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Cão vira 'solução ecológica' para controlar guepardos na Namíbia

Justine Gerardy

Em Gobabis

2013-09-03T18:23:21

03/09/2013 18h23

Em uma fazenda na Namíbia, Bonzo, um cão pastor, tem a missão dupla de proteger seu rebanho de cabras dos guepardos e, de quebra, os fazendeiros.

Este pastor da Anatólia, criado por ambientalistas, conseguiu com que os moradores do país do sul da África deixassem de ver estes felinos como inimigos que deveriam ser exterminados.

"Os cães protegem o rebanho e, por isso, os fazendeiros não precisam mais matar os predadores", explica Laurie Marker, diretora do Fundo de Conservação dos Guepardos (Cheetah Conservation Fund, CCF), que cria perto da cidade de Otjiwarongo estes cães originários da Turquia.

"É um método de controle de predadores não letal. É ecológico, todo mundo está feliz, é uma abordagem em que todos ganham", continua.

O CCF simplesmente reinventou e adaptou o conceito ancestral namíbio do cão pastor, em particular o pastor-da-anatólia, também chamado kangal, um animal conhecido pela força e pela capacidade de suportar temperaturas extremas.

Os cachorros são colocados em um rebanho com algumas poucas semanas de vida para que possam criar vínculos com os animais de que irão cuidar. Eles vivem todo o tempo com o rebanho, o acompanham durante o dia e dormem com eles à noite. Sua missão é manter os predadores sempre afastados.

O CCF começou a criar cães pastores quando a diminuição da população de guepardos se tornou alarmante na Namíbia: dez mil grandes felinos - que equivalem a toda a população mundial atual - foram abatidos ou expulsos de seus territórios nos anos 1980.

Até mil guepardos eram abatidos a cada ano nesta época, a maioria por fazendeiros que os viam como predadores de gado. Em quase duas décadas, o CCF colocou cerca de 450 cachorros em diferentes rebanhos e capacitou 3.000 criadores.

"Reduzimos a perda de gado de 80% a 100%, seja qual for o predador, quando os fazendeiros têm cães", comemora Marker.

Agora existe uma lista de espera de dois anos para conseguir um cão pastor e o programa se espalhou para outros países, como África do Sul e, logo, a Tanzânia.

Bichos de estimação

Para Retha Joubert, que cria cabras e ovelhas perto de Gobabis (leste), tudo mudou com a chegada de Bonzo há cinco anos: deixou de sentir ansiedade com a chegada da noite e no ano passado perdeu um animal, contra os 60 de 2008.

Esta fazendeira agora tem Nussie, uma cadela de quatro meses que já aprende o ofício saindo com o rebanho todos os dias, presa a uma corda, e dorme com as cabras à noite.

"[Nussie] deve se vincular às cabras, deve ser como uma cabra, é parte de um grupo e este é o principal elemento para que proteja os animais", explicou Joubert. "Não são bichos de estimação", disse sobre seus dois cães. "Não têm o direito de ser bichos de estimação!", reforçou.

A presença dos cães e seus latidos geralmente são suficientes para proteger o gado dos predadores, que atacam mais os rebanhos sem guarda-costas. Mas às vezes é preciso brigar: Bonzo matou um jovem guepardo e também chacais.

Mesmo assim, manter rebanhos na Namíbia não é seguro: o corajoso cão foi mordido por serpentes e picado por um escorpião, e agora sofre com um câncer de língua provocado pela exposição constante ao sol.

Além disso, os cães pastores não são adequados para os grandes rebanhos bovinos e muitas fazendas privadas onde pastam antílopes.

Embora tenha sido para proteger os guepardos que a CCF começou a criar pastores-da-anatólia em 1994, estudos mostram que estes grandes felinos não são necessariamente os principais matadores do gado, apesar da má fama. Uma análise mostrou que apenas 5% dos guepardos atacou animais da fazenda.

"Às vezes levam o gado", disse Gail Potgieter, especialista em conflitos entre seres humanos e vida silvestre na Fundação para a Natureza da Namíbia. "Mas dizer que todos os guepardos vão matar o gado para se alimentar é um erro".

A população de guepardos na Namíbia chegou ao nível mais baixo, de 2.500 exemplares, em 1986. Desde então, aumentou para cerca de 4.000, a maior concentração de guepardos selvagens do mundo.

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