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Caso Marielle: escutas ligam Escritório do Crime à família Brazão no Rio

Luciano Belford/Estadão Conteúdo
Manoel de Brito Batista, vulgo Cabelo, cita o "amigo Brazão" em uma escuta telefônica Imagem: Luciano Belford/Estadão Conteúdo

Flávio Costa e Sérgio Ramalho

Do UOL, no Rio

2019-07-12T04:00:00

2019-07-12T17:44:09

12/07/2019 04h00Atualizada em 12/07/2019 17h44

Resumo da notícia

  • Conversas telefônicas de milicianos citam integrante de família de políticos do Rio
  • Diálogos sugerem que Escritório do Crime tinha ligação com a família Brazão
  • Nem o Ministério Público nem o clã político comentam a investigação

Conversas telefônicas interceptadas durante a investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) revelam que membros da milícia Escritório do Crime recorreram a políticos da família Brazão no Rio para evitar um pagamento de propina a um funcionário da prefeitura da cidade.

Esta seria a primeira prova factual da ligação entre o clã político carioca e um grupo paramilitar.

O Escritório do Crime é formado por assassinos de aluguel e domina os bairros de Rio das Pedras e Muzema, na zona oeste do Rio.

Nestas localidades, a organização criminosa cobra por serviços de segurança, agiotagem, venda de gás e tevê a cabo ilegal, além de construir prédios irregulares, a exemplo dos dois que desmoronaram no mês de abril, quando 22 pessoas morreram.

A família Brazão é formada por políticos cariocas cuja base eleitoral reside em bairros controlados por milícias. O chefe do clã é Domingos Brazão, ex-deputado e conselheiro afastado do TCE-RJ (Tribunal de Contas do Rio de Janeiro).

Domingos é suspeito de envolvimento na morte de Marielle e de obstruir a investigação sobre o caso. Outros dois irmãos exercem mandatos legislativos: Chiquinho é deputado federal pelo Avante e Manoel Inácio, também conhecido como Pedro Brazão, é deputado estadual pelo PR.

Procurados, nenhum membro da família Brazão respondeu aos questionamentos da reportagem (veja mais abaixo).

O Ministério Público do Rio de Janeiro não respondeu ao UOL se investigou as relações existentes entre os milicianos do Escritório do Crime e o clã de políticos. Após publicação desta reportagem, a assessoria de comunicação do MP-RJ enviou nota em que afirma que as "investigações estão sob sigilo".

Alerj
O deputado estadual Manoel Inácio Brazão (PR-RJ), também conhecido como Pedro Brazão Imagem: Alerj

'O rapaz lá não deu resposta?'

Quando surgiram informações de que membros do Escritório do Crime poderiam estar envolvidos na morte de Marielle, a Justiça do Rio autorizou em outubro passado que a Polícia Civil e o MP-RJ (Ministério Público Estadual) grampeassem telefones de milicianos de Rio das Pedras.

Parte das escutas do Caso Marielle acabou por ser compartilhada no inquérito que resultou na Operação Intocáveis, deflagrada no mês de janeiro para desbaratar a milícia.

O UOL obteve acesso a esses diálogos telefônicos que mostram uma relação entre os milicianos e a família Brazão.

Na tarde de 19 de outubro do ano passado, uma sexta-feira, apontado como despachante do Escritório do Crime, Fábio Campelo Lima, tinha um problema para resolver. Cabia a ele manter um esquema de propina com servidores públicos, com objetivo de facilitar a documentação dos imóveis e negócios irregulares da milícia. Naquele dia, um funcionário da Prefeitura do Rio lhe havia cobrado R$ 3 mil para liberar um alvará de uma empresa.

Por considerar o pedido muito alto, Fábio ligou para Manoel Brito Batista, conhecido como Cabelo, para tentar obter o documento por outra via. Manoel foi denunciado pelo MP-RJ como contador e gerente armado do grupo paramilitar.

No meio da conversa, Fábio cita um sobrenome conhecido na zona oeste do Rio:

Fábio: "E o rapaz lá não deu a resposta, não, do Brazão?"

Manoel: "Não deu não e eu acabei esquecendo. Vou dar uma ligada pra ele aqui".

Fábio: "Se ele conseguir isso vai ser uma boa, não sei qual foi o acordo aí que você fez com ele".

Ricardo Borges/UOL
O bairro de Rio das Pedras, na zona oeste do Rio, é dominado pelo Escritório do Crime Imagem: Ricardo Borges/UOL

Três minutos depois de encerrar a ligação com Fábio, Manoel ligou para o telefone de João Carlos Macedo da Silva. Ele é atualmente assessor parlamentar de Pedro Brazão na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) e já foi chefe da região administrativa de Jacarepaguá, na zona oeste. Ele recebeu o cargo por indicação da família Brazão.

Leia o diálogo:

João Carlos: "Oi, Manoel."

Manoel: "Tem alguma notícia para seu amigo?"

João Carlos: "Não, não, não... ainda não... eu fui lá hoje, mas sexta-feira ele só apita [marca presença], sai para almoçar e não volta mais, segunda-feira eu tô lá com ele lá."

Manoel: "Segunda a gente vê então".

João Carlos: "Isso, é, pode ficar tranquilo, tá bom, meu amigo?"

Para os analistas da Coordenadoria de Segurança e Inteligência do MP-RJ, que verificavam as escutas, os milicianos recorreriam a um membro da família Brazão para obter o documento municipal, sem precisar pagar propina ao funcionário da prefeitura do Rio.

Em nota enviada publicada após a publicação da reportagem, o MP-RJ afirma,"por meio da Coordenadoria de Segurança e Inteligência (CSI/MP-RJ), repudia trecho da reportagem que atribui aos analistas da CSI supostas conclusões sobre o conteúdo das escutas telefônicas. Esclarece o MP-RJ que a equipe da Coordenadoria transcreve e reproduz informações advindas de escutas de forma técnica, sem emitir opinião de mérito ou juízo de valor sobre o teor do material submetido à análise".

Manoel Brito Batista e Fábio Campelo Lima foram presos na Operação intocáveis como integrantes da milícia que age em Rio das Pedras e no Muzema. Eles alegam inocência.

O UOL entrou em contato com João Carlos Macedo da Silva, que não respondeu aos questionamentos da reportagem (veja mais abaixo).

'Senta o pau. Manda desenrolar'

Três dias depois, 22 de outubro de 2018, os milicianos voltam a falar do assunto e, desta vez, Manoel cita diretamente o deputado Pedro Brazão.

Manoel conversa por telefone com o gerente comissionado de sua loja de materiais de construção. Leia o diálogo:

Gerente: "Como é que ficou a situação lá do negócio do alvará?"

Manoel: "Cara, eu mandei soltar, paguei os R$ 3 mil, eu pelejei, levei pro Pedro, aquele amigo lá o Pedro Brazão..."

Gerente: "Ham, ham"

Manoel: "Aí me atendeu, 'vou ver pra tu', aí eu liguei agora três horas não me atendeu".

No mesmo dia, duas horas mais cedo, Manoel havia conversado com Fábio sobre o assunto. Ele cita Pedro Brazão, mas como não havia recebido uma resposta do deputado, pede ao despachante que pague propina ao funcionário da prefeitura para liberar o alvará:

"Eu tô ligando para aquele outro amigo lá, o Pedro Brazão, falou que ia acertar, que ia ver, tô ligando agora, ele não tá atendendo mais, senta o pau, manda desenrolar, dá três lá pra ele".

Gabriel Sabóia/UOL
A milícia Escritório do Crime constrói prédios irregulares na zona oeste do Rio Imagem: Gabriel Sabóia/UOL

Outro lado

O UOL esteve na Alerj, no centro do Rio, para tentar ouvir o assessor João Carlos Macedo da Silva e o deputado Pedro Brazão sobre as interceptações telefônicas. Ambos não foram localizados. As ausências foram atribuídas por uma secretária ao recesso parlamentar. Contudo, a funcionária orientou a reportagem a enviar mensagem ao email do gabinete do político. Macedo e o deputado, entretanto, não responderam.

O UOL ligou na quinta-feira (11) para o telefone de João Carlos Macedo Silva. Ao ouvir a identificação do repórter, ele desligou e não atendeu mais a outros chamados.

A reportagem também fez contato por telefone e através de mensagem enviada ao email do deputado federal Chiquinho Brazão. O ex-vereador também não respondeu sobre as conversas interceptadas.

A reportagem telefonou e enviou mensagem ao advogado Ubiratan Guedes, que representa o ex-deputado estadual e conselheiro afastado do TCE, Domingos Brazão.

Nas mensagens enviadas aos integrantes do clã Brazão e ao assessor parlamentar João Carlos Macedo da Silva a reportagem questionou se eles tinham conhecimento das relações dos interlocutores - Fábio Campelo Lima e Manoel Brito Batista - com a milícia autodenominada Escritório do Crime, que atua na região. Além de perguntar se eles atribuíam as votações conquistadas em Rio das Pedras a favores prestados aos milicianos.

Domingos Brazão foi citado na CPI das Milícias de 2008 como um dos políticos que faziam campanhas em Rio das Pedras. Por email, o advogado Ubiratan Guedes informou apenas não ter esclarecimentos a prestar.

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