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Operação Lava Jato


Cartes deu US$ 500 mil para ajudar Messer a se esconder, diz MPF

O ex-presidente do Paraguai Horacio Cartes (à esq.) e o doleiro Dario Messer (à dir.) durante visita oficial a Israel - Reprodução
O ex-presidente do Paraguai Horacio Cartes (à esq.) e o doleiro Dario Messer (à dir.) durante visita oficial a Israel Imagem: Reprodução

Igor Mello e Vinicius Konchinski

Do UOL, no Rio e em Curitiba

19/11/2019 12h03Atualizada em 19/11/2019 16h05

Resumo da notícia

  • Em carta, Dario Messer pediu US$ 500 mil para o então presidente do Paraguai
  • O doleiro chama Horacio Cartes de "patrão" e pede dinheiro para cobrir gastos jurídicos
  • Segundo a Lava Jato, o dinheiro solicitado realmente chegou ao doleiro
  • A Operação Patron cumpre 19 mandados de prisão

Investigações da Lava Jato do Rio de Janeiro apontam que o ex-presidente paraguaio Horacio Cartes deu US$ 500 mil (mais de R$ 2 milhões) ao doleiro Dario Messer para ajudá-lo a manter-se foragido de autoridades brasileiras no Paraguai. O suposto repasse dos recursos é um dos motivos que levaram a força-tarefa da Lava Jato no Rio a solicitar a prisão preventiva de Cartes. A ordem de prisão do político foi expedida pelo juiz federal Marcelo Bretas.

O ex-presidente, que é senador vitalício, se encontra no país vizinho. Bretas pedirá a extradição de Cartes —após o pedido ser entregue por vias diplomáticas, caberá às autoridades paraguaias a decisão de entregar ou não Cartes aos investigadores brasileiros. No pedido de prisão de Cartes, o MPF-RJ (Ministério Público Federal do Rio de Janeiro) diz que o ex-presidente e Messer são amigos há décadas. Acusado de lavar US$ 1,6 bilhão (mais de R$ 6 bilhões), o doleiro é considerado um "irmão de alma" por Cartes.

Até as 11h50 de hoje, 11 suspeitos haviam sido presos (oito prisões preventivas —por período indeterminado— e três temporárias). Nove alvos de mandados se encontram no exterior. Foi autorizada judicialmente a inclusão dos residentes no Paraguai e Estados Unidos na Difusão Vermelha da Interpol.

Ao todo, a chamada Operação Patron cumpre 16 mandados de prisão preventiva, três de prisão temporária e 18 de busca e apreensão em diversas cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro.

Veja imagens da operação da PF

bandrio

Em carta, Messer chama Cartes de "patrão"

Messer teve sua prisão decretada em maio de 2018, quando já era investigado pela Lava Jato do Rio. Na época, para não ser preso, o "doleiro dos doleiros" fugiu para o Paraguai.

Foragido, Messer escreveu uma carta para Cartes, que na época ainda era presidente do país vizinho. Na carta, escrita à mão e cuja imagem foi obtida pelos investigadores, Messer chama Cartes de "patrão" e diz que vai precisar de US$ 500 mil para cobrir seus gastos jurídicos.

"Dario Messer praticamente exigiu que o então presidente do Paraguai disponibilizasse a ele US$ 500 mil para que pudesse arcar com suas despesas advocatícias", explicou o procurador regional da República José Augusto Vagos, da força-tarefa da Lava Jato no Rio.

Segundo a Lava Jato, o dinheiro solicitado por Messer a Cartes realmente chegou ao doleiro. "Impressiona que o presidente então em exercício de uma República democrática mande entregar de forma sub receptícia uma quantia milionária a foragido da justiça", destaca o MPF-RJ.

Procurada, a defesa de Cartes não quis se pronunciar.

Propina para evitar extradição

Também de acordo com a Lava Jato, Messer negociou o pagamento de US$ 2 milhões em propinas para o ex-ministro do Interior do Paraguai Juan Ernesto Villamayor para evitar que ele fosse extraditado ao Brasil, caso ele se entregasse à polícia paraguaia.

Investigações apontam que a negociação teria sido feita pela advogada Leticia Bobeda, que representa Messer no Paraguai, onde ele também é investigado.

Mensagens enviadas por Bobeda a Messer citam conversas que ela teve com o então ministro Villamayor. "Pediu US$ 2 milhões. 50% antes e 50% depois", diz a advogada, que também teve sua prisão decretada pela Justiça do Brasil.

O UOL entrou em contato com Bobeda, mas ela ainda não respondeu.

Operação Patron

As ordens de prisão de Cartes e Bobeda são parte da Operação Patron, deflagrada hoje. Essa operação faz parte da Lava Jato e é um desdobramento da Câmbio, Desligo, que investigou Messer.

Segundo o MPF-RJ, dados nos celulares apreendidos comprovaram que Messer não parou de cometer crimes desde que teve sua prisão preventiva decretada.

"Ao contrário, a complexa rede do submundo do mercado ilícito de capitais o acolheu porque já inserida em sua própria organização, dela jamais tendo se dissociado", ressaltou a Lava Jato em petição encaminhada à Justiça.

A investigação é um desdobramento da Operação Câmbio, Desligo, fase da Lava Jato do Rio que mirou um esquema envolvendo dezenas de doleiros ligados à organização criminosa do ex-governador Sérgio Cabral (MDB) em maio de 2018. Líder do grupo, Dario Messer não foi encontrado na ocasião.

Messer só viria a ser preso em 31 de julho, em um apartamento alugado por sua namorada, Myra de Oliveira Athayde, em São Paulo. Ao cumprir mandados no imóvel, os investigadores apreenderam um telefone celular em posse de doleiro. Foi através do aparelho que foi possível chegar ao núcleo paraguaio do esquema de Messer, alvo da operação de hoje.

Embora apagasse conversas sensíveis no aplicativo de mensagens WhatsApp, Messer tinha como hábito guardar prints das mensagens trocadas com membros do esquema como forma de controle de suas movimentações financeiras, o que tornou possível aos investigadores seguirem o rastro de suas atividades criminosas.

Registros de conexões wifi do aparelho e prints do WhatsApp mostraram que um empresário paraguaio que atua na fronteira com o Brasil, ligado ao contrabando de cigarros, escondeu Messer em uma de suas fazendas pouco antes da deflagração da Câmbio, Desligo. O paraguaio foi o elo entre o doleiro e Cartes.

A investigação constatou a ocultação de aproximadamente US$ 20 milhões de Messer. Grande parte dos recursos estavam em um banco nas Bahamas, enquanto o restante dos valores estavam distribuídos no Paraguai, utilizando doleiros, casas de câmbio, empresários, políticos e uma advogada.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado no primeiro parágrafo, US$ 500 mil correspondem a mais de R$ 2 milhões, e não R$ 2 bilhões. O texto foi corrigido.

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