Viva a sociedade alternativa: comunidade hippie no meio da capital dinamarquesa chega aos 40

Juliana Guarany
Especial para o UOL Tabloide
Em Copenhague (Dinamarca)

Que Tivoli, que nada. Passear por Copenhague hoje em dia vai muito além de conhecer um dos parques temáticos mais antigos do mundo. Um outro parque, bem perto dali e com muito menos glamour, tem chamado a atenção dos moradores, das autoridades dinamarquesas e, agora, também dos turistas.

Já se passaram 40 anos da revolução, do amor livre e do "proibido proibir", mas aquele cantinho do mundo permanece ali, firme e forte, na defesa da sociedade alternativa. Christiania, uma comunidade hippie localizada bem no centro da capital dinamarquesa, preserva como pode as características do movimento hippie. Se Raul Seixas estivesse vivo, provavelmente moraria ali... isso se o Maluco Beleza aguentasse o frio de quase 15 graus negativos no inverno!

A comunidade divide opiniões dos moradores. Tem quem ache que a "cidade livre", como é conhecida, atrai criminosos e vendedores de drogas. Isso porque é muito fácil comprar maconha na avenida principal da comunidade, a Pusher Street. Mas tem também quem admire a tranquilidade do local. Christiania tem seu próprio código de conduta e leis, e a comunidade de cerca de mil habitantes convive em paz com os jovens estudantes e desempregados que passam seus dias por ali, relaxando em frente ao lago ou conversando nas mesinhas de Nemoland, a “praça de alimentação” de Christiania.

Para os turistas - e também para a enviada especial do UOL Tabloide, que é filha de Deus e também faz turismo -, é realmente interessante passar pelo portal de entrada da cidade. Na saída, aquele mesmo portal traz a mensagem “You are now entering the European Union” (“Você agora está entrando na União Europeia”). É para se sentir mesmo em outro planeta.

Dinamarca 2, mas mantenha o respeito

Ao andar pela Pusher Street, logo se vê que o paraíso de Marcelo D2, vocalista do Planet Hemp, é mesmo ali: dezenas de barraquinhas, como numa imensa feirinha hippie, vendem todo o tipo de ervas que “curam e acalmam, aliviam e temperam”, como diria a banda O Rappa. Encontra-se ali desde a maconha em si, como também o skunk, haxixe, maconha com sabores, muitos deles já enrolados e prontos para o consumo, para facilitar a vida dos menos acostumados a ver a erva em tanta abundância. Não por acaso, a rua possui cartazes de “proibido fotografar” espalhados por todos os lados. Não que seja exatamente um segredo, mas é por bem manter a câmera fora de alcance e evitar problemas.

O mercado pode até assustar um pouquinho quem chega desprevenido, mas logo Christiania mostra que ali o povo só quer mesmo paz e amor. Ao passar pela pracinha Nemoland, chega-se ao canal em que as casas dos moradores se espalham, uma mais curiosa que a outra: caixotes de vidro, discos voadores, casas na árvore, criatividade ali não falta. Há também uma escola para a criançada com um cartaz alertando quem curte o passeio: “não dê bobeira por aqui durante a semana!”. Nada de legalizar perto dos menores.

O local preferido para os relaxadores de plantão é o novo gramado, cuidadosamente plantado pelos moradores, que pedem para ninguém deixar lixo por ali. O sol da primavera convida locais e turistas a curtirem o seu “legalize it” sem pressa, de frente para o canal.

Muitas casas bizarras depois, é possível conhecer o verdadeiro coração da cidade, uma rua bem menos movimentada, voltada para os moradores. Ali há uma banca de troca de roupas e assessórios. Gostou de alguma coisa? É só levar, mas é de bom tom deixar lá também a sua contribuição.

Começou por brincadeira

Tudo começou em setembro de 1971, quando moradores da região de Christianshavn resolveram invadir uma área militar que não era mais utilizada desde a Segunda Guerra Mundial sob o pretexto de que queriam um local tranquilo para seus que filhos brincassem. Com o tempo, famílias passaram a construir casas na região do canal– nada planejado, tudo em meio à natureza – até que a comunidade se formou e hoje conta com cerca de mil habitantes. Por todos os lados vê-se o símbolo de Christiania: três pontos amarelos em um fundo vermelho. É dito que as cores foram escolhidas porque, na época da invasão, os moradores acharam muita tinta vermelha sobrando por ali.

Em Christiania, ninguém é dono da propriedade em que mora. Para entrar para a comunidade, é preciso passar pelo crivo de todos mediante assembleia, algo mais difícil que conseguir uma mesa no Noma, eleito o melhor restaurante do mundo pela Restaurant Magazine - por acaso, o restaurante fica a menos de 500 metros da cidade livre.

Apesar de pagarem por água, luz e pela retirada de lixo, os moradores de Christiania não são obrigados a pagar muitas das taxas impostas aos outros cidadãos. Isto, num dos países que mais cobra taxas de sua população, é uma grande vantagem, o que gera reclamações de que a cidade livre é uma parasita dos cidadãos comuns.

“Eles invadiram uma propriedade pública e não pagam para morar ali. Fora isso, é muito pouco democrático ver que só entra para a comunidade aqueles que conhecem quem já está dentro, tudo às custas de quem está fora”, diz o estudante Sven Pedersen, morador da região de Copenhague.

A lei? Ora, a lei

Desde que Christiania foi criada, seu destino pareceu incerto. Governos mais liberais tentaram integrá-la à cidade, mas nunca de forma satisfatória, tanto para a comunidade como para Copenhague. O tráfico de drogas pesadas, proibido em Christiania, chegou a sair do controle nos anos 80, mas a comunidade conseguiu coibir os traficantes. Mesmo assim, a venda de maconha, liberada na cidade livre, continua incomodando.

Recentemente, com o governo direitista que assumiu o poder na Dinamarca, Christiania viu sua maior ameaça: exigiu-se que a comunidade deixasse o local ou comprasse a propriedade. Em valor de mercado, a área poderia atingir até um bilhão de coroas dinamarquesas, algo em torno de 130 milhões de euros.

Para a alegria dos hippies de plantão, Christiania fechou um acordo de compra de suas propriedades por um valor bem mais modesto: 120 milhões de coroas dinamarquesas, ou 10,5 milhões de euros, aproximadamente. Algo em torno de 10% do valor de mercado.

Com isso, os moradores poderão ter mais segurança e controle sobre o destino reservado à sua propriedade. Para o governo, era importante legalizar a situação de Christiania, mas não havia interesse em acabar com a comunidade, pois só a cidade livre atrai mais de três milhões de turistas por ano, interessados puramente em saber como funciona uma sociedade alternativa. Ah bom!

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