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Caso Marielle


Marielle: delegado diz não ter detectado ligação entre atirador e Bolsonaro

Nathan Lopes, Luis Kawaguti e Marcela Lemos

Do UOL, em São Paulo e no Rio, e colaboração para o UOL, no Rio

2019-03-12T13:01:48

2019-03-12T19:33:00

12/03/2019 13h01Atualizada em 12/03/2019 19h33

O delegado Giniton Lages, da Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro, afastou, neste momento, ligação entre o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e o policial militar reformado Ronnie Lessa, preso hoje suspeito de ser o autor dos disparos que mataram a vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) e o motorista Anderson Gomes. Lessa mora no mesmo condomínio onde Bolsonaro tem casa no Rio de Janeiro.

"O fato de ele [Lessa] morar no condomínio do Bolsonaro não diz muita coisa, não, para a investigação da Marielle", disse Lages. "Nós imaginávamos que esse link fosse feito, mas ele não tem uma relação direta com a família Bolsonaro." O delegado indicou que o tema deverá ser "enfrentado no momento oportuno".

Lages foi questionado se tem conhecimento de que o filho mais novo do presidente namora ou já teria namorado uma filha de Lessa - pois as duas famílias moram no mesmo condomínio. "Isso tem, mas isso para nós hoje não importou na motivação delitiva", disse o delegado.

O Ministério Público, por sua vez, disse que a instituição não tem conhecimento de um relacionamento da filha de Lessa com um filho de Bolsonaro.

Em Brasília, Bolsonaro disse que espera "que realmente a apuração tenha chegado de fato a quem foram os executores, se é que foram eles, e a quem mandou matar". "É possível que tenha um mandante [do assassinato da vereadora]", declarou.

Questionado sobre se sentiu-se surpreso com envolvimento de ex-policiais, Bolsonaro não respondeu, mas disse que não acredita que existam crimes impossíveis de serem solucionados, "coisa rara".

Além de Lessa, foi preso também o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, 46, suspeito de ser o motorista do carro utilizado para cometer o crime, que completa um ano nesta quinta-feira (14). Os advogados dos dois presos negaram que ambos tiveram participação no crime (veja abaixo).

Sergio Moraes/Reuters
Polícia esteve no condomínio onde vive Ronnie Lessa, suspeito de assassinar a vereadora carioca Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes. O condomínio é o mesmo onde o presidente Jair Bolsonaro (PSL) tem casa no Rio de Janeiro Imagem: Sergio Moraes/Reuters

O policial reformado foi preso em sua casa, no condomínio Vivendas Barras, que tem pelo menos 50 casas e fica localizado em uma avenida na orla da Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio. Os imóveis à venda no local variam de R$ 1,5 milhão a R$ 4,5 milhões, e têm entre três a cinco quartos. O aluguel no local costuma variar entre R$ 5.000 a R$ 10 mil.

Lessa foi homenageado na Alerj em 1998, quando recebeu moção de congratulações e de louvor a pedido do deputado estadual Pedro Fernandes Filho (então no PFL, atual DEM). O policial reformado era, na época, lotado no 9º BPM, em Rocha Miranda, na zona norte do Rio. O parlamentar justificou a homenagem pela forma como o militar "vem pautando sua vida profissional".

"Sem nenhum constrangimento posso afirmar que o referido militar é digno desta homenagem por honrar, permanentemente, com suas posturas, atitudes e desempenho profissional, a sua condição humana e de militar discreto mas eficaz. Constituindo-se, deste modo, em brilhante exemplo àqueles com quem convive e com àqueles que passam a conhecê-lo", o então deputado na época.

Pedro Fernandes Filho foi eleito deputado estadual pela primeira vez em 1962, conseguiu a reeleição outras nove vezes e morreu em 2005. Ele é pai de Rosa Fernandes (MDB-RJ), vereadora do Rio que está no sétimo mandato consecutivo.

Rosa Fernandes foi a quarta vereadora mais votada em 2016, com 57.868 votos, ficando logo à frente de Marielle Franco, que recebeu 46.502 votos. Ela é mãe de Pedro Fernandes Neto, que atualmente é secretário estadual de Educação do governo de Wilson Witzel e foi candidato ao governo do Rio em 2018 pelo PDT.

Quem é Ronnie Lessa?

Ronnie Lessa chegou na Polícia Militar do Rio em 1992 onde passou a maior parte do tempo lotado no 9º BPM (Rocha Miranda). Posteriormente o policial reformado foi cedido para o quadro da Polícia Civil, no qual se consolidou como um elogiado atirador e passou a ser homem de confiança do contraventor Rogério Andrade.

Em 2010, uma bomba no carro de Andrade vitimou o filho dele, Diogo Andrade, na época com 17 anos. Lessa já havia perdido uma das pernas em um atentado semelhante na zona norte do Rio. O agente teria tentado deixar o veículo, mas ficou preso no cinto de segurança.

O que dizem os advogados dos suspeitos

A defesa de Queiroz explicou que o ex-PM sequer estava no local do crime no dia. "Tenho certeza que não há foto dele no carro, nem muito menos gravação dele neste dia. Tenho certeza que a vítima que sobreviveu não vai reconhecer o meu cliente", explicou o advogado Luiz Carlos Azenha.

Ele classificou de "trapalhada" a medida do MP e da Polícia Civil. "Trata-se mais uma vez de outra trapalhada da Polícia Judiciária com todo respeito à gloriosa Polícia Civil, mas nós já vimos que esse procedimento criminal, persecução penal, vem de outras trapalhadas", disse.

O advogado Fernando Santana, responsável pela defesa de Lessa, também destacou a inocência do seu cliente. "Tive contato com ele muito rápido, mas ele nega que tenha cometido qualquer tipo de assassinato. Vou ter acesso ao inquérito, pois até agora não tive - primeiro está em segredo de Justiça, mas agora já peticionamos para poder termos ideia de como chegaram na prisão do Ronnie Lessa", afirmou.

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