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Operação Lava Jato


Messer driblou a Justiça com ajuda de suspeitos de tráfico ou contrabando

Messer na fazenda de Antonio Joaquim da Mota, fazendeiro e empresário na fronteira entre Brasil e Paraguai - Reprodução
Messer na fazenda de Antonio Joaquim da Mota, fazendeiro e empresário na fronteira entre Brasil e Paraguai Imagem: Reprodução

Vinicius Konchinski

Colaboração para o UOL, em Curitiba

04/12/2019 04h02

O relatório da PF (Polícia Federal) sobre o período em que Dario Messer esteve foragido da Justiça brasileira aponta que o doleiro se escondeu no Paraguai com a ajuda de suspeitos de tráfico de drogas e contrabando. Sete das 19 pessoas que supostamente auxiliaram Messer a manter-se foragido têm algum elo com o crime, de acordo com as investigações da PF (veja lista abaixo).

Todas foram alvo da operação Patrón, a última fase Lava Jato do Rio de Janeiro. Deflagrada na semana passada, a operação visou a desarticular a organização que teria dado suporte a Messer enquanto ele esteve foragido no Paraguai depois que sua prisão foi decretada pela Justiça Federal do Rio de Janeiro, em maio de 2018.

O doleiro só seria preso no final de julho deste ano, em São Paulo.

Por conta das relações entre os supostos colaboradores de Messer com o tráfico e o contrabando, a Lava Jato já afirmou que pretende apurar se o doleiro também tinha alguma participação em crimes desse tipo. A defesa de Messer nega veementemente que ele esteja envolvido com o tráfico ou contrabando.

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2019/11/19/lava-jato-investiga-ligacao-de-esquema-de-messer-com-trafico-drogas-e-armas.htm

Os amigos de Dario Messer

  • Horacio Cartes, senador e ex-presidente do Paraguai
  • Roque Fabiano Silveira, empresário que atua fronteira Brasil-Paraguai
  • Najun Azario Flato Turner, doleiro
  • Antonio Joaquim da Mota, o Tonho, empresário "brasiguaio"
  • Cecy Mendes Gonçalves da Mota, mulher de Tonho
  • Antonio Joaquim Mendes Gonçalves da Mota, empresário e filho de Tonho
  • Orlando Mendes Gonçalves Stedile, filho de Cecy

Hospedagem em família suspeita

Segundo a PF, Messer hospedou-se na casa da família Mota em Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia na fronteira com o Brasil, enquanto estava foragido.

De acordo com a polícia, "pesam graves suspeitas quanto a envolvimento dos integrantes da família com atos ilícitos, como o tráfico de drogas, contrabando de cigarros e a lavagem de dinheiro".

Antonio Mota, o Tonho, e sua esposa, Cecy da Mota, são sócios da empresa Agroganadeira Aquidaban, que fica no Paraguai. Lá, em 2017, foram apreendidas mais de 2 toneladas de maconha, além de armas e munições.

A Aquidaban também foi citada em mensagens obtidas pela PF no computador da mulher de Sergio de Arruda Quintiliano, o Minotauro, apontado como o chefe do PCC (Primeiro Comando da Capital) na fronteira Brasil-Paraguai. Minotauro foi preso em fevereiro.

Relatórios mais antigos da PF apontam ainda a relação de membros da família Mota com o traficante Jorge Rafaat, conhecido com o "rei da fronteira" e executado a tiros numa emboscada em 2016. Além disso, fazendas da família também serviriam de entreposto para o contrabando de cigarros.

Antônio Joaquim da Mota é proprietário da fazenda Urucum. Nesta propriedade são efetuados os carregamentos de caminhões e carretas de cigarros, que são introduzidos no território brasileiro.
Documento da PF sobre o crime na fronteira entre Brasil e Paraguai

O advogado Fabio Ricardo Mendes Figueiredo, que defende Tonho e Cecy, nega a relação deles com o tráfico ou contrabando. Segundo Figueiredo, todos os fatos citados pela PF estão sendo esclarecidos, comprovando a inocência de seus clientes.

Figueiredo disse que a área da Agroganadeira Aquibadan acabou sendo usada por traficantes para o cultivo de maconha sem autorização ou sequer ciência da família; a mulher de Minotauro já foi advogada dos Mota e, por isso, documentos da empresa familiar foram obtidos no computador dela; os Mota nunca se envolveram em negócios ilícitos de Rafaat, apesar de serem amigos; também nunca tiveram relação com o contrabando.

Ex-presidente do Paraguai é investigado na Lava Jato

Band News

Filhos da família Mota também são suspeitos

O filho de Tonho e Cecy, Antonio Joaquim Mendes Gonçalves da Mota, também é citado no relatório da PF. O monitoramento da UIF (Unidade de Inteligência Financeira, antigo Coaf) de transações financeiras feitas por ele apontam sua relação com empresas de um grupo investigado por atuar "de forma reiterada no tráfico internacional de drogas e posterior lavagem de capitais".

Antonio Joaquim, o filho, recebeu R$ 195 mil de uma empresa cuja conta também serviu para pagar uma companhia de um investigado por tráfico e organização criminosa.

'Doleiro dos doleiros' foi preso pela PF em apartamento nos Jardins, em São Paulo - Reprodução
'Doleiro dos doleiros' foi preso pela PF em apartamento nos Jardins, em São Paulo
Imagem: Reprodução
O advogado Figueiredo disse que o filho de Tonho é inocente e que os pagamentos recebidos por eles não têm relação com atividades ilegais.

Transações de Orlando Mendes Gonçalves Stedile, filho de Cecy e enteado de Tonho, também foram monitoradas. Stedile recebeu R$ 58 mil em 2016 de uma empresa já investigada por supostamente ter servido para lavagem de dinheiro do tráfico e outras movimentações suspeitas.

Material obtido pela PF também aponta que Stedile tem e encomendou armas mesmo não tendo autorização para possuí-las.

O UOL entrou em contato com a defesa de Stedile, porém os advogados não responderam aos questionamentos da reportagem.

Doleiros ligados a outros crimes

Outros dois supostos membros da quadrilha do "doleiro dos doleiros" são Najun Turner e Roque Silveira. Ambos são suspeitos de estarem ligados ao tráfico ou contrabando.

Silveira também teria hospedado Dario Messer em sua casa no Paraguai e ainda ajudado o doleiro a fazer contatos políticos no país.

Segundo a PF, Silveira está associado a dois homicídios no Brasil —de um empresário em 1996 e de um servidor da Receita Federal em 2006. Por conta dos crimes, mudou-se no Paraguai. Lá, de acordo com investigadores, ele fez fortuna com fabricação de cigarros que são contrabandeados para o Brasil, tornando-se um dos empresários mais poderosos do país.

Já Najun Turner, segundo a PF, ajudou Messer a manter-se financeiramente enquanto esteve foragido. Relatório de investigação aponta que Turner, que é uruguaio, é "reconhecido como um dos maiores contrabandistas de ouro".

O UOL fez contato com a defesa de Turner em duas ocasiões. Seus advogados não responderam aos questionamentos da reportagem. Já os advogados de Silveira não foram localizados.

O ex-presidente do Paraguai Horacio Cartes (à esq.) e o doleiro Dario Messer  - Reprodução
O ex-presidente do Paraguai Horacio Cartes (à esq.) e o doleiro Dario Messer
Imagem: Reprodução
Ex-presidente e 'irmão de alma'

A Lava Jato também enquadrou o senador e ex-presidente do Paraguai Horacio Cartes como um dos membros da organização de Messer. Os dois são amigos e sócios há anos. Cartes chegou a chamar Messer de "irmão de alma" num evento público.

Investigações apontam que Messer pediu US$ 500 mil dólares a Cartes enquanto esteve foragido para custear sua defesa. Os advogados de Cartes declararam à Justiça que essa ajuda, se tivesse acontecido, não teria nada de ilegal.

Fora desse caso, entretanto, possíveis ilícitos de Cartes são investigadas há anos. O relatório final da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Pirataria, realizada na Câmara dos Deputados em 2004, já apontava Cartes como sócio das principais fabricantes de cigarros que chegam ao Brasil por meio do contrabando.

Mensagens divulgadas pelo Wikileaks em 2010 apontam sua relação com a lavagem de dinheiro do tráfico de drogas.

Em 2000, um avião com cocaína e maconha chegou a ser apreendido numa fazenda da qual Cartes era sócio.

Procurada pelo UOL, a defesa de Cartes não quis se pronunciar.

Já Atila Machado, que defende o doleiro, refuta qualquer ligação de seu cliente com o tráfico de drogas ou contrabando. "Dario Messer não tem qualquer envolvimento nos crimes de tráfico de drogas e de contrabando que a Polícia Federal atribui a prática a outras pessoas investigadas na operação Patrón", declarou o advogado.

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