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Luiz Felipe Alencastro


Os 30 anos da queda do Muro de Berlim

Andreas Von Lintel - 10.nov.1989/AFP
Imagem: Andreas Von Lintel - 10.nov.1989/AFP
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

11/11/2019 10h50

A queda do Muro de Berlim em 1989, na sequência da abertura política iniciada em Moscou por Gorbachev, foi o terremoto inicial dos tremores tectônicos que fizeram desabar a Cortina de Ferro e a União Soviética. Muito justamente, o evento é festejado em todas as democracias agora, no seu trigésimo aniversário. Há poucos dirigentes ou negociadores diplomáticos da época ainda vivos e dispostos a testemunhar.

O principal deles é Mikhail Gorbatchev, último presidente da URSS, entrevistado por jornais europeus na semana passada. Ao Spiegel, principal semanário alemão, Gorbatchev disse que nos meses entre a queda do Muro (09/11/1989) e a reunificação da Alemanha (03/10/1990), ele "negociou intensivamente" com Helmut Kohl, chefe do governo oeste-alemão, Egon Krenz, do governo este-alemão, com os lideres europeus e o presidente Georges Bush (pai): "tínhamos que evitar que o desejo de reunificação (alemã) revivesse a guerra Fria".

Gorbatchev confirma em sua entrevista que os 380 mil soldados soviéticos estacionados na Alemanha Oriental receberam ordens para não reprimir as manifestações antigovernamentais em curso, nem impedir a passagem dos berlinenses orientais para o lado ocidental da cidade.

Como revelou também Jacques Attali, conselheiro especial de François Mitterrand neste período, Moscou já havia informado desde outubro de 1987 o presidente francês que suas Forças Armadas, doravante sob ordens de Gorbatchev, não interviriam mais contra manifestantes, "nem em Varsóvia, nem em Moscou". A menção à capital polonesa se referia à longa rebelião contra o regime comunista liderada por Lech Walesa (prêmio Nobel da Paz em 1983) e o sindicato Solidariedade.

No artigo da semana passada no jornal francês Les Echos onde resumiu os acontecimentos de 1889 e 1990, Attali ressalta um ponto essencial das negociações que diz respeito ao euro e à União Europeia. Tanto Mitterrand como Margareth Thatcher, então chefe do governo britânico, testemunhos da violência nazista, queriam evitar a ressurgência de uma Alemanha prepotente na Europa.

Como indica Attali, confirmando informações de outras fontes, Mitterrand informou Helmut Kohl que apoiaria a reunificação alemã sob três condições. Em primeiro lugar, o governo da Alemanha Ocidental devia reconhecer a fronteira entre a Alemanha Oriental e a Polônia. Traçada pelos Aliados na Conferência de Postdam (1945), depois da derrota de Hitler, a fronteira Oder-Neisse seguiu os dois rios do mesmo nome e transferiu para a Polônia territórios alemães reivindicados há décadas pelos governos de Berlim. Willy Brandt, dirigente social democrata oeste-alemão, havia defendido desde 1968 o respeito à fronteira Oder-Neisse.

Ao contrário dele, Kohl ainda não havia explicitado esta posição, mas acabou cedendo: pela primeira vez em sua história a Polônia dispôs de fronteiras não contestadas por seus vizinhos. Em segundo lugar, Mitterrand exigiu que a Alemanha continuasse sem armamentos nucleares. Enfim, o presidente francês solicitou o apoio de Kohl à implementação do euro.

Jacques Attali foi testemunha da conversa de Kohl e Mitterrand e os fatos já eram conhecidos. Porém, seu artigo da semana passada lembrou como foi trágica a história da Alemanha e da Europa no século XX e quão poderosa foi a vontade política de consolidar, através da União Europeia, a paz no Velho Continente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL