Topo

Coluna

Luiz Felipe Alencastro


A demissão de Theresa May e a União Europeia

Tolga Akmen/AFP
24.mai.2019 - Theresa May anunciou sua renúncia ao cargo de primeira-ministra do Reino Unido para o dia 7 de junho Imagem: Tolga Akmen/AFP
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

2019-05-24T17:27:03

24/05/2019 17h27

Esperado há várias semanas, o anúncio da demissão de Theresa May foi recebido sem surpresas em Bruxelas e nas capitais dos outros 27 países membros da União Europeia (UE).

O que vai ocorrer em seguida? No começo de junho, quando a saída de Theresa May se tornar efetiva, seu sucessor na chefia do partido conservador será nomeado primeiro-ministro pela rainha. De fato, se não houver eleições antecipadas, os parlamentares conservadores, aliados aos ultraconservadores irlandeses do Democratic Unionist Party, têm maioria até o final da legislatura, em 2022.

Os editorialistas londrinos, confirmando uma sondagem publicada na semana passada pelo The Times, apontam Boris Johnson, como o provável sucessor de Theresa May. Nesta hipótese, aumentam as chances de ocorrer um hard Brexit, uma saída radical, não negociada, do Reino Unido (RU). Convicto que o hard Brexit é viável, Boris Johnson, em campanha para o posto de primeiro-ministro, declarou hoje (24), "Nós sairemos da UE no dia 31 de outubro, com acordo ou sem acordo", com os outros 27 países membros.

Porém, as consequências da saída sem acordo prévio serão pesadas. O RU perderá acesso livre, sem tarifas, ao maior bloco comercial do mundo. Deverá assim negociar, junto à Organização Mundial do Comércio, novos acordos tarifários com os 27 membros, e também com os países do resto do mundo com os quais a UE estabeleceu tratados alfandegários em nome do governo de Londres.

Some-se ainda os custos de recriar novos controles e postos de funcionários para enquadrar esses novos fluxos de comércio. O Bank of England (banco do central do país), previu em novembro uma queda de 8% do PIB britânico no ano seguinte ao hard Brexit, uma queda de um terço nos preços dos bens imobiliários e um aumento da taxa de juros para travar o impacto inflacionário.

Completando a análise Mark Carney, diretor do Bank of England, dramatizou ainda mais a situação declarando: "Nossa tarefa não é desejar o melhor, é nos preparar para o pior".

De seu lado, os europeus já avisaram que a saída de Theresa May não mudará o conteúdo do tratado bilateral do Brexit, negociado durante dois anos e assinado em novembro de 2018 entre Londres e Bruxelas. No final de março, a Comissão Europeia declarou que os 27 países se mantiveram unidos durante as negociações e que eles continuarão unidos frente a uma "eventual ausência de acordo" com o governo de Londres.

Em outras palavras, os europeus estarão preparados para o hard Brexit. Caso o novo primeiro-ministro britânico decida seguir este caminho, como afirmou Boris Johnson, ele encontrará resistências em Westminster, dado que a maioria dos parlamentares britânicos, tanto conservadores como trabalhistas, se opõe a uma saída não negociada do Reino Unido.

Como mostraram as recentes eleições locais e as sondagens para as eleições europeias, a possibilidade de convocar eleições antecipadas é uma má opção para os conservadores e pode acentuar a migração de seus eleitores para o partido centrista e pró-europeu Liberal-Democrats, ou para o Brexit Party mais radical, de Neil Farage.

Neste contexto, frente ao hard Brexit, só parece haver uma alternativa: o surgimento de uma maioria parlamentar favorável a um novo referendo sobre o Brexit. Tal é a opinião expressa pelo jornal londrino pró-europeu "The Independent" num editorial de ontem. Se não, resta aos britânicos seguir o conselho do diretor do seu banco central e se preparar para o pior.