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Internacional

Israel faz "guerra aberta ao povo palestino", diz embaixador da Palestina no Brasil

Fernanda Calgaro

Do UOL, em Brasília

16/07/2014 06h00Atualizada em 16/07/2014 08h22

Em meio ao acirramento da tensão entre israelenses e palestinos, com foguetes e mortes dos dois lados, o embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahim Mohamed Khalil Alzeben, acusa o governo inimigo de usar o assassinato de três jovens israelenses em junho como pretexto para fazer uma “guerra aberta” ao seu povo.

Mapa Israel, Cisjordânia e Gaza - Arte/UOL - Arte/UOL
Mapa mostra localização de Israel, Cisjordânia e Gaza
Imagem: Arte/UOL

Israel acusou o Hamas, que controla a faixa de Gaza, dos assassinatos, o que foi negado pelo grupo. Dias depois, um jovem palestino foi sequestrado e queimado vivo, aparentemente, como vingança.

Em reação, o Hamas começou a disparar foguetes contra o território de Israel --a maior parte tem sido interceptada por um sistema antimíssil. O governo israelense, por sua vez, lançou uma ofensiva militar com bombardeios aéreos contra Gaza.

Do lado palestino, os ataques deixaram quase 180 mortos. Em Israel, uma pessoa morreu em decorrência dos foguetes palestinos.

O Egito tentou mediar uma proposta de cessar-fogo, mas que não durou mais do que meia hora, pois o braço armado do grupo radical Hamas disse encarar os termos como uma "rendição".

O embaixador atribui a Israel a falta de vontade política para conduzir um processo de paz permanente e diz não haver outra solução que não a de “estabelecer dois Estados para dois povos”.

Confira os principais trechos da entrevista concedida ao UOL:

UOL: Qual o impacto dos acontecimentos recentes no processo de paz?

ALZEBEN: Nós condenamos o sequestro [dos três jovens israelenses], condenamos o assassinato de civis sob qualquer pretexto. Só que Israel usa isso como pretexto para já lançar uma ofensiva contra todo o povo palestino. As atividades militares, a agressão e o genocídio não são contra o Hamas, são contra todo o povo palestino, e em qualquer leitura dos resultados destes bombardeios fica bem claro que o objetivo é uma guerra aberta ao povo palestino, ao processo de paz, à Autoridade Nacional Palestina.

Teme que possa piorar com uma invasão a Gaza?

Sim, tudo parece indicar que sim. Esta mobilização de 35 mil efetivos da reserva [Israel fala em 20 mil] não é para um passeio. Eles realmente estão preparando tudo e nós estamos (...) exortando todos aqueles países influentes envolvidos, encabeçados pelos Estados Unidos, para evitar esta entrada terrestre, para pôr fim a este conflito, para fazer um cessar-fogo.

Como tem sido o apoio do governo a essas pessoas?

Dentro das nossas possibilidades, estamos tratando de assistir. Gaza é uma faixa pequena que está cercada quase por todas as partes por Israel e onde Israel impede a entrada de alimentos, a entrada de medicamentos. É realmente uma situação catastrófica.

Israel justifica o alto número de civis mortos pelo fato de o Hamas instruir as pessoas a ficarem nos telhados, agindo como escudos humanos.

Gaza é um território de 365 quilômetros quadrados, praticamente menor do que Brasília, territorialmente falando, onde moram 1,6 milhão de habitantes. Obviamente, qualquer ataque está custando a vida de civis.

Do lado palestino, o sequestro dos jovens ocorreu pouco após o Hamas [grupo militante que tem um braço armado] e o Fatah [partido do presidente palestino Mahmoud Abbas] anunciarem um aguardado pacto de união. Como fica a situação de Abbas?

Eu acho que o povo palestino tem de escolher seu próprio governo. Israel não pode impor, como eu também não posso impor ao povo de Israel quem eleger. Quando elegeram [Ariel] Sharon, conversamos com Sharon, independentemente se gostávamos ou não. Quando elegeram [Ehud] Barak, fizemos a mesma coisa. Quando elegem Netanyahu e [o ministro de Relações Exteriores, Avigdor] Lieberman, tivemos de negociar com eles. Não escolhemos o time do adversário neste caso. E, neste caso, Israel também não tem o direito de interferir e impor quem escolhe o povo palestino.

Há críticas de que nem Netanyahu nem Abbas estariam interessados em um acordo de paz definitivo para não precisarem fazer concessões. O sr. concorda?

Eu acho que, neste caso, concordo com a primeira parte de que Netanyahu é que não quer a paz. Netanyahu quer um Estado judeu para os judeus, o que quer dizer que está negando os outros. Ele quer os palestinos sob o seu mandato, subordinados a ele, como cidadãos talvez de terceira categoria, como mão de obra barata.

Sobre o papel da comunidade internacional, teme que uma negociação mediada pelos EUA irá favorecer Israel?

Está favorecendo até o momento, lamentavelmente, Israel. Uma posição firme dos Estados Unidos pode solucionar o conflito hoje. Simplesmente, ordenar que seu representante na ONU, no Conselho de Segurança, aprove uma sanção firme contra esta política belicista do Estado de Israel contra os palestinos.

Mas, então, o sr. não vê luz no fim do túnel?

Eu não perco a esperança. (...) Nós existimos como povo e vamos existir como Estado, vamos honrar nossos compromissos, respeitando o direito internacional, respeitando os nossos vizinhos, respeitando a vida dos civis, tanto deles quando dos nossos. Nos dói muito também a morte de um cidadão israelense, mas nos dói mais este massacre, este genocídio contra o nosso povo, tanto em Gaza como na Cisjordânia. Não tem outra solução a não ser estabelecer dois Estados para dois povos, com garantias internacionais. Nestes momentos, eu preciso de proteção internacional.

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