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Luiz Felipe Alencastro

Manifestações em Paris escancaram derrocada dos partidos tradicionais

Lucas Barioulet/AFP
"Coletes amarelos" protestam em Paris e enfrentam a polícia Imagem: Lucas Barioulet/AFP
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

06/12/2018 21h42

As manifestações em Paris e a perplexidade do presidente Emmanuel Macron frente ao movimento popular que se opõe ao seu governo é mais um sinal do desgaste institucional das democracias ocidentais.

Para explicar as manifestações, marcadas pelos enfrentamentos mais violentos sucedidos desde maio de 1968, a mídia parisiense tem exposto análises parcialmente baseadas na história nacional. A hostilidade da província à capital francesa, centralizadora e alegadamente afastada da vontade popular, a resistência aos novos impostos e os surtos insurrecionais que permeiam a vida política são, de fato, traços tradicionais da história do país. Junte-se a inexperiência de Macron, alçado à presidência sem ter exercido nenhum mandato eleitoral anteriormente e, mais importante ainda, a inconsistência de seu partido.

Fundado há dois anos e meio e composto por uma maioria de deputados novatos o partido de Macron, La Republique em marche (LREM), não está enraizado na sociedade francesa.

As surpresas políticas dos últimos tempos, algumas com consequências graves nos países onde elas ocorreram, contêm esta mesma mescla de passado e presente. Quando os eleitores do Reino Unido votaram em favor do Brexit (junho de 2016), houve analistas que associaram velhas (nostalgia da hegemonia imperial) e novas (ojeriza aos imigrantes) peculiaridades britânicas para interpretar o resultado do referendo.

A mesma coisa aconteceu na vitória de Donald Trump (novembro de 2016). Foi dito então que a eleição de uma vedete da televisão e outsider político, vencedor de presidenciáveis republicanos mais experientes nas prévias e da candidata democrata favorita na presidencial, anunciava o retorno do isolacionismo e do protecionismo americano dos anos 1920-1930.

No caso do sucesso da extrema-direita xenófoba na Itália, da virada autoritária na Hungria e na Polônia, ou ainda na vitória do Syriza, aliança da esquerda radical, na Grécia, os editorialistas também sublinham fatores referentes à história nacional de cada um destes países. 

Tais explicações ligadas a causas nacionais, de fundamento histórico, possuem toda pertinência e continuam válidas. Mas a sequência das revoltas eleitorais e populares guarda uma característica comum que inspira uma interpretação mais geral. 

Ocorreu, e ainda está em curso, tanto nas velhas democracias (Estados Unidos, Reino Unido, França), como nos países saídos de ditadura e mais recentemente dotados de regime democráticos (Grécia, Polônia, Hungria) um esgotamento das lideranças tradicionais e das máquinas partidárias que asseguraram, até os anos recentes, o equilíbrio institucional desses países.

Em consequência da globalização, do aumento do fluxo imigratório e da grande recessão iniciada em 2008, cujos efeitos ainda pesam sobre alguns países, sucederam mudanças culturais, sociais e políticas que escapam aos partidos, às corporações e aos sindicatos. Neste contexto mais amplo, o impulso que a mídia social, Facebook ou WhatsApp terá dado à insatisfação e às revoltas eleitorais advindas em tal ou tal país, é apenas um sintoma, e não a causa dos desastres políticos.