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PF: Testemunha do Caso Marielle incriminou miliciano para dominar "gatonet"

Cristiane Mattos/Estadão Conteúdo
Imagem de Marielle Franco, vereadora carioca assassinada no ano passado Imagem: Cristiane Mattos/Estadão Conteúdo

Flávio Costa e Sérgio Ramalho

Do UOL, em São Paulo e Colaboração para o UOL, no Rio

2019-05-24T04:01:00

24/05/2019 04h01

Resumo da notícia

  • Testemunha e investigado no Caso Marielle têm acerto para incriminar acusado, diz PF
  • Ambos, um policial militar e um ex-policial civil, dividiram "espólio" de miliciano
  • Controle do serviço de TV a cabo em condomínio do Rio seria um dos objetivos

Uma testemunha e um ex-policial civil investigado no Caso Marielle se associaram para incriminar o chefe de milícia Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica, como mandante da morte da vereadora. O objetivo da dupla seria controlar as áreas dominadas pelo paramilitar na zona oeste do Rio. A informação consta no inquérito da PF (Polícia Federal) que concluiu que houve obstrução à investigação do atentado ocorrido em 14 de março de 2018.

Suspeito de ser uma testemunha plantada para atrapalhar as investigações, o policial militar Rodrigo Jorge Ferreira obteve, após incriminar Curicica, o controle do serviço ilegal de TV a cabo prestado pela milícia ao conjunto habitacional Merck. Por sua vez, o ex-policial civil Jorge Luiz Fernandes, o Jorginho, passou a controlar a região de Curicica, onde explora um esquema ilegal de máquinas caça-níqueis, segundo a Polícia Federal.

"A testemunha Rodrigo Jorge Ferreira assume partes do espólio de Orlando Oliveira de Araújo na região de Merck após sucessivos depoimentos em que o incrimina, assim como o contraventor Jorge Luiz Fernandes, vulgo 'Jorginho', que passa a assumir a região antes dominada por Orlando", lê-se no trecho do inquérito obtido pelo UOL.

Os dois foram alvos de mandados de busca e apreensão cumpridos por agentes federais em suas respectivas casas, no último dia 21 de fevereiro.

Suspeita de testemunha "plantada"

Pouco mais de um mês após assassinato de Marielle e seu motorista, três delegados federais apresentaram como "testemunha-chave" à DH (Delegacia de Homicídios da Capital, órgão da Polícia Civil do Rio), o policial militar Rodrigo Jorge Ferreira.

Em seu depoimento, "Ferrerinha", como é apelidado o policial, apontou o vereador Marcello Sicilliano (PHS-RJ) e Curicica como mandantes do assassinato da vereadora filiada ao PSOL. Ele afirma ter testemunhado reuniões em que ambos planejaram o atentado. Marielle Franco estaria atrapalhando negócios ilegais de Sicilliano.

Após a divulgação do depoimento do PM, Curicica e Siciliano negaram a autoria do crime.

Curicica, que estava preso no Rio, foi transferido para o presídio federal de Mossoró (RN). Lá, ele prestou depoimento ao MPF (Ministério Público Federal) no qual afirmou que a Polícia Civil do Rio tentou lhe convencer a assumir a morte de Marielle e revelou um suposto esquema de corrupção na DH que barraria investigações sobre homicídios ligados ao jogo do bicho e às milícias.

O depoimento de Curicica foi estopim para que a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, determinasse que a entrada da PF no caso.

Em contatos com a reportagem durante o mês de abril, a advogada de Ferreirinha, Camila Nogueira, afirmou que seu cliente disse a verdade. Os dois foram indiciados pela PF por obstrução à Justiça.

Ex-policial envolvido com a máfia do jogo do bicho

A PF afirma ainda que Jorginho financiou honorários de advogados que estiveram em reuniões com policiais na DH (Delegacia de Homicídios da Capital) para obter a confissão de Curicica.

Expulso da Polícia Civil, Jorginho fazia parte do grupo conhecido como os "inhos" de Álvaro Lins, ex-chefe da instituição que foi preso e condenado por receber propina para garantir a segurança de Rogério Andrade, banqueiro do jogo do bicho no Rio. "Inhos" era uma referência aos apelidos no diminutivo dos policiais que integravam o bando: Jorginho, Fábio de Menezes Leão, o Fabinho, e Hélio Machado da Conceição, o Helinho.

Investigações da PF, entretanto, revelam que os inhos passaram a atuar na exploração de máquinas de caça-níqueis, juntamente com o ex-sargento da PM Geraldo Antônio Pereira, assassinado a tiros em 2016. Após sua morte, a milícia de Curicica e o negócio ilegal passaram a ser controlados por Orlando, para desagrado de Jorginho, que era primo de Pereira.

Em 2012, o trio dos inhos foi condenado pela Justiça Federal por lavagem de dinheiro a 16 anos de prisão. Alegando inocência, eles recorrem da sentença em liberdade. Os recursos tramitam no STJ (Superior Tribunal de Justiça) e no STF (Supremo Tribunal Federal)

Advogado de Jorginho, o criminalista Alexandre Lopes afirmou que seu cliente "jamais foi miliciano e nunca fez parte de organização criminosa."

Ainda de acordo com o defensor, Jorginho foi "falsamente acusado por Orlando da Curicica, esse sim, criminoso de grande periculosidade, acusado criminalmente, delatado por comparsas e preso preventivamente por ordem judicial."

O advogado disse ainda que seu cliente não tem qualquer vínculo com o PM conhecido como Ferreirinha.

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