Topo

CarnaUOL

Ricky Hiraoka


Gabriel David, da Beija-Flor: "A Sapucaí é o melhor lugar para desfiles?"

Eduardo Hollanda/Divulgação
Gabriel David, conselheiro da Beija-Flor Imagem: Eduardo Hollanda/Divulgação
Ricky Hiraoka

Formado em jornalismo pela USP e pós-graduado em roteiro pela FAAP, Ricky Hiraoka foi colunista social na revista VEJA SÃO PAULO e na L'Officiel, colaborador de títulos como Glamour, Estilo e Boa Forma e apresentador da TV Marie Claire. Como roteirista, escreveu as séries Z4 (SBT/Disney), Eu, Ela e Um Milhão de Seguidores (Multishow), alem do reality show Fábrica de Casamentos (SBT/Discovery) e o humorístico Ceará Fora da Casinha (Multishow).

2019-02-18T04:00:00

18/02/2019 04h00

Nem Viviane Araújo nem Sabrina Sato. O nome mais falado do Carnaval do Rio em 2018 foi o de Gabriel David, conselheiro da Beija-Flor que comandou o desfile da escola e fez com que a agremiação de Nilópolis engajasse e encantasse público e jurados, sagrando-se campeã.

Filho de Anísio Abraão David, bicheiro e mandachuva da escola, Gabriel David, 21 anos, tem como missão modernizar o Carnaval. Cheio de ideias e com muita vontade de fazer acontecer, Gabriel David conta na entrevista abaixo o que ele faria para melhorar o Carnaval e questiona: "Será que a Sapucaí é o melhor lugar para os desfiles?"

UOL - Por que você se envolveu com Carnaval?

Gabriel David - Desde pequeno sempre frequentei reuniões e ensaios da Beija-Flor. Conforme fui crescendo, sentia dificuldade de levar meus amigos para a quadra da Beija-Flor e para os desfiles de escola de samba. Comecei a pensar em como atraí-los. Era difícil fazer as pessoas irem para Nilópolis para ouvir o mesmo samba por três horas. Propus mudanças nos ensaios que agradaram. Hoje, são duas horas de samba enredo, depois a gente coloca um DJ. Implantei também um esquema de transporte com vans. Isso atraiu mais frequentadores e as novas gerações da comunidade se aproximaram mais da escola.

Qual foi a reação da comunidade quando um jovem assumiu o comando da escola?

Como sempre tive presença ali, encararam com naturalidade quando comecei a ser conselheiro. Fui ficando mais ativo nos últimos anos e, principalmente, em 2018, a comunidade pôde ver minha participação direta. [Minha chegada] foi muito boa para a Beija-Flor, que tinha uma necessidade de enxergar o futuro. Havia um receio da comunidade de depender uma figura muito paternalista. Era preciso ter segurança para dar continuidade a tudo o que já foi feito, e eu dei essa segurança. Internamente, nunca houve desconfiança sobre meu trabalho. Mas sei que pelo fato de ser novo tenho muito a aprender ainda.

Qual é o grande desafio de estar na sua posição?

O grande desafio é unir o tradicional ao novo. O Carnaval precisa se modernizar. Uma mudança muito significativa, por exemplo, foi buscar um samba que chamasse a atenção das pessoas, um enredo com o qual todos se identificassem. Na Beija-Flor é mais fácil, porque tenho um entendimento na comunidade. Modernizar o Carnaval como um todo é mais complicado. O regulamento da Liesa [Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro] é conservador e limitador. O essencial é reorganizar a Liesa, ela precisa de um novo modelo de gestão. Temos que considerar também se não é o caso de repensar o local de apresentação. Será que a Sapucaí é o melhor lugar para os desfiles? A Sapucaí tem problemas básicos, porque ela não foi feita por sambistas. Eles não opinaram no projeto. Fora o entorno que não é dos melhores. Eu tive recentemente no Parque dos Atletas. Existem dois ginásios que têm que ser demolidos lá. Ali caberiam duas novas Sapucaís. O Parque dos Atletas foi pensado numa logística de entrada e saída, o acesso é melhor, o entorno também. É um caso se pensar.

Você se sente pressionado a se destacar novamente, já que em 2018 você fez muito sucesso?

Claro que existe uma pressão e ela é superpositiva. Neste ano, nosso enredo não é apelativo. Não será tão fácil ganhar a atenção das pessoas. Estamos falando dos 70 anos da Beija-Flor. É um enredo educacional, que joga valores morais para a criança. Vamos fazer as pessoas pensarem como melhorar a sociedade.

Como resolver a crise pela qual as escolas estão passando?

Existem vários momentos no Carnaval em que ativações de marcas poderiam ser feitas, e a Liesa nunca explorou: utilizar os espaços atrás da arquibancada, intervalo entre os desfiles, redes sociais. A Liga está preocupada em colocar o Carnaval na rua, mas não pensa em como alavancar financeiramente os desfiles. A Liesa não é dinâmica, e não dá para sobreviver assim.

A Globo atrapalha a entrada de marcas interessadas em patrocinar as escolas de samba?

Eu acho que o contrato entre a emissora e a Liesa tem que sofrer alterações para o bem do Carnaval e da Globo. A saída mais rápida é permitir que marcas sejam apresentadas na avenida. Se ela permite isso, o nível do espetáculo é mais alto e, consequentemente, ela tem um produto melhor para oferecer a anunciantes.