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Caso Marielle


Carlos Bolsonaro exibe supostos registros de condomínio para rebater Globo

Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

30/10/2019 11h16Atualizada em 30/10/2019 15h31

O vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) usou as redes sociais na manhã de hoje para criticar uma reportagem da TV Globo. A matéria, veiculada ontem pelo Jornal Nacional, relata que o porteiro do condomínio onde Jair Bolsonaro (PSL) mantém residência no Rio de Janeiro afirmou que Élcio de Queiroz, um dos suspeitos de matar a vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e seu motorista, Anderson Gomes, pediu para ir à casa do presidente no dia do crime.

O filho do presidente postou um vídeo que, segundo ele, foi gravado na manhã de hoje —Carlos mora em outra casa no mesmo condomínio onde o pai tem residência no Rio.

Na gravação, o vereador exibe supostos registros internos do condomínio, com uma série de arquivos de áudio, e afirma que nenhuma solicitação de entrada foi feita para o imóvel de Bolsonaro, de número 58, no dia 14 de março de 2018 —data do assassinato de Marielle.

No vídeo, no entanto, é possível ver que há o registro de uma ligação para a casa 58, de Bolsonaro, às 15h58 de 14 de março de 2018. O vereador não reproduz este arquivo no primeiro vídeo, mas depois ele postou um novo tuíte.

Carlos mostra um áudio que, segundo ele, foi registrado às 17h13 para a casa 65, onde vivia o policial militar reformado Ronnie Lessa, apontado pelo Ministério Público e pela Polícia Civil como o autor dos disparos que mataram Marielle e Anderson. No arquivo, o porteiro anuncia a chegada do "senhor Élcio" e recebe como resposta "tá, pode liberar aí". Não é possível identificar quem responde.

Também não é possível verificar se o vídeo foi de fato gravado hoje nas dependências da administração do condomínio, se os áudios são verdadeiros, se houve algum tipo de manipulação nem se todas as ligações daquele dia aparecem na lista de arquivos exibida por Carlos.

Após a publicação deste primeiro vídeo, Carlos voltou às redes sociais para reproduzir outros dois áudios que seriam da mesma data: o da ligação feita para a casa 58, de Bolsonaro, às 15h58, e o da ligação feita para a casa 36, onde o vereador mora.

"Vou mostrar aqui a ligação da portaria para a casa do deputado [o hoje presidente Bolsonaro], que realmente aconteceu. É lógico que, quando eu me referia anteriormente, eu me referia ao assunto citado pela Rede Globo, que foi o áudio de 17h13", diz Carlos no vídeo.

No arquivo reproduzido, uma voz feminina atende a ligação da portaria. O áudio do porteiro é inaudível. A mulher responde: "Pode descer, tá?". Já no arquivo que seria da ligação para a casa 36, onde mora o vereador, o porteiro afirma: "Seu Carlos, é o Uber". Ele então responde: "Opa, valeu, obrigado".

Segundo a reportagem da TV Globo, horas antes do crime, às 17h10 daquele dia, Élcio Vieira de Queiroz —outro suspeito do crime preso pelos assassinatos— chegou à portaria do condomínio e disse que ia a uma das casas que pertencem a Bolsonaro. O nome de Élcio ficou registrado no caderno, assim como o veículo no qual ele estava (um Renault Logan, placa AGH-8202). O porteiro então informa, ainda de acordo com a reportagem, ter contatado a casa; segundo dois depoimentos, "seu Jair" liberou a entrada.

Presidente aciona Moro e critica Globo

Hoje, Bolsonaro afirmou estar conversando com o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, para que o porteiro de condomínio onde mantém residência no Rio de Janeiro possa ser ouvido novamente em depoimento na investigação que apura a morte de Marielle, mas pela PF (Polícia Federal).

"O porteiro ou se equivocou ou não leu o que assinou. Pode o delegado [da Polícia Civil] ter escrito o que bem entendeu e o porteiro, uma pessoa humilde, né, acabou assinando embaixo. Isso pode ter acontecido", disse Bolsonaro. "Estou conversando com o ministro da Justiça, o que pode ser feito para a gente tomar, para a polícia pegar o depoimento novamente, o depoimento agora desse porteiro pela PF", declarou.

Moro pediu à PGR (Procuradoria-Geral da República) a instauração de um inquérito para apurar o depoimento. O ministro sugere que Bolsonaro seria "vítima" de falso testemunho ou denunciação caluniosa e fala em inconsistência na investigação.

Fontes ouvidas pelo UOL, no entanto, dizem que Moro deve informar o presidente que a PF não pode intervir em um caso que se encontra em apuração pelo Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro e nem ordenar que os policiais tomem depoimentos.

"Para Edvandir Félix de Paiva, presidente da associação dos delegados da PF, não há atribuição investigativa da PF no caso. "E, mesmo que houvesse, o próprio ministro não poderia determinar nenhuma diligência no inquérito", diz.

O promotor Roberto Livianu, presidente do Instituto Não Aceito Corrupção, também afirmou que quem deve saber se é necessário tomar ou não outro depoimento do porteiro é quem conduz a investigação atualmente: o Ministério Público e a Polícia Civil do Rio.

Em resposta à reportagem veiculada ontem, Bolsonaro disse estar "aguardando a TV Globo ter a dignidade" de o convidar para uma entrevista ao vivo no Jornal Nacional a fim de esclarecer a menção ao seu nome na investigação sobre o caso Marielle.

"Aguardo a TV Globo me convidar para o horário nobre do 'Jornal Nacional' falar sobre o caso Marielle no conjunto onde eu moro", declarou, ao sair do hotel em Riad, capital da Arábia Saudita, onde está hospedado.

Fac-símile do controle de acesso ao condomínio Vivendas da Barra mostra registro do nome "Élcio", do carro "Renault Logan, placa AGH-8202" e da casa número "58", imóvel de Bolsonaro - Reprodução
Fac-símile do controle de acesso ao condomínio Vivendas da Barra mostra registro do nome "Élcio", do carro "Renault Logan, placa AGH-8202" e da casa número "58", imóvel de Bolsonaro
Imagem: Reprodução

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