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Caso Marielle

Ex-vereador teve desafetos mortos, mas nunca foi condenado por homicídios

Ex-vereador Cristiano Girão Matias  - Marcos de Paula/AE
Ex-vereador Cristiano Girão Matias Imagem: Marcos de Paula/AE

Flávio Costa*

Do UOL, em São Paulo

09/09/2020 12h07

Morrer a tiros é um destino comum a desafetos do ex-vereador Cristiano Girão Matias (ex-PMN), alvo de uma operação policial que o conecta diretamente ao policial militar da reserva Ronnie Lessa, acusado de assassinar a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes.

Desde o começo das investigações do atentado que resultou na morte da vereadora e do motorista, Girão aparece como um dos suspeitos de ser o mandante da morte da vereadora e de seu motorista. Ele teve o sigilo telefônico quebrado no decorrer da investigação.

O ex-parlamentar carioca já cumpriu pena por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, mas nunca foi condenado pelo crime de homicídio.

De acordo com a Polícia Civil, Girão teria contratado Lessa para executar um casal, no ano de 2014, em circunstâncias semelhantes ao atentado que vitimou Marielle e Anderson. O ex-vereador teve seu nome ligado a outros homicídios. Os inquéritos nunca foram concluídos.

Às autoridades, Girão afirmava, em sua defesa, que era vítima de uma "perseguição política".

CPI das Milícias

Na manhã de 14 de janeiro de 2009, dois homens armados com pistolas 9mm chegaram em uma moto no momento exato em que o miliciano Marco Aurélio França Moreira, 40, descia de seu carro na comunidade Novo Rio, no Gardênia Azul, zona oeste do Rio. Marcão não teve tempo de reagir. Morreu atingido por oito tiros —três na cabeça, dois na nuca e três nas costas.

Três meses e meio antes, Marcão havia prestado depoimento à CPI das Milícias da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, presidida pelo então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), à época assessorado por Marielle Franco. Contou que Girão era chefe da organização criminosa que extorquia comerciantes e moradores da Gardênia Azul.

Girão foi indiciado pela investigação parlamentar, que foi fundamental para que fosse, posteriormente, condenado pela Justiça do Rio por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro e perdesse o mandato de vereador.

Fortuna com milícia

Ainda de acordo com a sentença de 14 anos e seis meses de reclusão, Girão teria usado a fortuna acumulada em seus negócios milicianos para a compra de imóveis na zona oeste do Rio. Entre os anos de 2003 e 2007, ele movimentou mais de R$ 2,2 milhões, em valores da época, mais de dez vezes mais do que o declarado à Receita Federal.

Na denúncia do MP-RJ (Ministério Público Estadual) constava citação à morte de Marcão, como também era mencionado outro assassinato no Gardênia Azul: o do morador Juvaldo Gomes de Oliveira, conhecido como "Chico Palavrão", foi morto a tiros de depois de haver proibido a colocação de placa de propaganda política do então candidato Cristiano Girão Matias no muro de sua casa.

Preso preventivamente em dezembro de 2009, Girão foi transferido para o sistema penitenciário federal dois meses depois. No cárcere, deu uma cabeçada em um outro prisioneiro, de acordo documentos judiciais obtidos pelo UOL.

Em 2015, passou a ter direito a liberdade condicional, mas foi proibido de ir ao Rio por pelo menos um ano, por decisão da Justiça federal.

O então secretário da Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, enviou relatórios de inteligência a juízes federais nos quais se afirmava que Girão, mesmo preso, ainda era chefe da milícia que agia em Gardênia Azul. Os magistrados consideraram que informes careciam de provas.

O UOL ligou para o advogado de Cristiano Girão Matias, mas ele não atendeu os telefonemas. A defesa de Ronnie Lessa afirmou que não irá se pronunciar, pois não teve acesso aos autos.

* Colaboraram Fábio de Mello Castanho, do UOL, e Rafael Bragança, colaboração para o UOL, em São Paulo

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