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Operação Lava Jato

Elogio de Dodge e 51: a reação da Lava Jato à operação contra Lula em sítio

Vista aérea de sítio em Atibaia (SP) atribuído ao ex-presidente Lula - 5.fev.2016 - Jorge Araujo/Folhapress
Vista aérea de sítio em Atibaia (SP) atribuído ao ex-presidente Lula Imagem: 5.fev.2016 - Jorge Araujo/Folhapress

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

03/02/2021 04h00

A Lava Jato deflagrou em 4 de março de 2016 ações autorizadas pelo ex-juiz federal Sergio Moro que tiveram como alvo o ex-presidente Lula —na ocasião, ele foi levado para depor coercitivamente à Polícia Federal no aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo, enquanto seu apartamento em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, e um sítio em Atibaia (SP) foram alvos de mandados de busca e apreensão.

Ao longo desse dia e no seguinte, procuradores da República integrantes da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba acompanhavam os desdobramentos da operação e trocavam impressões por meio de mensagens em um chat do aplicativo Telegram. O conteúdo dos diálogos versa de piadas que depreciam Lula até elogios da então procuradora-geral da República, Raquel Dodge.

As conversas constam em material apreendido pela PF na Operação Spoofing —que prendeu em 2019 suspeitos de invadir os celulares de Moro e de procuradores da Lava Jato. O sigilo de parte desse material foi levantado na última segunda-feira (1º) pelo ministro do STF Ricardo Lewandowiski —que já havia franqueado à defesa de Lula acesso ao material apreendido a pedido dos advogados.

O UOL procurou a assessoria de imprensa do MPF (Ministério Público Federal), que informou que os procuradores não se manifestarão. Na segunda-feira, Moro reiterou não reconhecer a autenticidade das mensagens.

Na noite de 4 de março de 2016, o procurador Januário Paludo compartilhou com os colegas da Lava Jato de Curitiba as impressões do que encontrou em Atibaia. "O que mais tinha no sítio era boné do MST... Eu pensei em botar um nos patinhos e sair pedalando...", escreveu, em tom de piada. A grafia das mensagens foi mantida tal como se encontra nos autos do STF.

"Passa um report", pediu Deltan Dallagnol, que então encabeçava a força-tarefa da Lava Jato.

Já a procuradora Jerusa Viecili reagiu a Paludo também imprimindo tom jocoso. "Kkkkkk Januario! Quero saber da adega!", escreveu.

Sem dúvida, o sítio é do Lula, porque a roupa de mulher era muito brega. Decoração horrorosa. Muitos tipos de aguardente. Vinhos de boa qualidade, mas mal conservados. Achei o sítio deprimente. Local para pouso de helicóptero confirmado à esquerda da entrada em campo de futebol, para helicóptero pequeno

Januário Paludo, procurador em chat da Lava Jato no Telegram

Adega encontrada em sítio atribuído ao ex-presidente Lula - Reprodução - Reprodução
Adega encontrada em sítio atribuído ao ex-presidente Lula
Imagem: Reprodução

Em seguida, Paludo comentou sobre a investigação.

"Não havia uma peça do [Fernando] Bittar [proprietário formal do sítio] ou [Jonas] Suassuna [um dos sócios do sítio à época]. Nada que indicasse a presença deles. A perícia constatou o uso de material do depósito dias. Fizeram um puta levantamento, inclusive planimétrico. Acho que pode ter coisa errada nas matrículas."

O procurador acrescentou que o caseiro do sítio Élcio Pereira Vieira, o Maradona, "mentiu o tempo todo. Não conhece ninguém e foi acompanhado de advogado do escritório do [advogado Alberto Zacharias] Toron [que defendia Fernando Bittar]".

Na sequência, o procurador Roberson Pozzobon elogia: "Excelentes informações, Januario!! Nada disso teria ocorrido sem a sua direção, perseverança e criatividade. Então, que tal aproveitarmos esse momento de ótimas notícias, para combinarmos a 'renovação do seu contrato na Lava Jato' por mais dois ou três anos?! Hein?! Hein?! Hein?!".

Outros procuradores deram risada e também elogiaram a operação.

Batizada de Alethéia (24ª fase da Lava Jato), a operação visava apurar se empreiteiras e o pecuarista José Carlos Bumlai favoreceram Lula e seus familiares por meio do sítio em Atibaia (com reformas e compra de equipamentos) e o tríplex no Guarujá (compra e reforma). O ex-presidente sempre negou as acusações.

Lula foi condenado a 17 anos de prisão pelo caso do sítio de Atibaia, sob acusação de corrupção e lavagem de dinheiro relativas a reformas no local. Ele sempre negou que o local fosse seu.

Na mesma noite, enquanto trocavam mensagens festejando a operação, Dallagnol revelou ter falado ao telefone com Raquel Dodge. "Liguei e falei com ela, dentro da política do grupo de estreitar relacionamento com lideranças internas", escreveu.

Para os demais procuradores, compartilhou o elogio à operação feito por Dodge.

"Mensagem da Raquel Dodge para todos: 'Liguei para cumprimentá-lo e a todos os excepcionais colegas desta equipe pelo primoroso trabalho. Vocês transformaram a justiça penal e a tornaram melhor. Estão mudando o Brasil. Muito obrigada!'."

Cachaças encontradas no sítio de Atibaia - Reprodução - Reprodução
Cachaças encontradas no sítio de Atibaia
Imagem: Reprodução

No dia seguinte à operação, os procuradores voltaram a falar sobre o sítio de Atibaia de maneira jocosa. Januario Paludo escreveu: "Não me deixaram ficar na adega com medo que eu pegasse um Brunello, botasse um chapéu do MST no patinho e saísse pedalando!!!".

A procuradora Laura Tessler riu e acrescentou: "O sítio é mesmo do Lula: a 1ª foto mostra uma [pinga] 51!!! Essas fotos da adega deveriam ser divulgadas".

O procurador Orlando Martello Jr pediu calma para a euforia dos colegas: "Espera a juntada nos autos!! Rs". E Paludo respondeu: "Ops! Kkk. Tô brincando. Não mandei nada. Fotografei todas as árvores frutíferas. Segundo a cultura popular, ninguém planta na terra dos outros. E tem um pomar gigante comprado pela Marisa."

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