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Ricky Hiraoka


Padre João, da Viradouro: "Tem que parar de achar que samba é do capeta"

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Padre João, na Viradouro: "Se não contraria a sua fé mais profunda não é errado" Imagem: Divulgação
Ricky Hiraoka

Formado em jornalismo pela USP e pós-graduado em roteiro pela FAAP, Ricky Hiraoka foi colunista social na revista VEJA SÃO PAULO e na L'Officiel, colaborador de títulos como Glamour, Estilo e Boa Forma e apresentador da TV Marie Claire. Como roteirista, escreveu as séries Z4 (SBT/Disney), Eu, Ela e Um Milhão de Seguidores (Multishow), alem do reality show Fábrica de Casamentos (SBT/Discovery) e o humorístico Ceará Fora da Casinha (Multishow).

2019-02-06T04:00:00

06/02/2019 04h00

Com 20 tatuagens espalhadas pelo corpo e praticante de jiu-jitsu, padre João não é o que se espera de um sacerdote. Quando não está no comando das missas da Igreja Nossa Senhora de Fátima, em Niterói, ele está na quadra da Viradouro.

"Em 2014, uma amiga me chamou para abençoar a escola de samba e nunca mais saí de lá", lembra ele, que desfila pela agremiação desde essa época.

A trajetória curiosa do padre que caiu no samba deu origem à biografia "Uma Vida de Luta" (Editora Máquina de Livros), escrita pelo jornalista Leonardo Bruno. O livro foi lançado na última terça (5), na quadra da Viradouro, durante o ensaio técnico da escola.

Padre João falou com a coluna sobre sua relação com Carnaval, religião e preconceito.

UOL - Como o senhor foi parar na Viradouro?

Padre João - Foi devido a uma missa que realizo em honra a São Miguel Arcanjo, todo dia 29. Em 2014, uma amiga me chamou para abençoar a quadra da Viradouro e nunca mais saí de lá. Não me considero sambista. O samba é muito profundo para eu me achar sambista. Me sinto um turista no meio da escola de samba. Vou à Sapucaí todos os anos abençoar a Viradouro. Neste ano, a diretoria me deu uma função: diretor religioso de Carnaval.

O que faz um diretor religioso de Carnaval?

Faço uma série de coisas. Meu trabalho é levar uma qualidade de vida melhor e desenvolver a espiritualidade dos integrantes, pois isso ajuda na harmonia da escola na hora do desfile. Eu acompanho as alas dando aconselhamento. Dou muita orientação espiritual. Eu atendo confissões até na concentração do desfile e busco orientar a pessoa dentro da crença dela. Não quero converter ninguém. Isso é muito importante nestes tempos de intolerância.

Como os fiéis de sua igreja reagiram quando você começou a frequentar a Viradouro?

Os fiéis da minha igreja são supertranquilos a respeito disso. Quem vai lá não é católico tradicionalista. Ninguém se escandalizou. As autoridades religiosas, os bispos, também têm compreensão muito grande e apoiam meu trabalho no samba. Mas, em muitos outros lugares, sofro críticas. Estamos vivendo um conservadorismo moralista nada sadio, que não agrega nada em nossa vida. 

Qual é a importância de ter um padre na escola de samba?

Os católicos sambistas se sentiam marginais, eram chamados de demônios. Ter um sacerdote numa escola de samba é um alívio para eles. Tenho uma amiga que é intérprete de uma escola de samba, que vai à missa todo domingo e que me contou que um membro da igreja chegou nela e disse que estava rezando para ela encontrar Jesus e largar o Carnaval. Respondi: "Minha filha, vá sem culpa [ao samba]. Se não vai contra a nossa fé e a nossa moral, vá. Se não contraria a sua fé mais profunda não é errado". Se a gente olhar o evangelho, Jesus acolhia, não condenava ninguém. Jesus não fazia comentários idiotas, não censurava ninguém. Tem que tirar essa visão preconceituosa e racista sobre o samba.

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Padre João com porta-bandeiras: ele dá orientação espiritual no Carnaval Imagem: Divulgação

Como combater a ideia que samba e religião não podem conviver?

As pessoas precisam entender que desfile de escola de samba é cultural, não é cultual. Ninguém está ali praticando religião. Estamos todos promovendo uma manifestação cultural. A Sapucaí é um banco de escola universitária para muito brasileiro, que aprende sobre cultura e história vendo as escolas de samba. É o Carnaval que ensina o brasileiro que o Nordeste não é só Bahia. A gente viu que o único lugar que homenageou o bicentenário do Museu Nacional foi o Carnaval, no desfile da Imperatriz Leopoldinense. As pessoas pensam que sambista é folião. Sambista é um professor, que transmite a cultura. Os desfiles são grandes telecursos de segundo grau. 

Por que as pessoas ainda não conseguem ver o Carnaval como cultura?

Porque ainda existe muito preconceito. Tem que parar de achar que samba é coisa do capeta. É o Carnaval que incentiva o povo a conhecer mais a cultura, a ler. Vou te dar um exemplo do que estou falando. Teve um ano que uma escola apresentou um enredo sobre "A Divina Comédia", de Dante Alighieri. Entende como o samba dissemina a cultura? Você não vê no axé ou no frevo alguém falando de Dante Alighieri. Mas muita gente achou que essa escola estava fazendo apologia ao demônio, porque a primeira ala representava o inferno. Quem achou isso é idiota ou burro e claramente não leu Dante Alighieri, pois não notou que a escola estruturou as alas de acordo com a narrativa de "A Divina Comédia", que começa no inferno e termina no paraíso. Se continuarmos com essa visão de que tudo é do mal, daqui a pouco não poderemos encenar a Paixão de Cristo, porque ali tem a figura do demônio.

Se Jesus estivesse vivo, ele estaria curtindo o Carnaval na Sapucaí?

Se a gente olhar bem o evangelho, a gente vai perceber que Jesus entrou em casas que os judeus não entravam. Jesus conversava com samaritanos com quem os judeus não poderiam conversar. Jesus se deixou tocar por uma mulher. Diante dessas atitudes, você acha que Jesus não estaria assistindo a uma manifestação tão bonita e tão profunda quanto o Carnaval? Claro que talvez ele não fosse todo ano, mas acho que ele estaria lá, sim.