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Luiz Felipe Alencastro


Caxemira: o conflito indo-paquistanês pelas águas do Himalaia

Professores e estudantes do Paquistão marcham durante um protesto anti-India. Nos cartazes os dizeres: "Eu sou Caxemira, eu sou Muçulmano" - Rizwan Tabassum/AFP
Professores e estudantes do Paquistão marcham durante um protesto anti-India. Nos cartazes os dizeres: "Eu sou Caxemira, eu sou Muçulmano" Imagem: Rizwan Tabassum/AFP
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

06/08/2019 13h13

O governo de Nova Délhi anunciou o fim da autonomia constitucional de que dispunha a parte indiana da Caxemira, majoritariamente muçulmana, desde sua adesão à União Indiana em 1947. A medida ainda não foi votada, mas o primeiro-ministro nacionalista hindu Narendra Modi tem maioria absoluta no Parlamento e o enquadramento da Caxemira é umas reivindicações de sua base eleitoral.

As tensões na região têm raízes profundas. Na sequência do desmonte da Índia britânica, em 1947, a divisão da Caxemira, até então principado semi-independente, provocou incidentes de fronteira e duas guerras inteiras (1947-1948, 1965) entre a Índia e o Paquistão. A região também esteve envolvida na guerra de fronteiras entre a Índia e a China (1962) e na terceira guerra indo-paquistanesa que redundou na independência do Bangladesh (1971).

Os enfrentamentos étnico-religiosos nunca cessaram nesta zona fronteiriça. Agora, no contexto da mobilização hinduísta e nacionalista do governo Modi, a tensão indo-paquistanesa a respeito da Caxemira galgou outro patamar.

Mas há uma questão de fundo que se sobrepõe ao conflito étnico-religioso e dá um caráter inédito a este conflito: a disputa entre a Índia e o Paquistão pelo controle dos recursos hídricos da cadeia do Himalaia.

Pouco regado por chuvas e tendo mais da metade de sua população no campo, o Paquistão tem a maior rede de irrigação do mundo, 200 mil km de canais interconectados. Nascendo nos picos do Himalaia, seis rios formam a bacia do Indo que desemboca no mar Arábico, atravessando uma parte da China, da Índia e, principalmente, do Paquistão.

O tratado do Indo, assinado em 1960 entre a Índia e o Paquistão, com o apoio do Banco Mundial, estabelece a repartição das águas da bacia do Indo entre os dois países. Apesar das duas guerras indo-paquistanesas ocorridas desde então, o acordo bilateral de distribuição das águas fluviais se manteve.

Entretanto, em setembro do ano passado, depois de um ataque a uma caserna indiana na Caxemira, o governo de Narendra Modi, acusando o Paquistão de fomentar a agressão militar, ameaçou abandonar o tratado do Indo. Segundo um jornal indiano, a Índia podia "fechar a torneira do rio Indo" para pressionar o Paquistão.

De fato, o Indo cruza o território indiano a montante do território paquistanês. Os especialistas consideram que Nova Délhi não conseguirá desviar ou bloquear o Indo sem inundar e destruir suas próprias cidades e, em particular, Srinagar, a capital da Caxemira indiana. Mas ameaça indiana paira no ar.

Com os protestos que espocam na região fronteiriça e no Paquistão contra a decisão da Índia e abolir a autonomia da Caxemira, o contencioso sobre a bacia do Indo aguça as tensões entre os dois países.

No quadro do aquecimento planetário que acelera o degelo do Himalaia e altera o fluxo dos rios da região, o embate pelo abastecimento dos canais de irrigação pode gerar, pela primeira vez na história moderna, um conflito internacional pelo controle do fluxo dos rios. Uma guerra pela água.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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