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Operação Lava Jato


Ex-trader da Petrobras admite ter recebido propina da Vitol

Sede da Petrobras, no Rio de Janeiro - Fernando Frazão/Agência Brasil
Sede da Petrobras, no Rio de Janeiro Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil

Sabrina Valle e Andy Hoffman

25/11/2019 15h25

(Bloomberg) — Um ex-trader da Petrobras que usava o codinome de "Phil Collins" disse em depoimento à Justiça que recebeu propina da Vitol Group para favorecer a empresa em contratos com a petroleira, segundo um processo da Lava Jato sobre a empresa.

Carlos Roberto Martins Barbosa disse que recebeu propinas entre 2003 e 2005 para conseguir contratos de óleo combustível para a Vitol com a Petrobras, sob condições favoráveis. Pagamentos equivalentes a 12 centavos de dólar por barril foram em parte depositados pela Vitol na conta bancária de Barbosa na Suíça, de acordo com depoimento de 23 de outubro, publicado pela primeira vez no site da Justiça Federal do Paraná.

Os supostos subornos foram pagos após negociações com Lauro Moreira, responsável pela Vitol no Brasil na época, disse. O acordo tinha o consentimento do presidente da Vitol Inc. nos EUA, Mike Loya, e o então diretor da Vitol para a América Latina, Tony Maarraoui, segundo depoimento do ex-trader da Petrobras. Loya e Maarraoui já haviam sido citados em documentos judiciais como parte da Operação Lava Jato.

"No trading, quando você quer ganhar propina, você não ganha US$ 10 por barril numa carga", disse Barbosa no depoimento. "É a perpetuidade de pouquinhos centavos em cada venda, em cada produto, é que proporciona o ganho ilícito."

Segundo investigadores, o caso tem como alvo empresas que comercializam commodities, chamadas tradings. Na quinta-feira, o Ministério Público Federal disse que autoridades na Suíça executaram mandados de busca em endereços de Genebra associados à Vitol e à Trafigura, que são investigadas por corrupção e lavagem de dinheiro por supostamente subornar funcionários da Petrobras.

Um procurador disse que os principais executivos das duas empresas podem ser acusados de estarem cientes e de terem se envolvido no esquema.

"Estamos aprofundando as investigações e coletando mais provas que consideramos necessárias antes que possamos apresentar uma denúncia", disse o promotor federal Athayde Ribeiro Costa, parte da força-tarefa da Lava Jato, em entrevista por telefone de Curitiba. "É por isso que as buscas foram realizadas nos escritórios das empresas em Genebra."

Uma porta-voz da Vitol em Londres disse que a empresa tem uma política de tolerância zero em relação a subornos e corrupção e continua a cooperar com autoridades relevantes.

Não houve resposta às ligações feitas ao escritório de Loya na Vitol, em Houston. Uma resposta automática enviada do endereço de e-mail de Maarraoui na Vitol disse que ele não trabalha mais na empresa. Não foi possível contatar Moreira, que deixou a Vitol em 2005.

A Petrobras não quis comentar o depoimento. A Trafigura confirmou que seus escritórios em Genebra foram investigados por autoridades suíças na quarta-feira. A empresa respondeu ao pedido de assistência na investigação, forneceu documentos e está levando as acusações a sério, disse um representante da empresa.

A Procuradoria-Geral da Suíça confirmou na quinta-feira que agiu em resposta a um "pedido de assistência jurídica do Brasil" no caso, mas não quis fornecer mais detalhes.

As buscas na Suíça aumentam o foco da investigação sobre o suposto esquema de propinas envolvendo a Vitol, a maior trading independente de petróleo do mundo, e a Trafigura, que é a segunda maior. Genebra é um importante centro de trading para as duas empresas. Os principais executivos da Trafigura trabalham na cidade.

A Lava Jato prendeu líderes empresariais e políticos, incluindo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A investigação incluiu a Suíça em 2015, quando promotores e reguladores começaram a investigar se bancos do país foram usados como canal para lavagem de dinheiro e pagamento de suborno. Promotores da Suíça disseram em fevereiro que estavam colaborando com a investigação sobre o suposto esquema de propinas. Os contratos com a Petrobras foram assinados entre 2004 e 2015, segundo autoridades.

Atualmente, o Ministério Público conduz duas investigações criminais separadas envolvendo a Vitol e Trafigura. Desde que essas investigações começaram em 2018, um juiz aceitou acusações contra pessoas associadas a ambas as empresas, que incluem supostos intermediários. Até agora, não houve nenhum veredicto.

Autoridades brasileiras alegaram que a Vitol e a Trafigura usaram agentes para facilitar os pagamentos a funcionários da Petrobras. Algumas tradings de commodities, como a Trafigura, prometeram reduzir ou eliminar o uso de intermediários em outros países.

— Com a colaboração de Hugo Miller.

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