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Luiz Felipe Alencastro


A derrocada da homeopatia

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Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

17/05/2019 18h56

A imprensa francesa anunciou que os remédios homeopáticos não serão mais reembolsados pelo seguro do serviço público de saúde (Sécurité Sociale) que cobre praticamente toda a população do país. Tal seria a decisão que a Haute Autorité de Santé, com funções similares às da Anvisa e da ANS, tornará pública em breve.

Atualmente, ao comprar certos remédios homeopáticos devidamente receitados por médicos, o paciente obtém um reembolso de 30%. Doravante, quem quiser utilizá-los pagará a totalidade dos preços nas farmácias. Os três laboratórios franceses (Boiron, Lehning e Weleda) que fabricam produtos homeopáticos protestaram e um deles suspendeu a cotação de suas ações na Bolsa de Paris.

Em agosto de 2017, a National Health Service, o serviço público de saúde inglês, havia anunciado o fim dos reembolsos de tratamentos homeopáticos e aconselhado o governo do Reino Unido a cessar o financiamento dos hospitais homeopáticos. Em outubro do mesmo ano, Conselho Científico das Academias de Ciências Europeias (EASAC) publicou um relatório denunciando a ineficácia da homeopatia e desaconselhando os serviços de saúde europeus de reembolsarem tais remédios. Para a EASAC não existe "nenhuma prova cientificamente estabelecida e reprodutível da eficácia dos produtos homeopáticos em nenhuma doença".

Agora o governo francês parece estar pronto para implementar essas medidas. As instituições de ensino médico e farmacêutico discutem a proposta de suspender seus cursos nesta área médica e no ano passado, a Faculdade de Medicina de Lille, no norte da França, já suprimiu o diploma universitário de homeopatia. Resta que, ao contrário, da situação do Reino Unido, a homeopatia é bastante popular na França, como também na Alemanha e na Áustria. Uma sondagem publicada em janeiro deste ano indicou que 72% dos franceses acreditam nos efeitos benéficos da homeopatia. Segundo a Ordem dos Médicos da França, 52% dos franceses já usaram remédios homeopáticos.

Note-se que médicos, farmacêuticos e outros propagandistas franceses da homeopatia foram os principais difusores deste método terapêutico no Brasil. O pioneiro da homeopatia no Brasil foi o francês Benoit Mure, um dos fundadores da colônia socialista do Saí, perto de São Francisco do Sul, em Santa Catarina, em 1841. A experiência comunitária fracassou e os colonos franceses se dispersaram na região ou retornaram para a França. Mure se estabeleceu no Rio de Janeiro, fundou o Instituto Homeopático do Brasil, e ganhou discípulos que difundiram e implantaram a homeopatia no país.

Na mesma época, difundiu-se no Brasil o kardecismo, também de origem francesa. Aliás, tanto Benoit Mure (nascido em 1809), como Allan Kardec (que se chamava Hyppolite Rivail, nascido em 1804), vieram da cidade de francesa de Lyon, um dos centros de referência para os médicos e farmacêuticos homeopatas brasileiros. Muito seguida e utilizada, a homeopatia é menos questionada no Brasil. Mas cedo ou tarde o debate sobre a eficácia desta terapia deverá ser abordado pelas autoridades competentes brasileiras.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL