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Caso Marielle


Assalto a Lessa: as lacunas de uma possível tentativa de queima de arquivo

O policial militar reformado Ronnie Lessa, acusado de matar Marielle Franco - Marcelo Theobald/Agência O Globo
O policial militar reformado Ronnie Lessa, acusado de matar Marielle Franco
Imagem: Marcelo Theobald/Agência O Globo

Flávio Costa*

Do UOL, em São Paulo

11/12/2019 04h02

Resumo da notícia

  • Acusado de matar Marielle recebeu tiro durante suposto assalto em 2018
  • Crime ocorreu 45 dias após atentado contra a vereadora e seu motorista
  • Polícia Civil e MP-RJ concluíram que Lessa foi vítima de um latrocínio
  • Policiais ouvidos pelo UOL cogitam tentativa de "queima de arquivo"
  • Polícia Civil e MP-RJ não responderam perguntas enviadas pelo UOL

Pouco depois das 11h do dia 27 de abril de 2018, Ronnie Lessa estacionou o carro em frente ao restaurante Varandas, no Quebra-Mar da Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. Como fazia quase todas as sextas-feiras, o sargento reformado da Polícia Militar iria almoçar com amigos. Um mês e meio antes, a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes tinham sido assassinados a tiros. Lessa ainda não era investigado por participação no atentado.

O comerciante Álvaro de Oliveira já esperava o PM dentro do restaurante. Conforme contou à Polícia Civil, viu o amigo chegar e desembarcar do veículo.

Logo depois foi a vez do bombeiro Maxwell Correia, outro convidado do almoço, parar seu carro. Oliveira havia notado também a passagem pela avenida do Pepê, onde se localiza o restaurante, de uma moto pilotada por um homem branco que vestia uma camisa polo vinho.

Oliveira não sabia, mas o motociclista era o assaltante paulista Alessandro Carvalho Neves, 24. Ele estacionou a Honda Titan num quiosque próximo e se aproximou correndo de Ronnie Lessa. Sacou um revólver e anunciou o assalto.

"Perdeu, perdeu!", afirmou Alessandro, de acordo com testemunhas.

Ele tentou pegar o relógio do PM. Lessa se desequilibrou. Desde 2009, quando perdeu parte da perna esquerda em um atentado a bomba, ele usa uma prótese.

Maxwell, que vinha logo atrás, mandou o assaltante largar a arma e sacou a sua. Alessandro respondeu atirando. Acertou Lessa no pescoço e o bombeiro no braço. Maxwell revidou e acertou um tiro nas costas de Alessandro. Mesmo assim ele conseguiu pegar o relógio de Lessa, que havia caído no chão, correr até a moto e fugir.

Assaltante paulista sem crimes no Rio

As informações acima e as que seguem nesta reportagem constam nos autos da ação penal que condenou Alessandro Carvalho Neves a 13 anos e 4 meses de prisão por latrocínio (roubo seguido de morte).

Em sigilo, policiais do Rio afirmaram ao UOL que as circunstâncias do caso são suspeitas e que deveriam levar a uma investigação para averiguar se houve uma tentativa de "queima de arquivo". A documentação do processo mostra que essa possibilidade não foi levada em conta pela Polícia Civil e pelo MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro).

O assaltante paulista Alessandro Carvalho Neves - Reprodução
O assaltante paulista Alessandro Carvalho Neves
Imagem: Reprodução
"O duplo latrocínio em exame não ultrapassou a esfera da tentativa. Inegável que o réu efetuou o disparo de arma de fogo contra as vítimas Ronnie e Maxwell com a nítida intenção de matar, posto que as alvejou em área vital", afirmou na sentença o juiz Roberto Brandão, titular da 31ª Vara Criminal do Rio.

Até a data do assalto, não havia registros de que Alessandro havia cometido crimes no Rio de Janeiro. O endereço dele que consta no processo é de Taboão da Serra, na região metropolitana de São Paulo.

Sete meses antes, ele havia saído de um presídio no interior paulista após cumprir pena de um ano por roubo. O MP-SP (Ministério Público de São Paulo) já havia o denunciado também pelo crime de receptação e a Polícia Civil o investigou, anos antes, por associação criminosa.

Nada no processo explica o que Alessandro fazia no Rio de Janeiro em abril de 2018 e se foi realmente o acaso que o fez escolher como vítima um ex-oficial do Bope (Batalhão de Operações Especiais) e, posteriormente, acusado pelo MP-RJ como o assassino de Marielle e Anderson.

Único projétil da cena do crime sumiu

Após a fuga do assaltante, Ronnie Lessa e Maxwell Correia foram levados a hospitais diferentes.

A bala atingiu Lessa na região cervical e não foi retirada. O PM afirmou à Justiça ter ficado 15 dias internado em um CTI (Centro de Tratamento Intensivo) e que sofre com sequelas do ferimento, como perda da potência da voz.

Ronnie Lessa está detido no presídio federal de Porto Velho - Reprodução
Ronnie Lessa está detido no presídio federal de Porto Velho
Imagem: Reprodução
Alessandro foi encontrado horas depois do assalto no Hospital Municipal Miguel Couto, localizado no Leblon, bairro nobre da zona sul do Rio. Dois amigos de Lessa, que testemunharam o ocorrido, foram levados ao local por agentes da 16ª DP (Barra da Tijuca) e o reconheceram.

A cena do crime não foi periciada. Não se sabe onde estão o revólver e a moto que Alessandro usou no assalto.

O MP-RJ e a defesa pediram perícia no único projétil encontrado no local, mas o material nunca chegou ao Instituto de Criminalística Carlos Éboli, como atestam emails enviados por peritos que constam no processo.

De acordo com a defesa do assaltante, não há como afirmar que a bala alojada no pescoço de Lessa foi disparada por Alessandro, já que não foi feita perícia e havia outra pessoa armada no local, Maxwell.

MP-RJ e Polícia Civil não respondem

Alessandro Carvalho Neves foi sentenciado em primeira instância no dia 26 de março de 2019. Duas semanas antes, Ronnie Lessa e seu amigo, o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, foram presos acusados das mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes.

Em um relatório de inteligência que embasou o pedido de prisão, o Gaeco (Grupo de Especial de Combate ao Crime Organizado) afirmou que Lessa é chefe de uma milícia na Gardênia Azul, zona oeste do Rio.

Maxwell, a outra vítima do assalto, é tido como sócio de Lessa em negócios ilegais e foi alvo de um mandado de busca e apreensão no âmbito das investigações do Caso Marielle.

Ronnie Lessa e seus familiares dizem a interlocutores que acreditam que ele foi vítima de um assalto e não de uma tentativa de assassinato.

O UOL questionou o MP-RJ se o Gaeco se interessou por investigar as circunstâncias do assalto que quase resultou na morte de Ronnie Lessa. Não obteve resposta.

Por sua vez, a Polícia Civil do Rio de Janeiro se limitou a informar o número da ação penal do assalto, o que já era de conhecimento da reportagem. Porém, não respondeu às seguintes perguntas:

  • Houve interesse da DH da Capital (Delegacia de Homicídios da Capital) em investigar o que fazia um criminoso paulista no Rio de Janeiro? Sabe-se o que ele fez dias antes do crime?
  • Qual foi a arma usada pelo assaltante? Como é possível dizer, com certeza, que foi ele que disparou e atingiu Ronnie Lessa? A 16ª DP sabe explicar onde está o projétil encontrado na cena do crime?
  • A DH da Capital se interessou, em algum momento, em interrogar Alessandro Carvalho Neves sobre o que aconteceu no dia 27 de abril de 2018?
  • As circunstâncias desse assalto foram investigadas pela DH?

O TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro) confirmou, no começo de novembro, a sentença de primeira instância. Alessandro Carvalho Neves cumpre pena um presídio da região metropolitana do Rio.

A Defensoria Pública informou "que assumiu a defesa do réu em grau de recurso à segunda instância e que não se manifestará a respeito."

Desde que foi preso, Alessandro Carvalho Neves se manteve em silêncio sobre o assalto a Ronnie Lessa.

* Colaboraram Luís Adorno, em São Paulo, e Vinícius Konchinski, em Curitiba.

Em depoimento à Justiça, Ronnie Lessa negou ter matado Marielle e Anderson

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