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Operação Lava Jato


Messer teve cidadania paraguaia e almejou Vice-Presidência do país vizinho

Dario Messer foi considerado o maior doleiro em atividade no Brasil  - Reprodução/Facebook
Dario Messer foi considerado o maior doleiro em atividade no Brasil Imagem: Reprodução/Facebook

Constança Rezende e Vinicius Konchinski

Colaboração para o UOL, de Brasília e Curitiba

29/08/2019 04h01

Preso e acusado de liderar um esquema de lavagem de cerca de R$ 6 bilhões, Dario Messer, o "doleiro dos doleiros", assim chamado devido à sua atuação como banqueiro ilegal no Brasil, chegou a ser cidadão do Paraguai.

A naturalização foi arranjada justamente para que a abertura de empresas e contas bancárias para suas operações ficasse mais fácil. Esse processo, entretanto, é hoje alvo de investigações do Ministério Público paraguaio.

Documentos obtidos no Brasil por investigadores da operação Lava Jato apontam que políticos paraguaios ajudaram Messer a se tornar cidadão do país.

Cópias de emails já disponibilizados a autoridades paraguaias mostram o senador Sergio Godoy, advogado e ex-assessor jurídico do ex-presidente Horacio Cartes, instruindo Messer no seu processo de naturalização.

"Aí vai Dario. O que tem que conseguir e trazer é: passaporte original com tradução para o espanhol, certificado de boa conduta e certidão de nascimento", diz um das mensagens enviadas por Godoy a Messer ainda no ano de 2013.

Procurado pelo UOL, Godoy confirmou que Messer o procurou para que ele trabalhasse no processo judicial que culminou em sua naturalização. O senador disse que não atuou no caso pois, na época, era funcionário público. Afirmou só ter enviado uma lista com sugestões de advogados que poderiam ajudá-lo.

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Parlamentares paraguaios mandaram investigar doleiro

Por conta de sua relação com Messer, Godoy acabou investigado na CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) aberta sobre o doleiro no Paraguai. Senadores e deputados do país vizinho mapearam as atividades do brasileiro e concluíram que Godoy é um dos vínculos políticos que Messer mantém no Paraguai.

"Sérgio Godoy, ex-assessor de Cartes e atual senador, assessorou Messer para sua naturalização e investimentos", diz o relatório final da CPMI sobre Messer, divulgado em abril. "O mesmo Godoy admitiu ter guiado Messer em trâmites para sua naturalização e também para a compra de uma estância [ou fazenda]."

O telefone de Godoy consta da lista de contatos do telefone celular de Messer. A lista completa também foi obtida por investigadores brasileiros.

O MPF-RJ (Ministério Público Federal do Rio de Janeiro) não fala sobre as partes da investigação sobre Messer compartilhadas com o Paraguai. No Brasil, apurações a respeito dos negócios e das relações mantidas pelo doleiro seguem sob sigilo.

'Doleiro dos doleiros' foi preso pela PF no apartamento em que se escondia, em São Paulo.  - Reprodução
'Doleiro dos doleiros' foi preso pela PF no apartamento em que se escondia, em São Paulo.
Imagem: Reprodução
Naturalização e cassação

Messer se tornou cidadão paraguaio em abril de 2017. Na época, ele já respondia a pelo menos dois processos por evasão de divisas e lavagem de dinheiro no Brasil.

Em maio de 2018, Messer teve sua prisão decretada por conta de uma nova investigação sobre ele. Procuradores do Rio de Janeiro apontaram que o doleiro era o chefe de um esquema para lavagem de dinheiro investigado na operação Câmbio, Desligo, uma fase da Lava Jato.

Dias depois deflagração da operação, a Corte Suprema de Justiça do Paraguai cassou a cidadania paraguaia de Messer.

Na época, ele ainda estava foragido. A suspeita era de que estivesse escondido no Paraguai. A Justiça do país vizinho, entretanto, também havia decretado sua prisão. Por conta disso, o Ministério Público local pediu a anulação da cidadania concedida ao doleiro.

Após quase um ano desaparecido, Messer acabou preso em São Paulo no final de julho deste ano. Ele estava num apartamento no bairro nobre do Jardins, onde vivia sua namorada. Messer foi transferido para o Rio e aguarda seu julgamento detido.

Sua defesa alega que ele é inocente. Argumenta que ele já respondeu um processo por crimes semelhantes ao que é acusado hoje e foi absolvido.

Sonho político paraguaio

Quem trabalhou com Messer no Brasil diz que o doleiro mantinha contatos com inúmeros políticos no Paraguai além de Sergio Godoy.

O próprio ex-presidente paraguaio Horacio Cartes nunca escondeu sua amizade com Messer e chegou a declarar que o doleiro é "seu irmão de alma".

Na opinião de quem conviveu com Messer, seus contatos facilitaram sua naturalização no Paraguai. Chegaram até a fomentar no doleiro ambições políticas.

Fontes disseram que Messer sonhou em ser vice-presidente de Cartes. Ele achava que, no governo, Messer trabalharia para "transformar o Paraguai em um país com raízes judaicas".

Dario Messer vem de uma família judaica. Ele e Cartes já estiveram juntos em Israel.

Documentos obtidos no Brasil e disponibilizados a integrantes da CPMI sobre Messer no Paraguai apontam que doleiro viajou várias vezes ao Paraguai para ajudar Cartes em comícios durante a campanha presidencial de 2013.

Cartes foi convidado a prestar depoimento na CPMI sobre Messer, mas não compareceu. O UOL não conseguiu contato com o ex-presidente.

A defesa de Messer no Brasil informou que assuntos abordados na CPMI do Paraguai devem ser tratados com advogados de Messer no país vizinho. Os advogados paraguaios não responderam à reportagem.

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