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Operação Lava-Jato

Quebra de sigilo expõe empresas que teriam pago mesada a Pezão

Bernardo Barbosa e Luciana Quierati

Do UOL, em São Paulo

02/12/2018 11h05Atualizada em 03/12/2018 16h23

O ministro Felix Fischer, do STJ (Superior Tribunal de Justiça), suspendeu neste sábado (1º) o sigilo do pedido de prisão de Luiz Fernando Pezão (MDB) e, com isso, revelou que o dinheiro da suposta mesada recebida pelo governador do Rio de 2007 a 2014 vinha de empreiteiras e prestadoras de serviços ao governo, como Carioca Engenharia, Andrade Gutierrez, Delta, Comercial Milano e Masan.

Segundo o documento de 151 páginas elaborado pela PGR (Procuradoria-Geral da República), sobre os contratos com essas empresas eram cobrados 5% de propina para a suposta organização criminosa do ex-governador Sérgio Cabral (MDB) – dos quais, R$ 150 mil eram destinados mensalmente a Pezão, que então ocupava os cargos de secretário de Obras e vice-governador do estado.

O UOL procurou todas as empresas citadas pela PGR, em busca de um posicionamento relativo ao suposto pagamento de propina em contratos públicos. A Carioca engenharia informou, por meio da sua assessoria de imprensa, que não vai comentar qualquer denúncia relativa ao caso.  

Na manhã de segunda (3), a Andrade Gutierrez enviou nota ao UOL dizendo que "apoia toda iniciativa de combate à corrupção, e que visa a esclarecer fatos ocorridos no passado". A empresa afirma que "segue colaborando com as investigações em curso dentro do acordo de leniência firmado com o Ministério Público Federal" e "incorporou diferentes iniciativas nas suas operações para garantir a lisura e a transparência de suas relações comerciais". Ainda de acordo com a construtora, "tudo aquilo que não seguir rígidos padrões éticos será imediatamente rechaçado pela companhia."

As assessorias de imprensa da Delta, da Comercial Milano e da Masan não foram encontradas.

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À Polícia Federal, Pezão negou ter recebido propina. O UOL aguarda um posicionamento da defesa do governador.

O valor era repassado a Pezão, a pedido de Cabral, por Carlos Miranda, em cuja delação premiada, homologada no ano passado, se baseiam as investigações do Ministério Público Federal – as quais, por sua vez, motivaram o pedido de prisão por parte da procuradora-geral Raquel Dodge.

O documento traz ainda os 25 bilhetes que demonstrariam o pagamento de propina a Pezão – que neles apareceria apelidado de “Pé”, “Pzão”, “Big Foot” e “Pezonne”. No total, o governador teria recebido R$ 2.215.270,00 no período.

Além disso, o pedido contém a transcrição de um diálogo de Pezão com um homem de nome Ricardo, que o teria procurado para reclamar de uma suposta abordagem truculenta a Cabral na prisão e pedir que o governo intercedesse a seu favor. Pezão teria dito que iria “entrar no circuito” para resolver o problema – episódio que é tratado pelo MPF como prova da ligação atual de Pezão com a referida organização criminosa.

Foi por causa dessa possível ligação que Dodge solicitou ao STJ a prisão, justificando que, solto, "Pezão poderia dificultar ainda mais a recuperação dos valores, além de dissipar o patrimônio adquirido em decorrência da prática criminosa".

Em entrevista à imprensa, Dodge disse que a prisão de Pezão foi necessária porque a investigação apontou que o esquema de lavagem de dinheiro estava em curso

Pezão foi preso pela Polícia Federal na quinta-feira (29) em um desdobramento da Lava Jato batizado de Operação Boca de Lobo. Ele estava dormindo no Palácio Laranjeiras, residência oficial dos governadores do Rio, quando os policiais chegaram, por volta das 6h.

O governador está detido na unidade prisional da Polícia Militar, em Niterói, na região metropolitana do Rio. Ele ocupa a sala de Estado maior, já que foi preso durante o exercício do cargo -- deve ser transferido de local em 1º de janeiro, quando termina seu mandato.

O chefe do Executivo fluminense foi alvo de um dos nove mandados de prisão preventiva. A PF também cumpriu outros 30 de busca e apreensão no Rio e em Minas Gerais.

Pezão é o quarto governador do Rio de Janeiro preso e o primeiro em cumprimento do mandato --Cabral e o casal Anthony e Rosinha Garotinho são os outros três. (*Colaborou Gabriel Sabóia, do Rio)

"Há indícios de que Pezão recebeu propina no governo"

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