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Ricky Hiraoka


"Se eu tivesse uma escola, Maria da Penha seria enredo", diz Renata Banhara

Anderson Macedo/Divulgação
Renata Banhara já desfilou em todas as escolas de São Paulo Imagem: Anderson Macedo/Divulgação
Ricky Hiraoka

Formado em jornalismo pela USP e pós-graduado em roteiro pela FAAP, Ricky Hiraoka foi colunista social na revista VEJA SÃO PAULO e na L'Officiel, colaborador de títulos como Glamour, Estilo e Boa Forma e apresentador da TV Marie Claire. Como roteirista, escreveu as séries Z4 (SBT/Disney), Eu, Ela e Um Milhão de Seguidores (Multishow), alem do reality show Fábrica de Casamentos (SBT/Discovery) e o humorístico Ceará Fora da Casinha (Multishow).

2019-01-17T04:00:00

17/01/2019 04h00

Durante mais de dez anos, Renata Banhara reinou absoluta no Carnaval de São Paulo. A paixão pela folia era tamanha que a modelo entrou para o "Guiness Book" ao desfilar em 14 escolas do Grupo Especial em 2001. "Foi uma loucura. Eu sambava em zigue-zague pelo Anhembi para aumentar o trajeto e voltava a pé para iniciar tudo de novo", lembra.

"Depois que fiz isso, foi decidido que ninguém mais poderia desfilar em todas as escolas porque atrapalhava o ritmo das coisas." Desde 2016, Renata está afastada do Carnaval e hoje se dedica a ações sociais ligadas à defesa e à valorização da mulher. Na entrevista abaixo, ela relembra os tempos de musa.

UOL - Por que você desistiu do Carnaval?

Renata Banhara - Porque realizei todos os meus sonhos de Carnaval. Eu sou da roça e sempre sonhei em sair nas escolas de samba. Quando comecei, as celebridades não gostavam do Carnaval de São Paulo. Só eu, Miguel Falabella e Tais Araujo desfilávamos. Quando o Carnaval do Rio começou a ser mais disputado, os famosos migraram para cá e aí começou uma briga infernal para ser madrinha e rainha de bateria. Eu não quero mais participar dessa picuinha. Numa das últimas vezes que desfilei na frente da bateria, uma moça implicou tanto comigo que, no dia do desfile, dei a faixa para ela e fui para casa. Não aguento essa vaidade gigante.

Fala-se muito sobre venda de cargos de rainha e madrinha da bateria... Rolou com você?

No meu começo no Carnaval de São Paulo, não tinha essa venda. Já no Rio, quando me chamaram, perguntaram na lata quanto eu pagaria por uma vaga numa escola. Levantei e fui embora. Acontece muito de madrinha ou rainha surgir do nada e desbancar a outra mais famosa e mais competente por ser casada com alguém que tem posses e o marido doa coisas para a comunidade. Nunca marido meu ofereceu nada para eu ser destaque em escola de samba. Fui casada com dois cantores e eles nem pisavam na quadra, porque eu não deixava.

Como você bancava suas fantasias?

Eu era da geração que fulana tinha orgulho de dizer que gastou R$ 200 mil numa fantasia. Outra dizia que tinha investido o equivalente a dois apartamentos. Nunca gostei dessa onda. Eu sabia que se gastasse dinheiro, faltaria comida na minha geladeira. Eu reciclava material e fazia parcerias para gastar o mínimo. No meu último carnaval, o Kell Mendes reciclou tudo o que eu tinha de outros Carnavais e fez minha fantasia. 

Anderson Macedo/Divulgação
Renata Banhara acha importante homenagear a história de Maria da Penha Imagem: Anderson Macedo/Divulgação
Como surgiu a ideia de desfilar em 14 escolas?

Engravidei, engordei 36 quilos e não voltava à forma antiga de jeito nenhum. Eu trabalhava com meu corpo e, quando estava acima do peso, ficava desempregada. Ninguém me chamava para trabalhar. Vi no Carnaval uma salvação. Me propus a desfilar em todas as escolas de São Paulo e sabia que isso só seria possível se eu treinasse pesado. Não era minha intenção inicial entrar no "Guiness". Queria emagrecer e conseguir trabalho.

Quais novas musas do Carnaval você admira?

Não sei... Sabe o que queria? Homens como rei de bateria. Acho que faltam mais representantes da comunidade LGBT nessa posição também. Mas algo que acho imperdoável é que as escolas não prestigiem nomes como Luma de Oliveira, Monique Evans e Luiza Brunet. Elas não poderiam estar longe do Carnaval!

Você tem trabalhado muito em prol de causas femininas. As rainhas e as madrinhas de bateria precisam tem mais voz e falar sobre outros temas, além do próprio corpo?

Eu acho que elas têm que falar sobre corpo, porque são a materialização da beleza física. Ali é um posto em que o que está em jogo é a beleza, independentemente de idade e de forma física. Elas são um mito, representam as deusas. Quem tem que falar da parte politizada da escola é o carnavalesco. Não faz sentido cobrar das meninas uma opinião política. E acho chato uma menina linda ser politizada e ter que se defender por ser bonita. 

De que forma o Carnaval pode ser uma plataforma para ajudar as mulheres?

A violência contra a mulher virou assunto neste ano. Estamos numa onda crescente de feminicídio. Empoderamento fica só na palavra bonita. O empoderamento não chegou às comunidades. Se eu tivesse minha escola de samba, violência contra a mulher seria o tema. Melhor: meu tema seria a vida da Maria da Penha. Por causa de tudo o que ela passou, hoje temos uma lei que protege a mulher. Maria da Penha é muito capacitada, preparada, estudada. Além de ser enredo de Carnaval, ela seria uma boa ministra.