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Suposto hacker diz que acionou Glenn Greenwald por meio de Manuela D'Ávila

28.out.2018 - A então candidata a vice-presidente Manuela D"Avila (PCdoB) - Itamar Aguiar/AFP
28.out.2018 - A então candidata a vice-presidente Manuela D'Avila (PCdoB) Imagem: Itamar Aguiar/AFP

Felipe Amorim*

Do UOL, em Brasília

26/07/2019 18h30Atualizada em 10/09/2019 14h48

Preso pela Polícia Federal por suspeitas de ter hackeado as contas no Telegram de diversas autoridades públicas, Walter Delgatti Neto, conhecido como "Vermelho", contou em seu depoimento dado na última terça (23) que a ex-deputada federal e candidata à vice-presidência em 2018 Manuela D'Ávila (PCdoB-RS) teria sido a pessoa que o colocou em contato com o jornalista Glenn Greenwald, do site The Intercept Brasil, em maio deste ano.

O Intercept começou a publicar em junho reportagens com diálogos entre o ministro Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública) e procuradores da Operação Lava Jato no Paraná, entre eles Deltan Dallagnol. O site nunca revelou qual foi a fonte das mensagens.

No depoimento, obtido pela GloboNews e cuja veracidade o UOL confirmou junto à PF (Polícia Federal), Delgatti Neto afirma que não recebeu nenhum pagamento pela entrega das mensagens ao Intercept.

Por meio de nota divulgada em sua conta no Facebook (leia abaixo o comunicado completo), Manuela confirmou ter sido contatada por uma fonte anônima após um aviso de que seu Telegram teria sido hackeado. Disse ainda que passou o contato da fonte a Glenn Greenwald, embora não tenha deixado claro se isso foi um pedido de seu interlocutor. Por fim, ela afirmou desconhecer a identidade da fonte.

O UOL está tentando contato telefônico e com representantes do site The Intercept, mas ainda não obteve retorno.

Contato com Manuela após hackear Dilma

À Polícia Federal, Delgatti Neto afirmou que obteve o telefone de Manuela após hackear o celular da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Delgatti, então, teria telefonado à ex-deputada para pedir contato do jornalista Glenn Greenwald, informando possuir um acervo de conversas entre membros do MPF (Ministério Público Federal) que continha irregularidades.

A princípio, a ex-deputada não teria acreditado nessa versão, segundo narra o depoimento, mas um tempo após Delgatti Neto enviar áudios de conversas entre procuradores, o próprio Glenn entrou em contato com ele por meio do Telegram.

Segundo Delgatti diz no depoimento, Glenn disse ter interesse no material, pois este seria de interesse público.

"Que ligou para Manoela (sic) D'ávila diretamente da sua conta do telegram e disse que precisava do contato do jornalista Glenn Greenwald; que a princípio Manoela D'ávila não estava acreditando no declarante, motivo pelo qual fez o envio para ela de uma gravação de áudio entre os procuradores da República Orlando [Martello Júnior] e Januário Paludo; que no mesmo domingo do dia das mães [12 de maio], cerca de 10 minutos após ter enviado o áudio, recebeu uma mensagem no telegram do jornalista Glenn Greenwald, que afirmou ter interesse no material, que possuiria interesse público", diz trecho do depoimento.

Glenn não sabia identidade do suspeito

Ao relatar a suposta troca de mensagens com Glenn Greenwald, Delgatti disse em depoimento que nunca passou seus dados ao jornalista e que nem o fundador do Intercept nem integrantes de sua equipe conheciam sua identidade.

Explicou ainda que sua comunicação com o jornalista foi feita via Telegram e que pela extensão do material repassado, eles criaram uma conta na plataforma de armazenamento Dropbox para guardar os arquivos. Tanto Delgatti quanto Glenn teriam a senha para acessar os arquivos.

Hoje, pela primeira vez, Glenn deu detalhes de quem seria a fonte dos vazamentos do Intercept, mas não revelou se seria algum dos quatro suspeitos presos pela PF, entre eles Delgatti.

À revista Veja, o jornalista apresentou algumas mensagens trocadas com a fonte. Em datada de 5 de junho, a fonte relata ao jornalista norte-americano que não foi responsável pela invasão no celular do ministro Sergio Moro.

"Viu isso?", pergunta Greewald à fonte, enviando em seguida uma reportagem da Folha de S. Paulo que relatava a invasão no celular de Moro. "Vi agora. Com isso a massa vai ficar quente, é bom ter cautela. Posso garantir que não fomos nós. Nunca trocamos mensagens, só puxamos. Se fizéssemos isso, ia ficar muita na cara", responde a fonte, em transcrição literal.

"Nós não somos 'hackers newbies', a notícia não condiz com o nosso modo de operar, nós acessasmos (sic) telegrama (sic) com finalidade de extrair conversas e fazer justiça, trazendo a verdade para o povo", relatou a fonte para Greenwald, ainda segundo a revista Veja.

Greenwald afirmou à publicação que os contatos iniciais com a fonte foram feitos no início de maio, um mês antes de vir à tona a invasão no celular de Moro e, posteriormente, dos procuradores e outras autoridades.

O caminho do hackeamento

No depoimento, Delgatti relata que a primeira conta de Telegram que hackeou foi a do promotor de Justiça de Araraquara Marcel Zanin Bombardi, responsável por uma denúncia contra ele pelo crime de tráfico de drogas relacionada a medicamentos que ele consumia.

A partir dos dados obtidos no Telegram de Bombardi, Delgatti teve acesso ao número de um procurador da República, cujo nome ele diz não se recordar, que participava do grupo "Valoriza MPF" no Telegram. A partir da agenda telefônica de outro procurador do grupo, Delgatti conseguiu o número do deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP).

Com a agenda de Kataguiri, ele então consegue o número do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes e, do mesmo modo, hackeando a conta do Telegram do ministro, obtém o número telefônico do ex-procurador geral da República Rodrigo Janot. Foi a partir da agenda de Janot que Delgatti diz ter conseguido os números telefônicos dos procuradores da República da força-tarefa da Lava Jato no Paraná.

Foi por meio da agenda no Telegram de Dallagnol, segundo consta no depoimento, que o hacker teria obtido o número do ministro da Justiça Sergio Moro. Mas ele diz não ter obtido nenhum conteúdo a partir do Telegram de Moro.

Suspeito duvida de alteração em mensagens

Delgatti relatou ter procurado Glenn Greenwald por conhecer a atuação do jornalista nas reportagens sobre documentos secretos dos EUA, no caso de Edward Snowden. O preso afirmou que envio das mensagens ao Intercept partiu de iniciativa própria dele e não envolveu nenhuma contrapartida.

No depoimento, Delgatti diz que procurou Glenn para repassar o conteúdo de mensagens capturadas em celulares de quatro procuradores: Deltan Dallagnol, Orlando Martello Júnior, Diogo Castor e Januário Paludo.

No depoimento, Delgatti declarou também que invadiu os aparelhos de diversas autoridades - entre elas Dilma, Moro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) -, mas que só armazenou as mensagens obtidas de aparelhos dos procuradores por avaliar que delas constavam atos ilícitos narrados pelos membros da Lava Jato.

Sobre as suspeitas de adulteração do material, o suposto hacker Delgatti diz que não editou as mensagens antes de enviá-las ao jornalistas e que acredita não ser tecnicamente possível editar o material por causa do tipo do arquivo.

"Que pode afirmar que não realizou qualquer edição dos conteúdos das contas de Telegram das quais teve acesso; que acredita não ser possível fazer a edição das mensagens do Telegram em razão do formato utilizado pelo aplicativo", diz trecho do termo de depoimento.

Manuela confirma contato, mas diz desconhecer identidade

Leia a nota completa divulgada por Manuela D'Ávila confirmando ter sido contatada por uma fonte, mas sem saber quem seria.

Tomando ciência, pela imprensa, de alusões feitas ao meu nome na investigação de fatos divulgados pelo "The Intercept Brasil", e por me encontrar no exterior em atividades programadas desde o início do corrente ano, esclareço que:

1. No dia 12 de maio, fui comunicada pelo aplicativo Telegram de que, naquele mesmo dia, meu dispositivo havia sido invadido no Estado da Virginia, Estados Unidos. Minutos depois, pelo mesmo aplicativo, recebi mensagem de pessoa que, inicialmente, se identificou como alguém inserido na minha lista de contatos para, a seguir, afirmar que não era quem eu supunha que fosse, mas que era alguém que tinha obtido provas de graves atos ilícitos praticados por autoridades brasileiras. Sem se identificar, mas dizendo morar no exterior, afirmou que queria divulgar o material por ele coletado para o bem do país, sem falar ou insinuar que pretendia receber pagamento ou vantagem de qualquer natureza.

2. Pela invasão do meu celular e pelas mensagens enviadas, imaginei que se tratasse de alguma armadilha montada por meus adversários políticos. Por isso, apesar de ser jornalista e por estar apta a produzir matérias com sigilo de fonte, repassei ao invasor do meu celular o contato do reconhecido e renomado jornalista investigativo Glenn Greenwald.

3. Desconheço, portanto, a identidade de quem invadiu meu celular, e desde já, me coloco a inteira disposição para auxiliar no esclarecimento dos fatos em apuração. Estou, por isso, orientando os meus advogados a procederem a imediata entrega das cópias das mensagens que recebi pelo aplicativo Telegram à Polícia Federal, bem como a formalmente informarem, a quem de direito, que estou à disposição para prestar quaisquer esclarecimentos sobre o ocorrido e para apresentar meu aparelho celular à exame pericial.

*Com reportagem de Eduardo Militão, do UOL em Brasília, e Alex Tajra, do UOL em São Paulo

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