Topo

PCC


Ação da PF mostra que presídio do PR virou um centro administrativo do PCC

06.ago.2019: Penitenciaria Estadual de Piraquara - Reprodução
06.ago.2019: Penitenciaria Estadual de Piraquara
Imagem: Reprodução

Vinicius Konchisnki e Flávio Costa

Colaboração para o UOL, em Curitiba, e do UOL, em São Paulo

08/08/2019 04h01Atualizada em 09/08/2019 12h45

A Penitenciária Estadual de Piraquara, na região metropolitana de Curitiba, foi convertida por lideranças do PCC (Primeiro Comando da Capital) no centro contábil da facção. É do presídio que ao menos dois chefes do PCC elaboram planilhas e verificam a arrecadação da quadrilha, que surgiu em São Paulo na década de 1990 e hoje tem membros espalhados por todo o país.

Esse novo dado descoberto pela Operação Cravada, realizada anteontem pela PF (Polícia Federal) em 23 cidades de sete estados, reforça a impressão de que o presídio de Piraquara virou uma espécie de "quartel-general" fora dos domínios paulistas.

"Foi constatada a existência de um núcleo dessa facção criminosa estabelecido dentro de Piraquara. Todos os integrantes comandavam dali as ações criminosas realizadas em praticamente todos os estados do Brasil", afirmou o delegado da PF Martin Bottaro Purper.

Relatório da PF obtido pelo UOL afirma que, apesar de movimentações registradas em outros locais, devido à abrangência da facção, Piraquara se configura como um grande centro de controle.

A polícia monitora a atividade administrativa do PCC dentro do presídio de Piraquara desde fevereiro. De lá para cá, presos responsáveis pela contabilidade da facção chegaram a ser isolados pelo Depen-PR (Departamento Penitenciário do Paraná), o que vem incomodando o PCC, de acordo com Purper.

Apesar do aperto na fiscalização, a PF admite que presos de Piraquara conseguiam administrar a arrecadação e os repasses de até R$ 1 milhão por mês. O dinheiro vinha de mensalidades de cerca de R$ 250 pagas por membros da facção e era empregado em benefício dos líderes da quadrilha e também no financiamento de outros crimes.

A quantia é vista pela investigação como "fluxo de caixa", e considera apenas a verba das mensalidades.

Segundo relatório da PF, a facção arrecada dinheiro ainda com o tráfico de drogas, assaltos a instituições financeiras e jogo do bicho.

O Depen-PR contesta o status de "quartel-general" do crime a Piraquara, e ressalta que apreendeu celulares e facas artesanais na penitenciária, além de bilhetes que colaboraram com as investigações.

Centro administrativo

Investigações anteriores mostraram que chefes do PCC detidos na unidade prisional paranaense elaboraram um "censo penitenciário" para avaliar as prisões brasileiras.

A facção criminosa criou um questionário com 42 perguntas com o objetivo de mapear e obter informações sobre a rotina e a segurança do sistema penitenciário brasileiro.

De lá também partiram ordem para assassinatos de agentes públicos e de membros de facções inimigas em outros estados. As decisões eram comunicadas por meio de telefones celulares e aplicativos de comunicação. Os integrantes do grupo tinham acesso à internet na prisão.

Controle financeiro nacional

A operação Cravada, em si, foi autorizada pela Vara Criminal de Piraquara justamente porque começou ali a apuração a respeito da contabilidade do PCC.

"De lá [a Penitenciária Estadual de Piraquara], dois ou três líderes exerciam a função de controlar o dinheiro a nível nacional", afirmou Purper, coordenador da Operação Cravada.

A penitenciária, também conhecida como PEP 1, tem capacidade para abrigar 743 detentos. Uma parte desses presos exerce um cargo de liderança dentro do PCC, de acordo com o Conselho da Comunidade de Curitiba, órgão responsável pela fiscalização dos presídios da comarca da capital paranaense.

O delegado Purper afirmou na terça-feira que essas lideranças, de uma forma ou de outra, acabam tendo acesso a telefones celulares mesmo dentro da cadeia. Com eles, mantêm o contato com outros membros da facção e controlam suas finanças.

Polícia desarticula núcleo financeiro do PCC

Band Notí­cias

"Há várias planilhas. [Valores] são contabilizados como numa empresa de contabilidade", explicou. "A contabilidade é feita pelos próprios presos, que têm uma boa capacidade matemática e conhecimentos contábeis."

"Eles arrecadam valores em rifas ou mensalidades. Esse valor sai da base e chega para os líderes, que administram o dinheiro", disse Purper. "Tudo é feito para que os líderes tenham bastante dinheiro, a base sustente e vários crimes sejam cometidos com ajuda do financiamento."

PCC faz monitoramento carcerário

Em reportagem publicada no último dia 10 de junho, o UOL revelou que em Piraquara, a superlotação carcerária é bem inferior à média de outras prisões paranaenses.

Isabel Kruger Mendes, presidente do Conselho da Comunidade de Curitiba, afirmou que a superlotação na PEP 1 só não atinge nível semelhante ao de outras penitenciárias do Paraná devido ao poder que o PCC (Primeiro Comando da Capital) tem no estado.

"A PEP 1 é uma exceção porque líderes do PCC estão presos lá", disse ela. "Eles já avisaram que se colocarem mais presos, eles morrem."

Em nota, o Depen-PR afirma que "realiza constantemente operações de busca de materiais não permitidos" no presídio de Piraquara.

    Mais PCC