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Serra escalou ex-diretor da Dersa para 'negociar' propinas, diz Procuradoria

Rayssa Motta, Pepita Ortega e Fausto Macedo

São Paulo

03/07/2020 16h12

O engenheiro Paulo Vieira de Souza, ex-diretor da Dersa (Desenvolvimento Rodoviários S/A) em governos tucanos apontado como 'operador do partido', voltou hoje ao centro da Lava Jato como um dos personagens que contribuiu para a denúncia contra ex-governador de São Paulo e atual senador José Serra (PSDB) e sua filha, Verônica Allende Serra, por lavagem de dinheiro transnacional.

Nomeado na gestão anterior de Geraldo Alckmin (2001-2006), Souza se manteve no mesmo cargo durante o governo de Serra (2007-2010). Foi o encarregado da construção de obras viárias bilionárias dos governos tucanos: o Rodoanel, que circunda a região metropolitana paulistana, a ampliação da avenida Jacu Pêssego e a duplicação das marginais Pinheiros e Tietê.

Segundo a Lava Jato, Souza era responsável pela articulação e interlocução direta com outras empreiteiras, como Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, CR Almeida, Galvão Engenharia, Mendes Junior, OAS, Queiroz Galvão e Serveng Civilsan, que teriam formado um cartel para fraudar licitações, dividir lotes de obras e maximizar lucros com anuência do poder público. Em troca, as empresas pagavam propinas a membros do governo.

O engenheiro, que já foi condenado na Lava Jato, pode arrastar Serra para o mesmo caminho. Isso porque, na denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra o senador, tornada pública hoje, Souza foi citado 21 vezes pelos procuradores.

Antes disso, já havia dado sinais da relação com o tucano. Em debate durante o segundo turno da campanha de 2014, foi citado por Dilma para atacar Serra por suposto esquema de 'caixa 2'. O adversário da petista não comentou a observação. Procurado pela imprensa no dia seguinte, o então candidato negou conhecer o engenheiro. Foi quando Souza disse à jornalista Andréa Michel: "Não se larga um líder ferido na estrada a troco de nada. Não cometam esse erro".

Embora o ex-governador tenha tentado se desvencilhar de Souza, os investigadores afirmam que o engenheiro teria sido interlocutor do governo na negociação com as empreiteiras em troca de propina. De acordo com a procuradoria, Serra tinha conhecimento do interesse de empreiteiras nas contratações e 'depositava em agentes públicos, como Paulo Vieira de Souza, a missão de negociar como se daria e qual a contrapartida aos pagamentos ilícitos seria fornecida'.

Os investigadores apontam que o próprio ex-diretor da Dersa se apresentava como 'interlocutor do governo'. "Além da propina arrecadada para si, Paulo Vieira era, também, um emissário de agentes políticos no Estado de São Paulo, chegando a ter dado evidências de que agia em nome de José Serra e subordinados seus, como Aloysio Nunes Ferreira", diz o MPF.

Ex-executivo da OAS, Carlos Henrique Barbosa Lemos disse que, quando questionada a real interlocução de Vieira com o alto escalão do governo, o engenheiro agendou uma reunião das empreiteiras no Palácio dos Bandeirantes com participação do então secretário da Casa Civil, Aloysio Nunes. Na sequência, Nunes teria seguido exatamente a ordem de assuntos que Paulo Vieira antecipara às empreiteiras, 'com o que todos se convenceram de que ele, de fato, era um emissário, e assim passaram a realizar os pagamentos por ele solicitados'. O então diretor da Dersa teria dito que os valores seriam 'contribuições para campanhas eleitorais' do PSDB.

Condenado a 145 anos de prisão imposta pela Lava Jato, Souza teve sentença anulada, a partir das alegações finais apresentadas pela defesa, pelo ministro do Superior Tribunal de Justiça Reynaldo Soares da Fonseca. Após entendimento do Supremo Tribunal Federal determinar que os réus delatores devem apresentar suas alegações finais antes dos réus delatados, o ministro decidiu que o processo voltaria para a fase final antes do julgamento em primeira instância. Desta vez, a defesa apresenta sua versão dos fatos após as manifestações dos delatores.

Com a palavra, a defesa

"Causa estranheza e indignação a ação deflagrada pela Força Tarefa da Lava Jato de São Paulo na manhã desta sexta-feira (3) em endereços ligados ao senador José Serra. Em meio à pandemia da covid-19, em uma ação completamente desarrazoada, a operação realizou busca e apreensão com base em fatos antigos e prescritos e após denúncia já feita, o que comprova falta de urgência e de lastro probatório da Acusação."

"É lamentável que medidas invasivas e agressivas como a de hoje sejam feitas sem o respeito à Lei e à decisão já tomada no caso pela Suprema Corte, em movimento ilegal que busca constranger e expor um senador da República."

"O Senador José Serra reforça a licitude dos seus atos e a integridade que sempre permeou sua vida pública. Ele mantém sua confiança na Justiça brasileira, esperando que os fatos sejam esclarecidos e as arbitrariedades cometidas devidamente apuradas."

Com a palavra, o PSDB

Em sua conta no Twitter, o partido afirmou: "O PSDB acredita no sistema judicial do País e defende as apurações na utilização de recursos públicos, ao mesmo tempo em que confia na história do Senador José Serra e nos devidos esclarecimentos dos fatos".

Operação Lava Jato