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Bairro histórico que abrigou novela da Globo é alvo de disputa em Salvador

Max Haack/Secom/Divulgação
Praça Santo Antônio Além do Carmo, em Salvador Imagem: Max Haack/Secom/Divulgação

Alexandre Santos

Colaboração para o UOL, em Salvador

25/01/2019 04h00

Um dos bairros mais antigos de Salvador está no centro de uma polêmica disputa cujo ponto de discórdia seria uma suposta elitização do pré-Carnaval local. O imbróglio envolve moradores e empresários do segmento de blocos. 

Fincado no centro histórico e conhecido por abrigar grupos de fanfarras que desfilam sem cordas nas ruas -que recentemente ganharam projeção na novela "Segundo Sol" (TV Globo)-, o Santo Antônio Além do Carmo poderá sediar neste ano uma versão diferenciada da folia: um evento privado semelhante aos que já acontecem nos circuitos oficiais.

Batizada de Santo Antônio Harém do Carmo, a festa em questão terá características que, segundo moradores, destoam da tradição do lugar, considerado tranquilo e democrático -apesar do vaivém de soteropolitanos e turistas durante o verão.

"Vem aí a maior novidade do verão! O evento que você estava esperando virou realidade! Banda de fanfarra desfilando pelas charmosas ruas do bairro mais cool da cidade. Baile com superatrações num lindo sítio arborizado e com vista deslumbrante para o pôr do sol sobre o mar. Toda a alegria, o alto-astral e muita gente bonita, numa festa com a marca de eventos mais bacana do verão", descreve apresentação do evento, promovido pela Diva Entretenimento.

A publicação diz que a festa acontecerá no dia 23 de fevereiro, a partir das 15h. Entre as principais atrações estão Lincoln e Duas Medidas, Forró do Tico e Telefunksoul.

Antes dos shows, os foliões do Harém desfilarão pelas ruas do Santo Carmo ao som de uma banda de fanfarra. Ao fim do trajeto, a pedida será o baile que ocorrerá na Chácara Baluarte, com direito a camarote.
É possível adquirir um lote promocional do evento por R$ 70.

Procurada pelo UOL, a Diva Entretenimento informou que deu entrada em todos os documentos exigidos para a festa. O pedido está em análise na CLE (Central de Licenciamento de Eventos), órgão municipal.
"A Diva está fazendo tudo da melhor maneira para que a situação seja resolvida", informou a assessoria da empresa, ressaltando que, na tarde nesta quinta-feira (24), seus representantes teriam uma reunião com a Prefeitura de Salvador a fim de solucionar o impasse.

A gestão municipal informou à reportagem que pediu um detalhamento das festas que aguardam autorização para o pré-Carnaval no Santo Antônio Além do Carmo.

A administração afirma que só emitirá novas autorizações após avaliar a viabilidade e os possíveis impactos dos eventos a serem realizadas no bairro histórico. 

A Saltur (Secretaria de Turismo), por sua vez, assinala que os trâmites exigidos estão previstos no Decreto nº 20.505/2009, do Estatuto das Festas Populares e do Carnaval. O dispositivo estabelece, por exemplo, diretrizes acerca do funcionamento do comércio informal, o impacto no trânsito, segurança e propagação sonora.

"O decreto estabelece as zonas de exceção. Há um aumento da emissão sonora permitida que é auferida em decibéis, o que não pode ocorrer em outros momentos", explica Cláudio Tinoco, titular da pasta.

Moradores veem gentrificação

Ainda que os organizadores da festa Santo Antônio Harém do Carmo assegurem que o desfile nas ruas será "totalmente gratuito, sem cordas, abadás e pulseiras", quem vive por ali diz desaprovar o evento, considerado uma tentativa de gentrificação do espaço público.

"Fazendo todas as ressalvas pelo respeito que tenho pelo trabalho dos meninos da Diva, que é a produtora do evento e que conheço há quase 20 anos, não adianta, com cabeça de axé music, vir uma vez por ano pegar o hypinho do Santo Antônio, um bairro que é, acima de tudo, uma comunidade residencial e que não tem nada a ver com a cultura de abadá e do bloco de corda", critica Pedro Tourinho, empresário da área cultural.

"Eu sei o trabalho que dá e a autorização que preciso para bater um prego numa reforma de uma casa. Como é que se aprova assim que gente de fora e sem nenhum histórico, vínculo social ou cultural com o local faça um bloco de Carnaval privado na frente de nossas casas?", questiona.

Comerciantes relataram que, embora haja expectativa de incremento nas vendas, o bairro não comporta festas badaladas.

Agremiação que desfila na região desde 2011, o bloco independente De Hoje a Oito diz que, diante da contenda, pode abrir mão de desfilar pela primeira vez. "Estamos repensando a nossa saída carnavalesca de 2019. Em um momento político tão radical, é necessário ter cautela e responsabilidade para botar um bloco na rua. Não queremos fazer Carnaval a serviço de um espetáculo midiático, muito menos um Carnaval de novela. Queremos um Carnaval livre, com tranquilidade, sobretudo para que os moradores do Santo Antônio Além do Carmo também possam desfrutar com paz e alegria esse Carnaval tão bonito", salientou em um comunicado.