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Território sob domínio do Estado Islâmico é baseado na burocracia do terror

Zeina Karam, Vivian Salama, Bram Janssen e Lee Keath

Em Eski Mosul (Iraque)

19/06/2015 06h01

Dentro do reino do Estado Islâmico, o documento atestando que você se "arrependeu" de seu passado herege deve ser carregado o tempo todo. Muitas pessoas o plastificam por segurança. Ele pode significar a diferença entre vida e morte.

Bilal Abdullah aprendeu isso pouco tempo depois de os extremistas tomarem sua aldeia iraquiana, Eski Mosul, há um ano. Enquanto caminhava pela rua, um combatente do Estado Islâmico em uma picape perguntou onde ficava a mesquita local. Quando Abdullah não reconheceu o nome da mesquita, o combatente passou a suspeitar.

"Ele me disse que minha fé era fraca e perguntou: 'Você ora?'", lembrou Abdullah. Então o combatente pediu para ver sua carteira de arrependimento. Abdullah era policial até a tomada pelo EI, e policiais e soldados são obrigados a ter uma. Assim como muitos outros ex-funcionários e defensores do governo --até mesmo ex-professores de inglês, já que lecionavam uma língua "proibida" e costureiros de roupas femininas, porque faziam roupas em estilos considerados não islâmicos.

Abdullah tinha deixado sua carteira em casa. Apavorado, ele fez seu filho sair correndo para buscá-lo.

"São pessoas brutais", ele disse à agência Associated Press. "Eles podem considerá-lo um infiel pela coisa mais simples."

O califado do Estado Islâmico, declarado há um ano, se estende até o norte da Síria passando por grande parte do norte e oeste do Iraque. Um número incontável de pessoas morreram por serem consideradas perigosas para o EI, ou insuficientemente devotas. De 5 a 8 milhões de pessoas suportam um regime que virou rapidamente seu mundo de cabeça para baixo, estendendo seu controle a cada canto da vida para fazer cumprir sua interpretação radical da lei islâmica, ou Shariah.

O domínio do Estado Islâmico é um lugar onde os homens se enchem de colônia para esconder o odor dos cigarros proibidos; onde motoristas e taxistas geralmente ouvem a rádio do EI, já que música pode fazer um motorista receber 10 chibatadas; onde as mulheres devem ficar totalmente cobertas, de preto, e usando calçados de sola plana; onde pessoas são atiradas de prédios para a morte por suspeita de homossexualidade; onde o comércio deve fechar durante as orações muçulmanas, e todos presentes na rua devem participar.

Não há saída segura. Pessoas desaparecem --seu desaparecimento é explicado por um vídeo de sua decapitação, um atestado de óbito sem informação ou nada.

"As pessoas os odeiam, mas se desesperam, pois não veem ninguém as apoiando caso se rebelem", disse um sírio de 28 anos que pediu para ser identificado apenas pelo apelido que usa no ativismo político, Adnan, para proteger sua família, que ainda vive sob o jugo do EI. "As pessoas sentem que ninguém está do lado delas."

A AP entrevistou mais de 20 iraquianos e sírios que sobreviveram à vida sob o domínio do grupo. Uma equipe da agência viajou para várias cidades no norte do Iraque, incluindo Eski Mosul, ao norte de Mosul, onde os moradores acabaram de sair de quase sete meses sob domínio do EI. Outra equipe viajou para as cidades turcas ao longo da fronteira, onde estão refugiados sírios que fugiram do território do EI.

O texto a seguir é baseado nos relatos deles, muitos dos quais foram verificados por múltiplas pessoas, assim como nas operações de radiodifusão e redes sociais do EI, além de documentos obtidos pela AP, incluindo cópias das carteiras de arrependimento, inventários de armas, folhetos detalhando as regras de vestuário feminino e formulários de permissão para viagem para fora do território do EI --todos estampados com a bandeira preta e logo do EI, "Califado no caminho do Profeta".

O quadro que pintam sugere que o território do Estado Islâmico, agora uma área com aproximadamente o tamanho da Suíça, evoluiu para um pseudo-Estado entrincheirado, baseado na burocracia do terror.

A tomada

Em janeiro de 2014, quando o Estado Islâmico tomou a cidade síria de Raqqa, Adnan fugiu, por temer que seu trabalho como ativista político o transformaria em um alvo. Mas após alguns meses de saudade de sua família, ele voltou para descobrir se suportaria a vida sob os extremistas.

Adnan encontrou Raqqa transformada de uma cidade cosmopolita, antes colorida, na capital de fato do Estado Islâmico. Mulheres cobertas da cabeça aos pés de preto percorriam apressadamente os mercados antes de voltarem correndo para casa, homens jovens evitando os cafés que antes frequentavam. Os combatentes do EI transformaram o estádio de futebol da cidade em uma prisão e centro de interrogatório, conhecido como "Ponto 11". Uma das praças centrais da cidade agora é chamada pelos moradores como Praça "Jaheem" --Praça do Inferno.

Ele logo descobriu o motivo. Certo dia ele ouviu disparos por celebração e viu os corpos de três homens pendurados em postes na Praça do Inferno. Os cadáveres foram deixados ali por três dias, ele contou à AP enquanto fumava sem parar em um café em Gaziantep, uma cidade na fronteira turca repleta de sírios vivendo no exílio.

O reinado do terror do qual tinha fugido apenas piorou, ele disse.

Toda vez que o Estado Islâmico toma uma comunidade, o padrão é mais ou menos semelhante, descobriu a AP, tão metódico quanto sangrento.

Primeiro vem a onda inicial de mortes de policiais e soldados. Depois os combatentes buscam conquistar apoio, ao repararem rapidamente o fornecimento de água e eletricidade. Eles pedem aos funcionários públicos que voltem ao trabalho. Os funcionários e quaisquer ex-soldados ou policiais assinam seus documentos de "arrependimento", devem entregar suas armas ou pagar multas, às vezes no valor de vários milhares de dólares.

Em anúncios por alto-falantes, sermões em mesquitas e panfletos, novas regras são apresentadas: bebidas alcoólicas e fumo são proibidos, as mulheres não podem trabalhar, exceto como enfermeiras e em lojas de roupas femininas, onde até mesmo os manequins na vitrine são cobertos da cabeça aos pés. Os moradores são obrigados a levantar muros em torno de suas casas, para que as mulheres nunca sejam vistas.

Em cada distrito, um "emir" --com frequência um militante local-- é nomeado para governar. As escolas fecham, depois reabrem com um currículo elaborado pelo EI. Impostos são cobrados das empresas. As farmácias recebem cursos sobre a Shariah e são proibidas de vender contraceptivos. Na maioria dos locais, tribos e famílias declaram lealdade ao grupo e ganham posições, disseram vários entrevistados à AP.

Adnan permaneceu em Raqqa por quase um ano, assistindo os extremistas invadirem quase cada aspecto da vida. As autoridades do EI foram à loja de autopeças de sua família e exigiram impostos --o equivalente a US$ 5.000. O grupo está claramente cheio de dinheiro da taxação das empresas, confisco de terras daqueles que fugiram e das vendas de petróleo dos campos capturados mais ao leste na Síria, disse Adnan.

O grupo encoraja o comércio por todo o "califado", ele disse --por exemplo, os suprimentos de cimento e vegetais vindos da Turquia, passando por Raqqa até Mosul, a segunda maior cidade do Iraque.

Então o ativismo de Adnan em apoio aos rebeldes sírios foi descoberto. Em janeiro, uma patrulha realizou uma batida na casa da família dele, confiscou seu notebook e o prendeu por publicar artigos online que disseram encorajar o secularismo. "Que casa bonita", disse um membro da patrulha, antes de quebrar dois narguilés. "Isso polui o ambiente", ele disse a Adnan.

Por 55 dias, Adnan ficou detido no Ponto 11, o estádio de futebol.

Ele foi interrogado três vezes nos primeiros dias, espancado com um cano de plástico verde. Então foi tirado do isolamento e colocado em alas com outros presos.

Logo depois veio outro momento terrível. Um importante juiz do Estado Islâmico na área, um morador local conhecido pelo pseudônimo de Abu Ali al-Sharei, veio no início de fevereiro para dar outra aula de lei islâmica aos presos. Ele ficou de conversa fiada em uma sala cheia de homens. Então sorriu e disse: "Ouçam, eu ainda não lhes disse, mas hoje deixamos Al-Kaseasbeh crocante".

Ele retirou um pendrive de seu bolso, disse Adnan, e, para horror dos presos, exibiu um vídeo do piloto da Força Aérea Jordaniana capturado, Muath al-Kaseasbeh, sendo queimado vivo em uma jaula por seus captores do EI.

O relato de Adnan é apenas um exemplo de como o EI usa os vídeos de execução que exibe online para o mundo para intimidar as pessoas sob seu controle.

Na prisão em Raqqa, o trabalho de Adnan de distribuir comida para os outros presos lhe deu uma visão ampla das operações.

Ele viu dois presos curdos e ouviu guardas dizerem que a dupla provavelmente seria usada em vídeos de propaganda em língua curda antes de serem soltos. Adnan disse que também viu vários combatentes estrangeiros do Estado Islâmico detidos --três turcos, um uzbeque, um russo e um iemenita-- aparentemente por suspeita de espionagem. Dois outros combatentes do EI foram trazidos por roubarem o produto do saque na cidade curdo-síria de Kobani, em vez de o compartilharem com outros combatentes. Kobani foi cenário da maior derrota do EI na Síria, quando as forças curdas apoiadas pelos ataques aéreos americanos expulsaram os militantes, após meses de combates pesados.

"Nós cedemos 2.200 mártires em Kobani para vocês irem até e lá e roubar?", Adnan disse ter ouvido o interrogador gritar para os dois militantes detidos.

Adnan conheceu um preso palestino chamado Mohammed Musallam, que o EI acusou de ser espião para Israel. Musallam disse a Adnan que seus captores filmavam repetidamente o vídeo de sua execução. Toda vez, ele disse, ele gravavam uma criança atirando em sua cabeça --mas toda vez a arma estava vazia.

"Então, um dia, eles o executaram de verdade", disse Adnan.

Em  março, o Estado Islâmico divulgou um vídeo mostrando a morte de Musallam. De joelhos em um campo, ele foi baleado na cabeça por um menino vestindo camuflagem militar.

Adnan disse acreditar que esse é o motivo para muitas vítimas nos vídeos de execução parecerem tão calmas. "Eles repetem a coisa com elas umas 20 vezes. Então, quando ocorre a verdadeira, o preso pensa que é apenas outra execução de mentira", ele disse. 

Reportagem de Salama e Janssen, em Eski Mosul; Karam, em Gaziantep (Turquia); e Keath, no Cairo (Egito). Os Jornalistas da AP, Mohammed Rasool e Hussein Malla, em Beirute (Líbano), e Salar Salim, em Irbil (Iraque), contribuíram com reportagem adicional.

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