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Operação Lava Jato

Marcelo Odebrecht diz que vive 'inferno': 'Preferiria ter ficado preso'

5.dez.2019 - O empresário Marcelo Odebrecht, 51, em seu escritório na sua residência - Eduardo Knapp - 5.dez.2019/Folhapress
5.dez.2019 - O empresário Marcelo Odebrecht, 51, em seu escritório na sua residência Imagem: Eduardo Knapp - 5.dez.2019/Folhapress

Do UOL, em São Paulo

07/08/2020 09h43Atualizada em 07/08/2020 12h26

O empreiteiro Marcelo Odebrecht afirmou que está "vivendo um inferno", para definir seu presente momento, dois anos depois de deixar a cadeia. Bilionário à época, ele foi demitido, teve bens congelados, pagamentos suspensos e sofre uma enxurrada de ações na Justiça, de acordo com declarações à revista Veja.

Marcelo foi um dos delatores na Operação Lava Jato e hoje vive recluso, em sua mansão em um bairro da zona sul de São Paulo. Ele cumpre regime semiaberto, podendo sair para trabalhar de dia e voltar para casa à noite. A delação assinada com a Justiça o permite ainda ter uma fortuna estimada em mais de R$ 140 milhões - mais sua participação acionária na Odebrecht.

Segundo a Veja, ele relatou a um amigo que, aos 51 anos, atravessa o pior momento de sua vida. Antes de ser solto, Marcelo passou dois anos e meio em cárcere.

"Preferiria ter ficado preso em Curitiba mais dois anos a passar o que estou passando nos últimos seis meses", afirmou ele, citando dificuldades financeiras devido aos problemas judiciais. "Estou vivendo o inferno".

Disputa com o pai

Marcelo trava uma disputa com o pai, Emílio Odebrecht. Eles dois comandaram a companhia durante oito anos, de 2008 a 2015, mas a Lava Jato causou um racha e eles não se falam, também de acordo com a revista, há mais de dois anos. Marcelo considera que foi usado de bode expiatório e que pagou sozinho pelos crimes da empresa, enquanto Emílio permaneceu em liberdade e tocando os negócios.

Após sair da prisão, Marcelo lançou acusações contra Emílio. A empresa passou a investir contra ele na Justiça, alegando que Marcelo tirou proveito financeiro da delação. A empreiteira pediu bloqueio de bens de Marcelo, congelamento de aplicações bancárias e ressarcimento de pagamentos que a Odebrecht fez após o acordo de delação. E exige devolução de quase R$ 200 milhões, recebidos como indenização e bônus.

Segundo a Veja, Marcelo se colocou em regime de reclusão, passando os dias estudando ações judiciais, traçando estratégias e buscando novas provas para rebater as acusações do pai. A publicação cita que Marcelo, em conversa recente com um amigo, chamou Emílio de "psicopata".

"A briga com meu pai envolve me calar. Espero que a Justiça veja isso. Estou lutando. Mas vai chegar a um ponto que não sei o que vou fazer. Não aguento mais", teria dito Marcelo. "Meu pai quer me asfixiar moral e financeiramente para que eu chegue ao ponto de mentir", concluiu.

Caso Lula e Moro

Para Marcelo, a empresa quer que ele se cale, o que pode impedir novas revelações envolvendo Emílio e poderia afetar casos como o do sítio em Atibaia (SP), que rende uma condenação ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a 17 anos de reclusão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Na delação, Marcelo afirmou que a Odebrecht foi uma das patrocinadoras da reforma - em depoimento, porém, ele negou que as obras tivessem alguma relação com possíveis benefícios à empreiteira nos contratos com a Petrobras. Agora, ele acha que a sentença pode ser anulada nas instâncias superiores da Justiça, já que a única pessoa que poderia confirmar se houve ou não contrapartida em troca da reforma é o pai. A defesa de Lula tenta demonstrar, com a briga judicial entre Marcelo e Emílio, que o ex-presidente foi vítima de uma armação.

A Veja ainda cita que, apesar da delação, Marcelo tem críticas à Lava Jato, tendo afirmado em várias ocasiões que a força-tarefa do Ministério Público Federal e o ex-juiz Sergio Moro agiram como "arbitrariedade monumental". No processo de delação, teria sido encorajado a confirmar teses "absurdas".

"Para o empreiteiro, Sergio Moro tem traços de ditador e a Lava Jato acabou favorecendo a eleição de Jair Bolsonaro (sem partido), assim como a Operação Mãos Limpas na Itália facilitou a ascensão do ex—premiê Silvio Berlusconi", diz a reportagem.

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