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Luiz Felipe Alencastro


Três lideranças femininas e a arte da negociação política

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

28/11/2018 21h36

Nancy Pelosi enfrenta nesta quarta (28) uma eleição dos deputados democratas que escolhem seu candidato à presidência da Câmara (speaker) na legislatura que se iniciará em Washington no começo do ano. Para ser eleita speaker em janeiro, Nancy Pelosi terá de obter ao menos 218 votos, ou seja, a maioria dos sufrágios dos 435 deputados dos dois partidos que compõem a Câmara. Pelosi já foi speaker entre 2007 e 2011, quando os democratas detinham a maioria das cadeiras de deputados.

Graças a ela, o chamado Obamacare, que ampliou o acesso dos americanos à assistência médica, foi aprovado em 2009 pelos deputados, apesar da dura oposição do partido republicano. Com 78 anos de idade, Nancy Pelosi foi criticada por parlamentares recém-eleitos, desejosos de substituir os dirigentes que controlam o partido democrata há uma década. Trump, crítico contumaz de Pelosi, acabou afirmando que ela merecia presidir a Câmara.

O inesperado elogio do presidente suscitou interrogações. Trump deseja Pelosi na presidência da Câmara porque ela é uma política experiente, hábil negociadora de alianças interpartidárias, que não paralisará o Congresso em detrimento do Executivo Federal? Ou porque ela, sendo detestada por boa parte do eleitorado republicano, constitui um alvo fácil para os ataques da Casa Branca? Em todo caso, se for eleita em janeiro, como tudo indica, Nancy Pelosi se tornará uma agente central do sucesso ou do fiasco da presidência Trump.

Do outro lado do oceano, a primeira-ministra  Theresa May atravessa bravamente uma tempestade inédita na história contemporânea britânica. Depois de negociar arduamente em Bruxelas o acordo que estabelece as bases da saída do Reino Unido da União Europeia (UE), Theresa May entra numa outra peleja tão ou mais complicada: ratificar no Parlamento o acordo que ela obteve em Bruxelas.

O voto será no próximo dia 11 e os prognósticos não são favoráveis. Cerca de 80 deputados conservadores e dez aliados do Partido Democrata Unionista da Irlanda do Norte, já anunciaram que votarão contra o acordo, ao lado dos parlamentares da oposição trabalhistas. Nesta semana, a primeira ministra se dirigirá à sua base parlamentar e aos eleitores britânicos com um discurso cujo subtexto é claro: ou o acordo que defendo é aprovado ou o Brexit criará o caos no Reino Unido

Angela Merkel teve um papel importante nas negociações com Theresa May sobre o acordo do Brexit. Com a saída do Reino Unido, a UE, agora com 27 países membros, fica mais dependente ainda da liderança alemã. Além do impacto do Brexit na UE, Merkel tem preocupações de outra natureza, decorrentes de sua sucessão na direção do seu partido, a União Democrata Cristã (CDU).

Tendo anunciado em outubro sua decisão de abandonar a carreira política em 2021, no final do seu mandato, Merkel deu o sinal de partida para sua sucessão. Desde então, ela manobra dentro partido em favor de Annegret  Kramp-Karrenbauer, conhecida como AKK, atual secretaria-geral do CDU e próxima das ideias da atual chefe do governo.

A escolha do nome do próximo chefe do partido será feita numa assembleia geral do CDU, em Hamburgo, no próximo dia 7. Os dois outros concorrentes à direção do CDU, são bem mais conservadores do que Merkel. Se um deles for escolhido no dia 7, a atual chefe do governo ficará ainda mais enfraquecida, aumentando a instabilidade na UE.

Nancy Pelosi, Theresa May e Angela Merkel atravessam uma etapa crucial de suas carreiras. Seu sucesso, ou seu fracasso, mudará a história de seus países e terá impacto no resto do mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL