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Investigação sobre Marielle está longe de mandantes, dizem ligados ao caso

Mural no Rio homenageia Marielle Franco, vereadora assassinada em março de 2018 - CARL DE SOUZA/AFP
Mural no Rio homenageia Marielle Franco, vereadora assassinada em março de 2018 Imagem: CARL DE SOUZA/AFP

Flávio Costa e Vinicius Konchinski

Do UOL, em São Paulo, e colaboração para o UOL, em Curitiba

14/03/2020 04h01

Resumo da notícia

  • Assassinato de vereadora e seu motorista no Rio completa 2 anos sem solução
  • Pessoas ligadas ao caso afirmam que investigação está longe de mandantes
  • Defesas dos acusados de matar as vítimas afirmam que os clientes são inocentes
  • Caso vai a júri popular e passa por exame no STJ para definição sobre federalização

Pessoas próximas ao caso Marielle ouvidas por UOL afirmam que a investigação entrou em uma espécie de "beco sem saída" e nada indica que a Polícia Civil e o MP-RJ (Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro) serão capazes de apresentar os mandantes do atentado que resultou nas mortes da vereadora e de seu motorista, Anderson Gomes, no dia 14 de março de 2018.

O processo contra os acusados de serem os autores do atentado — o policial militar da reserva Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz — começou a entrar em sua etapa final. Nesta semana a Justiça do Rio decidiu que eles devem ir a júri popular.

"O juiz não seguraria essa bomba", afirmou um interlocutor próximo a Lessa, referindo-se ao fato de o magistrado não tomar a decisão sozinho, e sim com o auxílio de jurados.

Henrique Telles, que defende Queiroz, adiantou que vai recorrer da sentença de júri popular. "Não foi provado nada contra meu cliente", afirmou.

O advogado Fernando Santana, que representa Lessa, afirma que as provas apresentadas pelo MP-RJ não comprovam que seu cliente matou Marielle e Anderson. Segundo a defesa, o PM reformado estava no bairro da Barra da Tijuca no momento do crime, que foi cometido no Estácio, e cita testemunhas do fato.

Procurada para comentar as investigações, a polícia se limitou a dizer que o caso corre sob sigilo.

Marielle discursa na Câmara Municipal do Rio em 2018 - RENAN OLAZ/AFP
Marielle discursa na Câmara Municipal do Rio em 2018
Imagem: RENAN OLAZ/AFP

"A investigação se afasta a cada dia dos mandantes"

João Tancredo trabalha como assistente de acusação no processo movido pelo MP-RJ contra os acusados pelo assassinato de Marielle. O advogado representa Mônica Benício, viúva da então vereadora.

Ele avalia o saldo da investigação como positivo. "Esse não é um crime de simples elucidação. A polícia e o MP chegaram aos executores, e eles vão a júri popular. Não é pouco."

Tancredo afirma que a investigação da Polícia Civil que apontou Lessa e Queiroz como assassinos de Marielle é robusta.

Segundo ele, foram reunidos muitos depoimentos, provas e laudos que apontam que os dois estavam no veículo que interceptou o carro de Marielle. Haveria também provas suficientes para apontar que Lessa efetuou os disparos que mataram a vereadora.

O advogado afirmou que espera que ambos sejam julgados pelo crime em cerca de um ano.

Tancredo, contudo, afirma estar preocupado com o que é mais importante para solucionar o crime: identificar quem mandou matar Marielle. "A investigação se afasta a cada dia dos mandantes", afirmou.

Caso Marielle: Acusados de assassinato vão a júri popular

Band Notí­cias

Apuração do caso segue sendo questionada após 2 anos

Outra fonte próxima ao caso consultada pela reportagem opina que "as promotoras [do MP-RJ] sabem que não foram eles [Lessa e Queiroz], mas no atual momento do processo ficaria muito feio voltar atrás".

Ainda segundo essa pessoa, a condenação de Lessa estaria levando em conta outros possíveis crimes praticados pelo PM da reserva, sendo assim, uma possível condenação seria uma espécie de "compensação".

O MP-RJ sustenta a investigação e declarou ao UOL que "estão em andamento diversos atos investigatórios com acompanhamento rigoroso do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado)".

Dentre esses atos, estão sendo ouvidas duas centenas de testemunhas, realizadas acareações, buscas, apreensões e perícias.

O Gaeco informou ainda que investiga ou acompanha a investigação de outros sete casos que "tangenciam" o caso Marielle.

Entre eles, está a operação Intocáveis, deflagrada em janeiro do ano passado, e na qual o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega era investigado por ligações com a milícia no Rio.

A corte especial do STJ (Superior Tribunal de Justiça) deve decidir em breve sobre a federalização do caso. Nos bastidores, afirma-se que é mais provável que a investigação seja mantida na esfera estadual, contrariando o pedido da ex-procuradora-geral da República, Raquel Dodge.

A família de Marielle se posicionou contra entregar o caso à Polícia Federal.

Faixa estendida na escadaria da Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) em homenagem a Marielle - FÁBIO MOTTA/ESTADÃO CONTEÚDO
Faixa estendida na escadaria da Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) em homenagem a Marielle
Imagem: FÁBIO MOTTA/ESTADÃO CONTEÚDO

Capitão Adriano

Ao falar da busca de provas, Tancredo, advogado da viúva de Marielle, lembra de Adriano da Nóbrega, morto em operação policial na Bahia.

Para o advogado, o suspeito de integrar a milícia carioca era testemunha-chave do caso.

"Essa vida deveria ter sido poupada a qualquer custo", reclamou Tancredo. "Um depoimento de Adriano poderia elevar a investigação a outro nível."

Caso Marielle