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Luiz Felipe Alencastro


África: novo horizonte digital e industrial?

Jerome Delay/AP
3.jun.2018 - Imigrantes cruzam o deserto do Saara para fugir da violência Imagem: Jerome Delay/AP
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

2019-06-02T22:25:37

02/06/2019 22h25

Os 54 países que compõem as nações do continente africanos lidam com um problema grave desde seu nascimento: a artificialidade de suas fronteiras territoriais. Seguindo muitas vezes esquemas arbitrários desenhados nas chancelarias europeias, três quartos das atuais fronteiras nacionais africanas foram traçadas entre 1885 em 1910, na sequência da Partilha da África organizada pelas potencias coloniais na Conferência de Berlim (1884-1885). A média mundial de fronteiras nacionais que seguem linhas geométricas é de 25%. Porém, na África esta média salta para 42%, ilustrando a intervenção decisiva da régua e compasso de europeus que pouco ou nada conheciam dos povos africanos.

Obviamente, as fronteiras americanas também foram quase todas desenhadas pelos colonizadores europeus. Mas na América, as independências nacionais foram obra dos colonos. Enquanto na África, onde a presença europeia era mais reduzida, foram os colonizados que lideraram as independências reafirmando culturas enraizadas na época pré-colonial. O mapa da Guiné Equatorial, um retângulo quase perfeito cortado em 1885 para a Espanha, entre o território do Gabão francês e dos Camarões, então colônia alemã, representa o exemplo mais flagrante das manipulações europeias que ainda pesam sobre o destino das nações africanas.

Contudo, a evolução recente africana está criando um novo marco no século XXI. Um artigo do economista Noah Smith, publicado pela Bloomberg, retoma os pontos principais do livro de Irene Yuan Sun, The Next Factory of the World (2017), para dar relevo à industrialização da África. Os motivos da mudança são múltiplos. Frente à guerra comercial e tarifária sino-americana e aos custos crescentes dos salários chineses manufaturas multinacionais se mudarão para a África, onde a mão de obra é abundante e barata.

O processo já está em curso. Mas a novidade é o surgimento de uma vaga de investimento privado de empresários independentes chineses que criam novas fábricas na África. A previsão mais recente do FMI, citada no artigo, mostra que na lista das dez economias que mais crescerão em 2019, seis são africanas, entre as quais a Etiópia, chamada, desde 2015, de "China da China".

Outro dado importante é a integração digital progressiva dos países do continente africano. Em 2017, foi a África que registrou a maior porcentagem de crescimento de usuários internet: 20%. Os polos de desenvolvimento de startups (Tech Hub) crescem em vários países africanos, com destaque para a Nigéria e a África do Sul, segundo o site especializado Tech News 24-7.

Para o economista Noah Smith, o processo de industrialização da África é um dos fatos mais importantes do nosso tempo.