PUBLICIDADE
Topo

Banco do Brasil foi garçom de dinheiro para doleiros, aponta Lava Jato

Vinicius Konchinski

Colaboração para o UOL, em Curitiba

27/09/2019 14h12

Agências do Banco do Brasil serviram como ponto de entrega de dinheiro em espécie para doleiros investigados na Lava Jato. A constatação foi feita por um funcionário do banco ouvido por investigadores da operação, que chegou hoje à sua 66ª fase.

Essa fase apura o envolvimento de um ex-gerente do Banco do Brasil e outros três funcionários da instituição financeira num esquema de lavagem de dinheiro. Ela foi batizada de Alerta Mínimo justamente porque, segundo a Lava Jato, os bancários investigados burlaram o sistema de segurança contra transações suspeitas do banco para favorecer criminosos que atuavam em esquemas de pagamento de propinas.

"Foi detectada a participação de funcionários de instituições financeiras na geração de dinheiro em espécie usado para o pagamento de propina", explicou o delegado da PF (Polícia Federal), Dante Lemos, em entrevista coletiva.

O Banco do Brasil, nas palavras de um dos gerentes ouvidos, serviu como uma espécie de garçom de dinheiro em espécie para doleiros
Roberson Pozzobon, procurador da República

Para tentar comprovar essa atuação ilegal dos funcionários do Banco do Brasil e avançar nas investigações, foram cumpridos nesta manhã oito mandados de busca e apreensão de documentos e provas. Sete buscas ocorreram em São Paulo e uma em Natal. Os nomes dos alvos não foram divulgados.

Ninguém foi preso nesta fase da Lava Jato, a qual representa mais um esforço da operação responsabilizar instituições financeiras por uma suposta conivência com crimes de lavagem de dinheiro.

Em maio, o Banco Paulista já havia sido alvo de 61ª da Lava Jato. Funcionários da instituição são suspeitos de lavar dinheiro relacionado ao esquema de pagamento de propinas mantido pela Odebrecht. O Banco Paulista nega irregularidades.

Em nota, o Banco do Brasil informou que vem colaborando com as autoridades na operação de hoje, "já tendo iniciado processos administrativos que podem resultar na demissão dos funcionários envolvidos".

Abertura de conta e movimentação suspeitas

De acordo com o procurador da República Roberson Pozzobon, integrante da força-tarefa da Lava Jato montada pelo MPF-PR (Ministério Público Federal do Paraná), funcionários do Banco do Brasil colaboravam com a lavagem de dinheiro, basicamente, de duas formas.

Primeiro, facilitavam a abertura de contas no banco em nome de empresas ligadas a doleiros. Eles, por exemplo, permitiam que contas fossem abertas mesmo quando a documentação exigida para isso não era fornecida.

As contas no banco eram usadas por doleiros para receber depósitos de empresas interessadas em pagar propinas. Depois que os depósitos eram feitos, os doleiros sacavam os valores em espécie e realizavam os pagamentos sem deixar registros.

Com a conta ativa, bancários também colaboravam com os doleiros de uma segunda forma: facilitando a operação deles por meio do banco.

De acordo com as investigações, os bancários ignoravam procedimentos de segurança do Banco do Brasil, minimizavam avisos operações suspeitas e até atuavam em transações para agilizar a lavagem de dinheiro.

Pozzobon disse que um gerente do Banco do Brasil investigado chegou a ter um talão de cheques de uma conta usada para lavagem de dinheiro com folhas assinadas, mas não preenchidas.

Quando o doleiro precisava de dinheiro em espécie, o próprio gerente preenchia o cheque e liberava a quantia desejada.

As investigações apontam que, em troca desses serviços ilegais, os funcionários do Banco do Brasil recebiam até 10% do total ganho dos doleiros com a lavagem de dinheiro.

Conseguiam ainda que os doleiros contratassem seguros, consórcios e outros títulos de capitalização, colaborando assim para que eles batessem metas estabelecidas pelo banco e fossem remunerados por isso.

"É assustador que isso aconteça", disse Pozzobon. "Chegou a ser firmado um termo de compromisso entre empresas de fachada e um gerente-geral representando o Banco do Brasil. No termo, as empresas se comprometiam a fazer depósitos em dinheiro vivo no banco e contratar R$ 100 mil por mês em títulos de capitalização."

De acordo com a Lava Jato, passaram pelas contas das empresas de fachada movimentadas com a colaboração de funcionários do Banco do Brasil pelo menos R$ 200 milhões.

O valor das transações suspeitas, contudo, pode ser ainda maior. Isso porque, segundo Pozzobon, há indícios de que foram realizadas em agência do BB operações que sequer foram registradas no sistema do banco.

"Pacotes de dinheiro vivo que chegavam a uma agência sequer eram conferidos. Por ordem do gerente, eram entregues diretamente a destinatários", exemplificou ele.

Falhas no controle

A procuradora da República Laura Tessler, outra integrante da Lava Jato, disse que esta fase da Lava Jato evidenciou falhas no sistema de compliance —conformidade, em inglês— dos bancos.

Isso ficou claro porque gerentes que haviam sido cooptados pelos doleiros eram os responsáveis emitir os alertas necessários para que as operações suspeitas fossem investigadas.

Segundo ela, é óbvio que esse sistema de controle dos bancos precisa ser aprimorado. A Lava Jato apura, agora, qual é a responsabilidade das instituições bancárias nas falhas verificadas na investigação.

Operação Lava Jato