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Luiz Felipe Alencastro


A crise argelina, pesadelo de Macron

10.abr.16 - O presidente argelino, Abdelaziz Boutefika, durante visita do então primeiro-ministro francês, Manuel Valls - Eric Feferberg/AFP
10.abr.16 - O presidente argelino, Abdelaziz Boutefika, durante visita do então primeiro-ministro francês, Manuel Valls Imagem: Eric Feferberg/AFP
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

05/03/2019 13h44Atualizada em 05/03/2019 15h07

Neste domingo (3), dia útil nos países muçulmanos, foi registrada a candidatura de Abdelaziz Bouteflika à eleição presidencial marcada para o dia 18 de abril. Desafiando manifestações populares, o atual presidente da Argélia se encontra na Suíça em tratamento médico e raramente aparece em público desde o derrame cerebral sofrido em maio de 2013. Uma foto dele datada de 2016 mostra um homem já diminuído com o olhar esgazeado. 

A história de Bouteflika se mistura à história da guerra de independência e do Estado argelino, que se tornou soberano em 1962. Ligado desde 1958 ao núcleo militar comandado por Houari Boumedienne (presidente do país entre 1965 e 1978), Bouteflika foi nomeado chanceler em 1963, com 27 anos, conservando o cargo ministerial por mais de 15 anos, como líder do terceiro-mundismo argelino.

Marginalizado depois da morte de Boumedienne, Bouteflika voltou à vida política na campanha eleitoral de 1999, quando inaugura o primeiro de seus cinco mandatos sucessivos na presidência. No meio da guerra civil opondo o exército argelino a grupos armados islamistas, Bouteflika consegue por termo ao conflito que durou uma década e fez mais de cem mil mortos. Boa parte de seu prestígio no país e no exterior se deve à política de reconciliação nacional implementada no início de sua presidência. 

Porém, sua longa permanência no poder paralisou a política do país, deixando poucas alternativas à sua sucessão. Tal é o contexto em que transcorrem em Argel, Constantine e outras cidades do país as manifestações mobilizadas por jovens rebelados contra a candidatura do "presidente fantasma". "Se não houver uma renúncia (de Bouteflika) à candidatura (...) que é uma candidatura imaginária e surrealista, eu penso que a rua não se calará", declarou à rádio francesa France Info o ex-primeiro ministro Ali Benflis, principal opositor ao atual presidente. Decidido a enfrentar Bouteflika nas urnas, Ali Benflis renunciou à candidatura, estimando que as atuais manifestações invalidavam antecipadamente as eleições presidenciais.

A situação inquieta os países vizinhos, a Tunísia e o Marrocos, que temem um período de instabilidade regional e, pior ainda, a ressurgência do terrorismo islamista na Argélia. Mas inquieta também, e bastante, a França.

Na verdade, desde de os anos 1990, na época da guerra civil argelina, os dirigentes e os especialistas franceses temem que os conflitos argelinos provoquem um êxodo maciço de refugiados ou emigrantes para a França. As estatísticas são pouco exatas. Mas havia, em 2014, perto de 800 mil eleitores argelinos, ou com dupla nacionalidade francesa, residentes na França. Ou seja, acrescentando-se as crianças, pode haver mais de 1 milhão de pessoas de origem argelina vivendo na França. Para além das cifras e dos laços familiares, as longas relações franco-argelinas fazem do território francês o destino privilegiado dos argelinos insatisfeitos ou ameaçados em seu país. 

Cercado pelos problemas internos suscitados pelo levante dos coletes amarelos, o presidente Emmanuel Macron segue atentamente os acontecimentos que sacodem a Argélia. Numa reportagem recente do semanário parisiense "Le Nouvel Observateur", uma alta fonte da presidência francesa declarou: "O pesadelo do presidente da República é a Argélia... As mais altas autoridades do Estado estão aterrorizadas com a perspectiva de desestabilização de nossa antiga colônia após a morte de Bouteflika".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL