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Luiz Felipe Alencastro


O Papa Francisco e o mundo árabe

5.fev.2019 - Papa Francisco celebra missa para aproximadamente 170.000 pessoas nos Emirados Árabes Unidos - GIUSEPPE CACACE/AFP
5.fev.2019 - Papa Francisco celebra missa para aproximadamente 170.000 pessoas nos Emirados Árabes Unidos Imagem: GIUSEPPE CACACE/AFP
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

07/02/2019 12h09

O Papa Francisco concluiu na terça-feira (5) uma visita oficial aos Emirados Árabes Unidos (EAU). Considerada, muito justamente, como histórica, a viagem representa um marco importante nas relações inter-religiosas mundiais. Segunda religião mundial depois do cristianismo, o islamismo é o credo que mais cresce em todos os continentes. Os cristãos vivendo nos Emirados correspondem a 9% da população do país. Note-se que o Papa João Paulo II já havia visitado o Marrocos (1985) e o Egito (2000). Mas é primeira vez que um chefe da Igreja visita um país da Península Arábica, onde se situam Meca, Medina e as origens do Islã.

A escolha de Abu Dhabi, capital e mais poderoso dos sete emirados da federação que forma os EAU, para a visita de Francisco, tem significado especial. Abu Dhabi conta com 78% de estrangeiros, de não cidadãos, entre seus 2,5 milhões de habitantes. No total dos sete emirados, há 85% de estrangeiros. Além dos cidadãos emiradenses, há muitos muçulmanos vindos da Índia, Bangladesh, Paquistão, Filipinas e Indonésia, o maior país muçulmano do mundo. Assim, a diversidade de nacionalidades dos muçulmanos vivendo nos EUA ilustra o fato de que a maioria dos seguidores do Islã é formada por povos não árabes.

Embora o islamismo seja religião de Estado, comparativamente aos outros países da região, há relativa liberdade religiosa nos EAU. E não só para os cristãos.  Ao lado das oito igrejas católicas, há templos protestantes e mórmons. De seu lado, os hinduístas obtiveram o direito de incinerar seus mortos no território emiradense, prática que é rigorosamente proibida pela religião muçulmana. Com 3,3 milhões de emigrantes, tanto muçulmanos como hinduístas, trabalhando no país, a Índia é um parceiro estratégico dos Emirados. No ano passado, em visita à Dubai, o centro financeiro dos EAU, o primeiro ministro da Índia, Narendra Modi, elogiou a tolerância religiosa prevalecente no país.

Durante sua visita, o Papa Francisco se reuniu com 150 lideres religiosos do mundo inteiro. Entre os convidados estava o rabino Mark Schneier, dirigente da Jewish-Muslim Interfaith Foundation, dos Estados Unidos. Segundo Schneier, há entendimentos com as autoridades locais para que a pequena comunidade judaica existente em Abu Dhabi e Dubai, cujos cultos só podem ser praticados privadamente, disponha de uma verdadeira sinagoga.   "A visita do Papa reforçou as relações entre os cristãos e os muçulmanos, mas também ajudou os judeus", declarou o rabino Mark Schneier.

Decerto, os Emirados são uma autocracia e os direitos de cidadania são restritos. Nenhum estrangeiro adquire nacionalidade pelo nascimento no país, pelo direito de solo, e a naturalização só pode ser requerida depois de 30 anos de residência. O país ainda tem um longo caminho pela frente antes de se transformar numa sociedade aberta. Porém, quando se considera que, de cada 100 habitantes, 85 são estrangeiros, percebe-se a dimensão e o ineditismo do experimento multicultural e nacional em curso nos Emirados.