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Caso Marielle


Dois presos em operação são suspeitos de clonar carro do caso Marielle

O PM Rodrigo Jorge Ferreira, o Ferreirinha, que admitiu falso testemunho no caso Marielle, se apresentou hoje à polícia - Igor Mello/UOL
O PM Rodrigo Jorge Ferreira, o Ferreirinha, que admitiu falso testemunho no caso Marielle, se apresentou hoje à polícia Imagem: Igor Mello/UOL

Igor Mello

Do UOL, no Rio

31/05/2019 13h05Atualizada em 31/05/2019 14h06

Dois dos presos na Operação Entourage, que mirou uma quadrilha de milicianos que atuava em comunidades de Jacarepaguá e Recreio (zona oeste do Rio de Janeiro), são investigados pela Polícia Civil por envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco. Rafael Carvalho Guimarães e Eduardo Almeida Nunes de Siqueira são suspeitos de terem clonado o veículo Cobalt usado pelos assassinos no dia do crime, em março do ano passado, segundo informou a DH (Divisão de Homicídios).

De acordo com o delegado Daniel Rosa, chefe da delegacia, os dois já eram investigados no âmbito do caso Marielle. Eles são suspeitos de integrar a quadrilha comandada pelo miliciano Orlando Oliveira de Araújo, conhecido como Orlando Curicica.

"Rafael e Eduardo, que foram presos na manhã de hoje, estão sendo investigados na clonagem do veículo Cobalt usado no assassinato. Com a prisão desses dois indivíduos suspeitos dessa clonagem, acreditamos que podemos trazer mais elementos dessa investigação [do caso Marielle]", diz.

Daniel Rosa afirma que os carros clonados por Rafael e Eduardo eram usados para vários fins. O principal era para o deslocamento de integrantes da própria milícia, inclusive em invasões de novas comunidades. Porém, os veículos também eram comercializados para auferir lucro para o grupo criminoso.

Os investigadores não descartam a possibilidade de o esquema de clonagem da milícia de Orlando Curicica atuar sob encomenda para outros grupos criminosos, entre eles, milicianos de outras regiões.

O promotor Michel Queiroz Zoucas, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público do Rio, não comentou possíveis desdobramentos da prisão dos dois para o caso Marielle, mas admitiu que a possibilidade de terem clonado o carro usado pelos assassinos é uma linha de investigação. "As linhas devem ser exploradas, essa é uma linha que pode ser explorada", afirmou.

A Polícia Civil prendeu em março o policial militar reformado Ronnie Lessa e o ex-policial militar Élcio Vieira de Queiroz, acusados de terem sido os responsáveis por matar a vereadora. Os investigadores apuram a possível ligação de ambos com a milícia que controla a comunidade do Rio das Pedras, também na zona oeste do Rio.

Operação Entourage

Além dos suspeitos de clonar veículos, outros dois nomes importantes para a elucidação da morte de Marielle e do motorista Anderson Gomes também foram alvos de mandados nesta operação: o miliciano Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica, que já está preso na Penitenciária Federal de Mossoró (RN); e o segundo sargento da PM Rodrigo Jorge Ferreira, o Ferreirinha, que chegou a ser tratado como testemunha-chave para a elucidação do caso.

Ferreirinha se apresentou como delator, acusando Orlando Curicica e o vereador do Rio Marcelo Siciliano (PHS) como mandantes dos assassinatos. Porém, investigação da Polícia Federal mostrou que Ferreirinha atuou para obstruir as investigações. Como mostrou o UOL, ele admitiu ter mentido nos depoimentos.

Apesar disso, Daniel Rosa afirmou que a Polícia Civil continua mantendo Curicica como um dos possíveis mandantes do assassinato de Marielle. "Orlando Curicica nunca saiu de nosso radar. A investigação ainda está em andamento, então não podemos descartar a participação dele nesse caso", revelou.

Rosa afirmou ainda que as informações dadas por Ferreirinha foram utilizadas nessa e em diversas investigações. "Os elementos trazidos por ele ajudaram dezenas de investigações. Foram revelados fatos que contribuíram com diversas investigações. O Orlando Curicica é alvo de mais de dez inquéritos por homicídios nessa delegacia."

Milícia dividia tarefas e analisava 'potencial' de áreas

A Delegacia de Homicídios da Polícia Civil e o Gaeco (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado) do MP deflagraram hoje a Operação Entourage com o objetivo de desarticular a milícia. Segundo a denúncia, o grupo é comandado por Curicica.

Até o começo da tarde, haviam sido cumpridos 17 mandados de prisão, sendo oito contra alvos que estavam em liberdade e outros nove que já estavam presos por outras acusações. Há mandados contra 21 pessoas.

As investigações mostram que o grupo controla as comunidades de Curicica, Colônia, Terreirão, Camorim, Parque Carioca/Jambalaya, Merck, Boiuna, Santa Maria, Mapuá, Lote 1000, Pau da Fome, Tancredo, Jordão e Teixeiras.

De acordo com os investigadores, a quadrilha tinha uma clara divisão de tarefas. Entre os presos, há integrantes de diversos núcleos: os líderes da organização criminosa; seus seguranças; os que atuavam na conquista de novas áreas para a atuação da milícia; cobradores e recolhedores de taxas junto a moradores e comerciantes; vendedores de armas de fogo e cigarros; além de membros especializados na clonagem e receptação de veículos usados pela quadrilha.

O promotor Michel Queiroz Zoucas explicou que, antes de dominarem uma comunidade, os criminosos faziam um detalhado inventário das atividades que poderiam ser exploradas pela quadrilha no local. Era o potencial econômico que tornava uma área atrativa para o grupo.

"Uma grande característica da milícia é tomar o território para tentar explorar ao máximo o potencial econômico deles praticando violência. Por isso, onde eles enxergam que podem dominar e exercer o monopólio comercial, eles vão lá, tomam aquele serviço e passam a explorar", relatou.

"A investigação demonstrou que uma área conquistada nesse período foi a região do Tirol. No levantamento daquela região, que fez com que a milícia tivesse interesse, foram levantados os serviços que poderiam ser explorados no Tirol e justificavam uma invasão. Dentre esses serviços foi identificado o comércio de água, a tal ponto que a milícia começou a pensar qual marca de água começariam a comercializar lá", exemplificou o promotor.

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