado pelo PSL

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em Brasília

2019-07-11T14:25:49

11/07/2019 14h25

O jornalista Glenn Greenwald, fundador do site The Intercept Brasil, declarou hoje no Senado que, para ele, "ninguém acredita" quando o ministro Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública) diz não se lembrar do conteúdo das conversas privadas que ele teve com o procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa da Lava Jato, nos últimos anos

Essa é a segunda vez que o jornalista comparece ao Congresso para falar sobre os diálogos vazados e as reportagens do Intercept. Em 25 de junho, ele esteve na Câmara e afirmou que as mensagens publicadas são autênticas. Disse ainda que, em sua opinião, houve conluio entre Moro e MPF (Ministério Público Federal) na condução das ações penais da Lava Jato.

"Moro está fingindo que ele tem quase amnésia", disse o norte-americano hoje no Senado. "Ele tem memória tão incapacitada que não pode lembrar de nada."

As reportagens indicam que Moro pode ter agido com parcialidade no período em que conduziu as ações penais da Lava Jato na 13ª vara federal de Curitiba, segundo avaliação de juristas.

Para o jornalista, Moro tem uma memória "seletiva" e só diz se lembrar de trechos que não necessariamente o comprometem, como quando chamou de "tontos" os membros do MBL (Movimento Brasil Livre).

Já os diálogos mais sensíveis, a exemplo do episódio em que o ex-magistrado sugeriu a inversão na ordem de operações que seriam realizadas à época pela Lava Jato, o ministro ou diz que não se recorda ou questiona a autenticidade das mensagens. Moro tem repetido que o material pode ter sido adulterado "parcial ou totalmente".

Ele [Moro] nunca tentou defender [o conteúdo das conversas]. Em vez disso, ele está tentando fazer um jogo muito cínico colocando uma dúvida sobre o nosso material que é autêntico. Ele está tentando usar insinuações de que talvez poderia ser adulterado
Glenn Greenwald, fundador do site The Intercept Brasil

Tanto Moro quanto a Lava Jato têm negado as acusações de parcialidade na condução e nos julgamentos de processos derivados da operação. O ex-juiz federal e a força-tarefa têm argumentado que o material divulgado pelo Intercept foi obtido de maneira criminosa e que o conteúdo publicado pode ter sido forjado ou adulterado. O site defende a veracidade das mensagens e não revela a fonte do material.

Marcos Oliveira/Agência Senado
Glenn Greenwald participa de audiência na CCJ (Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania) do Senado Imagem: Marcos Oliveira/Agência Senado

"Campanha de ódio"

O fundador do Intercept também disse que está sendo vítima de uma "campanha de ódio" patrocinada pelo PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro, nas redes sociais. Segundo o depoente, foram recebidas ameaças concretas contra a vida dele e da família, com informações pessoais e privadas como CPF e endereço.

"Essas ameaças estão sendo provocadas pelo partido do governo. Eles estão na internet o tempo todo usando documentos forjados e falsificados. (...) Eles ficam na internet, mas não têm coragem de chegar aqui [no Senado], na minha cara, para discutir essas acusações", declarou.

Uma das fake news impulsionadas nas redes desde que o Intercept começou a publicar reportagens que atingem Moro e a Lava Jato dizia que o marido de Glenn, David Miranda (PSOL-RJ), teria comprado o seu mandato de deputado federal. Ele era suplente e assumiu no começo do ano depois que Jean Wyllys (PSOL-RJ) decidiu renunciar ao Legislativo e abandonar o país devido a ameaças de morte.

Glenn afirmou que Moro tenta criar um clima de terror contra a liberdade de imprensa e, de forma proposital, faz uma ameaça ao veículo fundado por ele. Para justificar o raciocínio, o americano disse que o ex-juiz da Lava Jato "nunca negou" as informações sobre uma suposta investigação do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) contra o jornalista e sua família.

"O clima que o ministro está tentando criar, acho que isso é uma ameaça e ele está tentando fazer de propósito para assustar a gente", comentou. Na visão do jornalista, o objetivo seria desestimular a continuidade da série de reportagens sobre os diálogos privados entre Moro e Dallagnol.

O Coaf, que estava sob tutela de Moro até retornar, por decisão do Parlamento, ao guarda-chuva do Ministério da Economia, é responsável por apurar indícios de irregularidades em movimentações financeiras no país.

Se confirmado, usar o aparato do estado para uma investigação específica contra um cidadão, sem que haja qualquer fato atípico, é ilegal e pode ser considerado uma forma de perseguição.

"Moro foi perguntado várias vezes pelo Senado, pela Câmara e por vários jornais se ele está nos investigando ou se ele tem provas para fazer coisas contra nós", disse Glenn. "Ele nunca negou. Naquele dia, desde que saiu a notícia até hoje, [ele nunca negou] a investigação."

Ele [Moro] quer que nós fiquemos com medo e com a preocupação de que estamos sendo investigados. Quero deixar claro que não temos medo algum. Vamos continuar publicando porque a Constituição brasileira protege e garante o que estamos fazendo
Glenn Greenwald

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Imagem de Moro está "caindo", diz jornalista

Glenn voltou a dizer que o Intercept ainda tem "muito mais material de interesse público" a ser divulgado e que está trabalhando em parceria com o jornal Folha de S.Paulo, a revista Veja e outros veículos. Segundo ele, o trabalho em conjunto dá legitimidade à apuração e atesta a veracidade das conversas. Por enquanto, o site não aceitou submeter o material bruto para perícia.

O americano disse considerar que o impacto das reportagens que ficaram conhecidas como "Vaza Jato" deu luz a ilicitudes, na visão dele, que sempre permaneceram "nas sombras". "A imagem do Sergio Moro construída nos últimos cinco anos está já caindo", disse ele.

Para Glenn, a imagem supostamente manchada de Moro é resultante da severidade dos fatos, e não de uma suposta empreitada do Intercept contra o governo Bolsonaro. "Não precisa ser advogado para entender isso [sobre a gravidade das conversas]. Todos nós podemos entender."

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